Eurocopa

O duelo contra a Inglaterra em Wembley que marcou o nascimento da “Dinamáquina” em 1983

Pelas eliminatórias da Euro 1984, uma vitória da Dinamarca em Wembley ampliaria a fama do nascente esquadrão

Uma das seleções mais emblemáticas do futebol mundial dos anos 1980, a Dinamarca de Sepp Piontek – ou “Dinamáquina”, como foi apelidada por aqui – é um esquadrão do qual se pode dizer ter data e local de nascimento bem definidos: Wembley, 21 de setembro de 1983. Foi neste dia e no lendário palco londrino que a Dinamite Dinamarquesa anunciou à Europa sua chegada com uma impositiva vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra, que encaminhou sua classificação à fase final da Eurocopa de 1984, na França – na qual brilharia ao alcançar as semifinais.

A caminho do sonho

Durante muitos anos o Sportslørdag, tradicional programa esportivo da televisão da Dinamarca, exibiu jogos do futebol inglês regularmente nas tardes de sábado. A audiência por vezes superava os 30% da população, o que dá uma medida do impacto do jogo da nação britânica, seus clubes, competições e estádios, no imaginário do público dinamarquês. Wembley tinha uma aura. “E essa aura”, escreveram Rob Smyth, Lars Eriksen e Mike Gibbons, autores do livro Danish Dynamite, “era ainda maior na Escandinávia”.

Não havia, porém, muitos jogadores dinamarqueses com passagem pelo futebol inglês até o início dos anos 1980. Preben Arentoft, meia revelado pelo Brønshøj que seguiu ao Greenock Morton escocês em 1965 e de lá passou por Newcastle (com o qual venceu a Copa das Cidades com Feiras de 1969) e Blackburn, era um caso raro. Sua transferência para o futebol profissional britânico, no entanto, custou a ele a exclusão de sua seleção, restrita naquele tempo a jogadores amadores, algo que só mudaria na década de 1970.

Houve ainda a surpreendente guinada do destino quando, em 1982, o talentoso meia-atacante Allan Simonsen, ganhador da Bola de Ouro em 1977 como atleta do Borussia Mönchengladbach, de repente se viu sem espaço no Barcelona (clube o qual conduzira ao título da Recopa naquele ano) assim que os catalães contrataram Diego Maradona. O dinamarquês rescindiu seu contrato e assinou com o Charlton, da segunda divisão inglesa, numa transferência que chocou a Europa, ainda que sua passagem tenha sido curta.

Outro jogador do país quase viveu a experiência de atuar na Inglaterra naquele mesmo período: um jovem atacante de 18 anos chamado Michael Laudrup. Em meados de 1983, sua contratação pelo Liverpool estava quase fechada quando o clube decidiu alterar uma cláusula da proposta, aumentando a duração contratual de três para quatro anos. O jogador que pertencia ao Bröndby não concordou e optou por fechar com a Juventus, naquela seria a maior transferência do futebol dinamarquês até aquele momento.

Laudrup era a mais recente revelação de uma seleção dinamarquesa que já vinha chamando a atenção dos observadores europeus mais atentos. Entre eles, o novo técnico da Inglaterra, Bobby Robson, que assumira o cargo após a Copa do Mundo de 1982 vindo de um longevo e excelente período de 13 anos como treinador do Ipswich, clube do qual mudara o patamar, conduzindo a um título da FA Cup e outro da Copa da Uefa, além de dois vice-campeonatos seguidos na liga e diversas outras campanhas expressivas.

Sepp Piontek (Foto: Imago / One Football)

A Dinamarca chamava a atenção desde 1981, quando venceu oito das nove partidas que realizou naquele ano – incluindo um 3 a 1 sobre a Itália, futura campeã do mundo, em Copenhague pelas Eliminatórias da Copa da Espanha. A maior parte de seus jogadores atuava em ligas de bom nível da Europa, como a da Bélgica, da Holanda e da Alemanha Ocidental, e quase sempre em clubes importantes. E, sobretudo, havia no time dirigido pelo alemão-ocidental Josef “Sepp” Piontek uma boa mescla de juventude e experiência.

Aquela também era uma equipe que chamava a atenção graças a uma nova configuração tática implementada por Piontek: um versátil e revolucionário 3-5-2, com o líbero atrás dos dois beques tendo liberdade para o apoio, assim como os alas. Ainda que não fosse necessariamente utilizado sempre, em todos os jogos, como lembra Laudrup: “Taticamente tínhamos um time estranho. Às vezes jogávamos com lateral-esquerdo e sem lateral-direito. Às vezes eu recuava ao meio-campo, às vezes era 3-6-1, às vezes 4-5-1, às vezes 3-5-2”.

