Eurocopa

O estalo mágico de Schick rendeu um golaço inédito à Eurocopa e um lugar na memória do torneio ao tcheco

Os gols do meio do campo até se tornaram mais comuns nos últimos anos, mas não tinham vindo numa grande competição de seleções

Alguns gols se gravam na memória coletiva de imediato. E a carreira de Patrik Schick provavelmente terá “um antes e um depois” diante do lance absurdo que o atacante protagonizou nesta segunda-feira de Euro 2020, dentro do Hampden Park. Alguns podem até discutir a parcela de responsabilidade do goleiro David Marshall na jogada. Ainda assim, o tcheco teve muitos méritos e foi capaz de produzir uma pintura histórica em Glasgow. Muita gente já conseguiu o tal “gol que Pelé não fez”, mas não numa competição de seleções do gabarito de uma Eurocopa. Schick eternizou a proeza, numa tarde em que conduziu a vitória da República Tcheca por 2 a 0 sobre a Escócia.

Patrik Schick é um jogador talentoso, mas de altos e baixos ao longo da carreira. Formado no Sparta Praga, o centroavante estourou mesmo na Sampdoria. Uma temporada bastou para que o jovem se tornasse uma das promessas mais cobiçadas do Calcio e para que a Juventus acionasse sua multa rescisória. Porém, um problema cardíaco detectado nos exames médicos impediu a transferência à Velha Senhora. Depois de novos exames que mostraram como a questão não atrapalharia a sequência de sua carreira, o tcheco assinou com a Roma. Mas, entre as dificuldades de adaptação e uma certa falta de confiança, o centroavante não deixou saudades em suas duas temporadas no Estádio Olímpico.

A recuperação de Schick aconteceu na Bundesliga. Primeiro, como um reserva muito útil no RB Leipzig, que acertou o empréstimo do atacante em 2019/20 e contou com suas boas participações a partir do banco de reservas. O desempenho interessante nos Touros Vermelhos levou o Bayer Leverkusen apostar em sua contratação e também contou com um ano razoável de Schick neste 2020/21. Não produziria um caminhão de gols na BayArena, mas exibiu seus melhores números desde os tempos de Sampdoria e teve seus lampejos para servir de referência à linha de frente, numa equipe de temporada irregular.

Aos 25 anos, Schick já demonstrou que não será um craque – como alguns até podiam apostar nos tempos de Sampdoria. Ainda assim, é importante o suficiente para comandar o ataque da República Tcheca. Numa seleção que não conta com tantos talentos assim nas grandes ligas europeias, a combinação entre presença física e refinamento técnico já dá um peso ao centroavante. Ele é um nome frequente na equipe principalmente desde 2018, ausente em raros hiatos por questões físicas. Virou um ponto focal na linha de frente e deu sua contribuição na campanha de classificação à Euro 2020, com quatro gols – sobretudo em vitórias decisivas contra Bulgária e Montenegro.

A retomada na Alemanha ajudou. Ainda assim, a expectativa que se cria ao redor de Schick na seleção da República Tcheca atinge outro nível. E a influência do centroavante no jogo da equipe ficou clara desde o primeiro tempo contra a Escócia. Num time que buscava acelerar um pouco mais no ataque e arriscar no jogo aéreo, a importância do camisa 10 era óbvia. Seus 45 minutos iniciais já tinham sido bons o suficiente, forçando uma defesa difícil de David Marshall nos primeiros minutos e depois acertando a cabeçada certeira para abrir o placar, mesmo no meio dos zagueiros. Mas nada comparado à arte que assinou logo na volta do intervalo.

Até parecia que o jogo penderia a favor da Escócia. A pressão na volta do intervalo aumentava e a defesa tcheca precisava trabalhar. Então, Schick desafogou seus companheiros com um toque de genialidade. Marcar um gol do meio-campo tem muito de observação, para ler o posicionamento do goleiro e saber o momento certo de arriscar. Todavia, o principal é mesmo a precisão e a ousadia. O centroavante foi perfeito na execução de seu chute de primeira. O balaço saiu da altura do círculo central fazendo uma curva perfeita e morrendo no alto das redes. O desespero de Marshall ao tentar impedir o inevitável confere um pouco mais de beleza à pintura.

Se os gols do meio de campo são até frequentes nos últimos anos, em consequência dos posicionamentos de equipes e goleiros, eles nunca tinham acontecido numa Eurocopa ou numa Copa do Mundo. Segundo dados do Mister Chip, o golaço de Schick é o de maior distância ocorrido nas duas competições. Os 49 metros registrados pelo tcheco superam, e muito, os 34 metros de Rafael Gordillo pela Espanha contra a Dinamarca em 1988 – naquele que, até então, era o tento mais distante já registrado na competição europeia.

De certa maneira, Schick consegue inaugurar uma era e emplacar seu ineditismo. O nome do tcheco fica gravado nos livros sobre a competição e também nos vídeos de mais belos gols da história da Euro. Se os grandes torneios geram heróis, o camisa 10 vai representar sempre uma lembrança boa aos seus compatriotas – numa terra onde Antonín Panenka já teve outro tipo de pioneirismo no certame continental, afinal. Quem sabe Schick consiga batizar sua própria obra-prima, ainda que a façanha desta fase de grupos esteja distante da importância daquele pênalti de Panenka na decisão.

Ao longo da tarde no Hampden Park, a Escócia teve mais volume de jogo e criou mais oportunidades. Os méritos da República Tcheca em sua vitória estiveram mais na precisão dos lances, de quem acertou a meta em sete das dez finalizações tentadas. Os goleiros trabalharam bastante e Marshall foi importante para manter sua equipe no jogo. Mas, num estalo, Schick produziu algo fantástico. Talvez seja um lampejo como outros de sua carreira, talvez seja o ponto de virada a quem já prometeu mais. Certamente é seu passo à eternidade da Euro, mesmo que seja por uma jogada. Uma jogada bela o suficiente para ser aplaudida e relembrada por décadas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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