Piontek partia da premissa de que a maioria das equipes de então atuavam só com dois homens de frente e assim três zagueiros (sendo um na sobra) bastariam para marca-los. A essa concepção original, acrescentava a linha de impedimento, tomada emprestado de belgas e holandeses pelos dinamarqueses que atuavam nesses países. Além disso, o líbero Morten Olsen também destacaria se tratar de uma geração de jogadores “de rua”, portanto capaz de assimilar diferentes situações e ao mesmo tempo sem medo de arriscar.

Bobby Robson estava devidamente impressionado. Em 22 de setembro de 1982, após o primeiro confronto entre as duas equipes pelas Eliminatórias da Eurocopa terminar empatado em 2 a 2 no Idraetsparken de Copenhague, o técnico inglês rasgou elogios ao adversário: “Teria sido injustiça se tivéssemos vencido. A Dinamarca foi brilhante. Não vi muitos times melhores na última Copa do Mundo. Era como se eles tivessem 12 jogadores e nós, 11. O empate foi um ótimo resultado e devemos ficar muito gratos com ele”, saudou.

Entre a ida e a volta

A imprensa inglesa, porém, não concordou com o treinador, tratando a atuação da equipe – que, embora dominada, esteve duas vezes à frente no placar e cedeu o empate no último minuto – como “lixo” e “vergonha”. Era apenas a estreia de Robson no comando do English Team, mas ele já era pressionado especialmente por ignorar na convocação não só o astro Kevin Keegan (que nunca mais voltaria a defender a Inglaterra), como também Glenn Hoddle, do Tottenham, o meia mais técnico e inteligente do futebol do país.

Ainda naquele ano de 1982, a Inglaterra seguiu sua campanha nas Eliminatórias batendo a Grécia em Atenas por 3 a 0 e arrasando a fraca seleção de Luxemburgo em Wembley por 9 a 0. Após a virada do ano, parou num 0 a 0 diante dos gregos em casa, mas se recuperou ao vencer a Hungria por 2 a 0, também em Londres. A Dinamarca foi mais discreta: fez 2 a 1 nos luxemburgueses fora antes de superar helênicos (1 a 0) e magiares (3 a 1) em Copenhague. Mas na reta final, teria de viajar para pegar os três principais adversários.

Embora até demonstrasse um futebol convincente e certa persistência nessas vitórias (os triunfos sobre Grécia e Hungria vieram com gols depois dos 30 minutos da etapa final), aquela equipe só passou de fato a ser encarada como perigo real ao bater a França, com Michel Platini e tudo, por 3 a 1 num amistoso em Copenhague, duas semanas antes de encarar a Inglaterra em Wembley pela partida que, conforme aquele Grupo 3 foi se desenrolando, se mostraria crucial na definição da equipe classificada à Eurocopa de 1984.

Presente nas tribunas do estádio Idraetsparken na vitória dinamarquesa sobre a França, Bobby Robson não escondia de ninguém que a equipe de Piontek era o adversário o qual ele havia mais vezes observado para só um jogo em toda a sua carreira. “Qualquer jogador deles poderia atuar num clube inglês de ponta, e eles são facilmente uma das quatro melhores seleções na Europa”, listou. Sobre a possibilidade de Laudrup começar o jogo de Wembley no banco, o treinador inglês brincou: “Se eles não o querem, eu quero”.

Essa possibilidade era factível, dadas as boas opções de jogadores de frente em forma das quais Piontek dispunha naquele momento. Além de Allan Simonsen (então já de volta ao futebol local atuando pelo pequeno Vejle, de sua cidade natal, depois que o Charlton precisou dispensá-lo por não conseguir arcar com seus salários), o treinador poderia contar com Preben Elkjaer ou mesmo o diminuto e ligeiro Jesper Olsen, que dias antes ajudara seu clube, o Ajax, a demolir o Feyenoord de Johan Cruyff e Ruud Gullit por sonoros 8 a 2.

Com a baixa confirmada do lesionado capitão Bryan Robson, do Manchester United, e novamente descartando Keegan e Hoddle (que nos 13 primeiros jogos de Bobby Robson no comando só foi utilizado duas vezes), o técnico da Inglaterra fez mistério. Até quebrou uma tradição histórica dos comandantes do English Team ao retardar o máximo possível a divulgação da escalação: “Não é meu trabalho escrever os jornais de quarta-feira de manhã”, rechaçou com um certo mau humor. Havia no ar um clima tenso, de decisão.

Até porque a situação do Grupo 3 naquele momento deixava cada vez mais evidente que a disputa pela classificação se resumiria a aqueles dois candidatos. A Inglaterra havia somado oito pontos em cinco jogos. A Dinamarca estava um ponto atrás, mas com uma partida a menos. Caso vencesse, pularia para a liderança e dependeria de quatro pontos em seus três jogos seguintes – um deles contra Luxemburgo em casa – para confirmar a vaga mesmo que os ingleses também ganhassem seus dois últimos compromissos.

Até aquele dia, a Inglaterra vencera 21 de seus 28 jogos de competição em Wembley contra times de fora das Ilhas Britânicas. Só perdera um, para a Alemanha Ocidental em 1972. A Dinamarca só havia enfrentado os ingleses no estádio uma vez, sendo uma das “vítimas” ao cair por 1 a 0 em 12 de setembro de 1979, pelas Eliminatórias da Eurocopa. Seis atletas que atuaram naquele que era o segundo jogo de Piontek no comando da seleção voltariam a campo quatro anos depois, no confronto que marcaria aquela geração.

O jogo

Mesclando experientes e novatos, a Inglaterra entrou em campo com Peter Shilton sob as traves; a dupla do Ipswich, Russell Osman e Terry Butcher, formava o miolo de zaga, enquanto Phil Neal e Kenny Sansom eram os laterais. No meio-campo, Sammy Lee, do Liverpool, jogava à frente de seu companheiro de clube Neal pelo lado direito. No centro, estavam o capitão Ray Wilkins e John Gregory, do Queens Park Rangers. E pela esquerda, juntando-se ao ataque com mais frequência, estava John Barnes, ponta de 19 anos do Watford.

A dupla de frente era a mesma que disputara a Copa do Mundo: o talentoso e polivalente Trevor Francis, que se transferira ao milionário futebol italiano para defender a Sampdoria logo após o Mundial espanhol, tinha como companheiro o matreiro centroavante Paul Mariner, outro nome do Ipswich a quem Bobby Robson conhecia bem. Era com esse 4-4-2 ocasionalmente passando a um 4-3-3 (com Francis e Barnes operando pelas pontas) que o treinador pretendia partir para cima da Dinamarca e se aproximar da vaga.

Com a ausência prolongada do talentoso ponta Frank Arnesen, que sofria com problemas físicos, a Dinamarca levou a campo uma escalação “taticamente estranha”, como diria Laudrup. À frente do goleiro Ole Kjær estava uma defesa com lateral só de um lado: Ole Rasmussen pela direita, possivelmente visando conter John Barnes. Pelo meio, além do líbero e capitão Morten Olsen, o nome mais experiente do time e com liberdade para ir à frente, havia os sólidos zagueiros Søren Busk, pela direita, e Ivan Nielsen, pela esquerda.

No meio-campo, Jens Jørn Bertelsen fazia o papel de volante distribuidor de jogo, tendo ao seu lado Søren Lerby, jogador do Bayern de Munique e um portento físico que não só fechava a faixa central com Bertelsen, como fazia a cobertura defensiva do lado esquerdo (servindo como uma espécie de lateral ou ala) e ainda apoiava com regularidade. À frente deles, Allan Simonsen era o maestro do setor ofensivo, municiando o ataque sempre com muita habilidade e visão de jogo. E seria decisivo, como veremos.

Nas pontas, se pela direita havia Klaus Berggreen, do Pisa, um jogador mais batalhador do que habilidoso e que em breve seria remanejado para fazer a dupla de volantes com Bertelsen, pela esquerda estava o irrequieto Jesper Olsen, de novo em grande fase após se recuperar de lesão que quase o deixou de fora da partida. E pelo centro do ataque, Michael Laudrup, que dez dias antes fizera sua estreia na Serie A italiana defendendo a Lazio por empréstimo. Com isso, Elkjaer começaria no banco, aguardando uma chance.

Com menos de um minuto de jogo, a Dinamarca disse a que veio: Allan Simonsen recuperou uma bola na intermediária defensiva e de lá mesmo fez um lançamento longo para Laudrup nas costas da defesa inglesa. Shilton saiu do gol um tanto afobado e foi driblado. Para a sorte do goleiro, o camisa 10 dinamarquês perdeu o ângulo e seu chute acertou o lado externo da rede. Quatro minutos depois foi a vez do pequeno Jesper Olsen superar o grandalhão Butcher e cruzar da linha de fundo, mas Berggreen furou a finalização.

Cautelosa em excesso, a Inglaterra pouco ameaçava e assistia aos dinamarqueses tocarem a bola com calma e confiança. E de uma troca de passes que durou mais de um minuto nasceu a jogada que terminaria no gol. Busk foi à frente e entregou a Laudrup na ponta direita. O camisa 10 gingou na frente de dois marcadores e cruzou alto. O mesmo Busk disputou pelo alto com Neal, e a bola sobrou para Simonsen, antes de o lateral inglês perder o equilíbrio e cortar a jogada com o braço. Pênalti apitado pelo árbitro belga Alexis Ponnet.

Eram 36 minutos do primeiro tempo, a Dinamarca tinha sua melhor chance de abrir o placar e Allan Simonsen chamou a responsabilidade. “Eu sabia o que isso poderia significar para o futebol dinamarquês”, relembrou. “Sempre bati pênaltis por meus clubes e pela seleção. Normalmente eu nunca ficava nervoso, mas quando coloquei a bola na marca minhas mãos tremiam”. Quem vê a cobrança hoje, um chute baixo e calmo, deslocando Shilton para fazer 1 a 0 Dinamarca, dificilmente imagina esse estado de nervos.

A Dinamite Dinamarquesa

Não foi um jogo repleto de chances de gol. Pelo contrário, uma partida nervosa e concentrada no meio-campo. No intervalo, a Dinamarca trocou Laudrup por Elkjaer – a dupla que ficaria famosa jogando junta no ataque da seleção neste dia teve um substituindo o outro – e seguiu controlando e neutralizando as ações inglesas. E enquanto a torcida local vaiava e cobrava mais atitude de sua equipe, em um certo canto de Wembley, em meio a milhares de bandeiras dinamarquesas, um outro grito começava a ser ouvido.

“We are red, we are white, we are Danish dynamite”, cantavam os cerca de 15 mil torcedores visitantes no estádio. O cântico nasceu de um concurso promovido pelo jornal dinamarquês B.T. duas semanas antes da partida, para premiar a melhor canção ou frase para embalar a seleção nacional. O vencedor, entre mais de dois mil participantes, foi o torcedor Søren Bo Andersen, de Copenhague, que recebeu 2.500 coroas dinamarquesas, mais mil para cada gol que a seleção marcasse, além de uma bola de ouro.

Perguntado por que havia criado em inglês, Andersen explicou: “Para que os torcedores ingleses em Wembley entendam. Além disso, um cântico de futebol soa melhor em inglês. Tinha que ter algo a ver com vermelho e branco. Então só precisei encontrar uma palavra que rimasse com ‘white’. Não foi tão difícil”. O cântico passaria a embalar as campanhas marcantes da seleção naqueles meados de anos 1980, além de eternizar o apelido internacional “Danish Dynamite” (ou “dinamite dinamarquesa”).

Bobby Robson ainda tentaria uma chacoalhada num time inglês ofensivamente inoperante. Aos 25 minutos da etapa final, ele trocaria Barnes pelo ponta-direita Mark Chamberlain, do Stoke (pai do futuro jogador do Arsenal, Liverpool e seleção inglesa Alex Oxlade-Chamberlain). A segunda alteração, aos 32 minutos, seria a saída de Lee para a entrada do centroavante Luther Blissett, que três dias antes havia marcado seu primeiro gol pelo Milan, clube para o qual se transferira do Watford no início daquela temporada.

E é aos pés de Blissett que cai a melhor chance inglesa em todo o jogo, já nos acréscimos. Sansom bate lateral para a área, Butcher escora de cabeça e o centroavante gira sobre a marcação e chuta forte. Mas a finalização é salva no reflexo por Ole Kjær. O goleiro que dividia seu tempo de treinos e jogos pelo Esbjerg na primeira divisão nacional com o trabalho de meio-expediente numa loja de artigos esportivos naquela cidade se consagra no último lance, na única defesa que fez em toda a partida, que termina logo em seguida.

“Se aquela bola (de Blissett) entra, nós não vamos à Eurocopa em 1984. E se não vamos à França, não vamos à Copa do Mundo de 1986. Em um segundo tudo mudou”, ponderou Sepp Piontek sobre o lance que ajudou a redefinir a trajetória da seleção. O resultado de Wembley – a primeira vitória da Dinamarca sobre a Inglaterra na história, e justo em solo inglês – assombrou a Europa e abriu os olhos para a nova sensação do futebol do continente. Um feito que os escandinavos saborearam de maneira toda especial.

Carimbando o passaporte

“Tudo o que aconteceu naqueles anos era novo e, sendo assim, nunca poderá ser repetido. Nós estávamos derrotando seleções nas quais nunca havíamos chegado nem perto de marcar um gol. Era história. Cada jogo daqueles fez história”, relembrou Svend Gehrs, o principal narrador da TV dinamarquesa. Para o técnico Sepp Piontek, no entanto, aquele jogo em especial foi a vitória mais importante da seleção sob seu comando: “Se você derrota a Inglaterra numa eliminatória em Wembley, pode notar a capacidade do time”.

Bobby Robson, por sua vez, considerou aquela derrota o pior momento de sua carreira e admitiu anos depois que errou ao elogiar demais o adversário antes do jogo, o que teria ajudado a solapar a confiança de seus próprios jogadores. Em meio ao clamor por sua demissão e pela contratação de Brian Clough na imprensa inglesa, o treinador chegou a colocar o cargo em disposição, mas a Football Association rejeitou seu pedido. O ciclo de Robson ainda duraria quase sete anos, duas Copas do Mundo e uma Eurocopa.

Aquelas Eliminatórias, no entanto, não acabaram ali. Com Hoddle finalmente de volta, a Inglaterra bateu a Hungria por 3 a 0 em Budapeste (com o meia do Tottenham abrindo a contagem) e goleou Luxemburgo no principado por 4 a 0 no último jogo. Mas era tarde: horas antes a Dinamarca havia confirmado a classificação ao derrotar a Grécia por 2 a 0 em Atenas. “A notícia matou a nós todos e por uns 20 minutos ninguém disse uma palavra”, lembrou o capitão inglês Bryan Robson, que recebeu a informação nos vestiários.

Time posado em Wembley – setembro de 1983

Entre os dois picos de euforia, entretanto, os dinamarqueses viveram momentos de apreensão. No jogo seguinte à vitória diante da Inglaterra, a equipe de Sepp Piontek goleou Luxemburgo por 6 a 0 com direito a hat-trick de Laudrup. Mas uma derrota para a Hungria por 1 a 0 em Budapeste – a única na campanha – num jogo em que a Dinamarca dominou amplamente, teve gol anulado por impedimento mal assinalado, pênalti não marcado e ainda perdeu chances inacreditáveis fez a torcida temer pelo pior na última rodada.

A vitória em Atenas foi mais tranquila do que se esperava. Um golaço de Elkjaer em uma de suas famosas arrancadas e outro de Simonsen – seu último pela seleção – após passe de Berggreen, um em cada tempo, selaram a classificação. E desataram uma festa sem hora para acabar em Copenhague e no resto do país. E até na capital grega, onde mesmo o sisudo e disciplinador Sepp Piontek entrou na brincadeira, determinando que qualquer jogador que fosse para a cama antes de uma e meia da manhã seria multado.

Na França, a Dinamarca estrearia com derrota apertada de 1 a 0 para a forte seleção anfitriã, mas brilharia em seguida ao golear a Iugoslávia por 5 a 0 e vencer a Bélgica numa virada sensacional por 3 a 2, avançando à semifinal, na qual cairia diante da Espanha nos pênaltis, após empate em 1 a 1. O próximo capítulo da saga viria nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1986, quando, em mais uma exibição de tirar o fôlego por seu futebol inteligente e ofensivo, ela impôs à União Soviética uma contundente vitória por 4 a 2.

Dois anos depois, no Mundial do México, seria a vez de impressionar o planeta, em especial com o massacre de 6 a 1 sobre o Uruguai e a vitória sobre a Alemanha Ocidental por 2 a 0 na fase de grupos. A nova queda diante da Espanha, agora por um pesado 5 a 1 nas oitavas de final, todavia não ofuscou o brilho daquela seleção que marcou época e que despontou para a história no mesmo palco e contra o mesmo adversário do jogo desta quarta-feira pelas semifinais da atual edição da Eurocopa.

Mostrar mais

Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo