Eurocopa

Em 1984, dois timaços de Bélgica e Dinamarca fizeram duelo eletrizante pela Eurocopa

Numa virada sensacional, a Dinamarca venceu a Bélgica e avançou às semifinais da Euro 1984

O confronto entre Bélgica e Dinamarca desta quinta-feira em Copenhague pela Eurocopa revive um duelo épico ocorrido há quase 37 anos pelo mesmo torneio. Era um momento em que ambas as seleções despontavam como equipes emergentes no futebol europeu unindo força, talento e inteligência tática. Na partida disputada em 19 de junho de 1984 no Estádio de La Meinau, em Estrasburgo, os dinamarqueses, sensação daquela Euro, bateram os belgas, sensação da edição anterior, numa virada sensacional por 3 a 2, resultado que conduziu os vencedores à semifinal do torneio e deu início à lenda da “Dinamáquina”.

As (r)evoluções em paralelo

Foi numa Eurocopa, a disputada em solo italiano em 1980, que a Bélgica marcou seu lugar como uma potência em ascensão (e de time perigoso de ser enfrentado) no futebol europeu e mundial, o qual ocuparia por uma década e meia. O vice-campeonato da seleção dirigida por Guy Thys – que superou Espanha, Inglaterra e a anfitriã Itália na fase de grupos, antes de cair na final diante da Alemanha Ocidental com um gol no último minuto – era o ponto culminante de profundas mudanças estruturais no futebol do país.

Com a adoção do profissionalismo integral a partir de 1974, os clubes belgas foram os primeiros a serem beneficiados. Embora já contassem com bons valores e vez por outra pregassem peças em alguns gigantes do continente, foi a partir da segunda metade daquela década que equipes como o Anderlecht e o Club Brugge começaram a alcançar as finais das copas europeias – e até a ganha-las com certa frequência, como seria o caso dos Mauves. Essa crescente competitividade logo também beneficiaria a seleção.

Depois de ser barrada nas eliminatórias em três competições seguidas (as Copas do Mundo de 1974 e 1978 e a Eurocopa de 1976) pelos vizinhos holandeses, a Bélgica enfim voltou a um grande torneio internacional após oito anos ao se classificar para a Eurocopa de 1980 com ótima e invicta campanha num grupo complicado, com as boas seleções de Áustria, Escócia e Portugal, além da Noruega, fiel da balança. Foi o que habilitou os Diabos Vermelhos a cumprirem a caminhada histórica naquela edição, lembrada acima.

Se o resultado mais emblemático da campanha belga em 1980 foi o empate sem gols com o qual uma resiliente Bélgica frustrou as pretensões da dona da casa Itália de chegar à final da Eurocopa, dois anos depois os Diabos Vermelhos escreveriam seu nome na história das Copas do Mundo com uma grande vitória de 1 a 0 sobre a campeã mundial Argentina no jogo de abertura do torneio, no Camp Nou. E, de lambuja, a vaga no Mundial viera às custas da rival Holanda, numa deliciosa vingança pelo Grupo 2 europeu.

Ainda que os resultados e o futebol apresentado em seguida na Copa da Espanha estivessem longe de ser brilhantes, todo aquele contexto permitiu à Bélgica alcançar o status de potência europeia. Até porque, também no âmbito dos clubes, o momento continuava bastante bom: em 1982, o Anderlecht foi semifinalista da Copa dos Campeões e o Standard Liége decidiu a Recopa. E em 1983 e 1984, os Mauves foram a duas finais seguidas na Copa da Uefa, vencendo a primeira e perdendo a segunda nos pênaltis.

Frank Arnesen conduz a bola (Foto: Imago / One Football)

Os dinamarqueses – que até então só haviam participado de um grande torneio de seleções, a Eurocopa de 1964 – também vivenciaram ao longo da década de 1970 sua própria revolução com a transição entre o amadorismo e o profissionalismo em todos os âmbitos. E a derradeira cartada nesse processo de mudança de mentalidade foi a contratação do técnico alemão-ocidental Josef “Sepp” Piontek em julho de 1979, um ex-lateral-direito do Werder Bremen e do Nationalelf que tinha no currículo uma passagem como técnico do Haiti.

Os primeiros frutos de seu trabalho quase brotaram nas Eliminatórias para o Mundial de 1982, quando a Dinamarca terminou em terceiro no grupo, atrás das classificadas Iugoslávia e Itália e à frente de Grécia (inicialmente cotada para o terceiro posto) e Luxemburgo. Mas pelo menos um resultado ficou marcado na história da seleção: a vitória por 3 a 1 sobre a Azzurra, futura campeã do mundo, numa noite memorável em Copenhague. Ao longo do ano de 1981, os dinamarqueses venceram oito de seus nove jogos.

No ciclo seguinte, a Dinamarca se tornaria enfim a grande sensação das Eliminatórias para a Eurocopa de 1984. Num Grupo 3 em que a Inglaterra era a favorita destacada e a Hungria era apontada como a principal concorrente (e no qual os dinamarqueses reencontrariam Grécia e Luxemburgo), o time de Sepp Piontek começaria comendo pelas beiradas, arrancando no último minuto um 2 a 2 com os ingleses em Copenhague e vencendo discretamente os luxemburgueses fora (2 a 1) e os gregos em casa (1 a 0).

A Europa só começou a olhar com mais atenção para aquela equipe quando ela bateu os húngaros por um enfático 3 a 1, ainda em Copenhague. E ficou devidamente impressionada quando, no jogo seguinte, os dinamarqueses protagonizaram um resultado histórico ao baterem os ingleses em Wembley por 1 a 0. A enorme vitória foi seguida por uma goleada de 6 a 0 sobre Luxemburgo e nem mesmo a derrota para a Hungria em Budapeste (1 a 0) causou pânico: no último jogo, um 2 a 0 sobre a Grécia em Atenas valeu a vaga.

A Bélgica, por outro lado, entrou como favorita no equilibrado Grupo 1, que não contava com nenhum dos tradicionais sacos de pancada do continente. Os Diabos Vermelhos já largaram com quatro vitórias seguidas, superando a Suíça (3 a 0) e a Escócia (3 a 2) em casa antes de derrotar duas vezes a Alemanha Oriental por 2 a 1. No penúltimo jogo, um empate com os escoceses por 1 a 1 no Hampden Park fez com que os belgas fossem a primeira seleção a garantir vaga naquela Eurocopa por meio das Eliminatórias.

No meio do caminho entre a etapa classificatória e a fase final, porém, ambas as seleções tiveram de enfrentar problemas. Desfalcada nos amistosos preparatórios, a Dinamarca colheu resultados muito ruins, como a goleada de 6 a 0 sofrida para a Holanda (que sequer havia se classificado), o que empanou um pouco o brilho da campanha recente. Já a Bélgica acabou impactada pelo caso de suborno envolvendo o Standard Liège ocorrido no desfecho da temporada 1981/82, mas que só estourou em fevereiro de 1984.

Lerby dá o passe contra a Bélgica (Foto: Imago / One Football)

O lateral Eric Gerets, capitão do clube e da seleção, admitiu ter subornado jogadores do pequeno Waterschei sob orientação do técnico Raymond Goethals e com a participação de colegas de time, para que facilitassem o jogo contra o clube pela última e decisiva rodada do campeonato. Na ocasião, o Standard precisava apenas do empate em casa para levantar a taça e, enquanto se preparava para decidir a Recopa contra o Barcelona dali a três dias, tratou de se “precaver” para que não fosse surpreendido na liga.

O resultado disso foi a suspensão de Gerets – que chegou a ser detido na véspera do amistoso da Bélgica contra a Alemanha Ocidental em Bruxelas – por dois anos (punição depois reduzida), junto com outros sete jogadores do Standard – entre eles nomes de seleção, como o goleiro Michel Preud’Homme, o zagueiro Walter Meeuws, o lateral Gerard Plessers e o meia Guy Vandersmissen – por seis meses. O afastamento deste grupo forçou o técnico Guy Thys a buscar nomes menos experientes para compor a lista final.

E foi como duas grandes incógnitas que Bélgica e Dinamarca chegaram à França para a disputa da Eurocopa. E embora os belgas tenham estreado com vitória diante da Iugoslávia (2 a 0), foi a atuação da Dinamarca diante da anfitriã e favorita França o que mais chamou a atenção na rodada inaugural, mesmo com a derrota por 1 a 0. A equipe de Sepp Piontek deu trabalho aos Bleus, que levaram alguns sustos e só chegaram ao gol no fim da partida, num raro momento em que Michel Platini conseguiu escapar da rígida marcação.

Um outro incidente naquele jogo também marcaria a participação dinamarquesa naquela Euro: a grave lesão sofrida pelo meia-atacante Allan Simonsen perto do fim do primeiro tempo. Um dos símbolos daquela transição do futebol do país nos anos 1970, período em que marcou época no Borussia Mönchengladbach (e mais tarde no Barcelona) e levou a Bola de Ouro da revista France Football em 1977, o talentoso jogador fraturou a perna esquerda num choque com o defensor francês Yvon Le Roux em uma disputa de bola.

A lesão não só tirou Simonsen da Eurocopa como também o levou de volta a Copenhague para que começasse o tratamento. E teve impacto decisivo em sua carreira, ainda que ele, depois de recuperado, tenha sido convocado para a Copa do Mundo do México, em 1986. Mas a grande vitória da Dinamarca sobre a Iugoslávia por 5 a 0 na segunda rodada da Eurocopa num jogo franco (os relatos das várias fontes internacionais da época chegam a dizer que um placar de 12 a 7 não teria sido absurdo) seria dedicada ao colega.

Já a Bélgica experimentou exatamente a sensação oposta em seu jogo contra a França, no qual sua desfalcada e pouco experiente linha defensiva passou péssimos bocados contra um Michel Platini simplesmente demolidor e cumprindo a primeira de uma série de atuações espetaculares naquela edição da Eurocopa. A goleada de 5 a 0 para os Bleus (com direito a tripleta de seu camisa 10) caiu sobre os belgas como uma dose amarga de realidade. O time de Guy Thys agora teria de juntar os cacos antes de jogar a vida contra a Dinamarca.

Um jogo entre conhecidos

Com oito jogadores convocados para a Eurocopa, sendo seis titulares, o Anderlecht formava a base da seleção belga. Curiosamente, os Mauves também tinham um contingente expressivo de atletas dinamarqueses: cinco, sendo três convocados para o torneio europeu de seleções. Era então o grande o símbolo de uma tendência que vinha desde o início dos anos 1970, quando os clubes belgas – recém-aderidos ao profissionalismo integral – tornaram-se um destino comum para muitos jogadores do país escandinavo.

Morten Olsen, líbero e capitão da Dinamarca na Euro, era jogador do Anderlecht e já atuava há 12 anos naquele país, tendo vestido antes as camisas de Cercle Brugge e Racing White. Na legião dinamarquesa dos Mauves, também estavam Frank Arnesen e o atacante Kenneth Brylle, reserva da equipe nacional, além dos jovens Per Frimann e Henrik Andersen, que acabaram preteridos na lista final de Sepp Piontek. Na escalação titular da seleção para o jogo de 19 de junho, eram cinco os nomes atuando em equipes da Bélgica.

Havia, portanto, inúmeros casos de companheiros de clubes que se enfrentariam, verdadeiros “inimigos íntimos”. Michel De Wolf e Søren Busk eram colegas no Gent, assim como Nico Claesen e Jens-Jørn Bertelsen no Seraing. Fora das fronteiras belgas, Jean-Marie Pfaff e Søren Lerby atuavam juntos no Bayern de Munique. E vale citar ainda uma velha rivalidade clubística agora transportada para o confronto de seleções: Preben Elkjaer era há alguns anos atleta do Lokeren, rival local do Beveren que Pfaff defendera até 1982.

No princípio, quando o sorteio colocou as duas seleções no mesmo grupo, a camaradagem falou mais alto: o volante belga René Vandereycken foi um dos maiores incentivadores de que o meia dinamarquês Frank Arnesen, seu colega de quarto na concentração do Anderlecht, recuperasse logo a forma física para disputar o torneio. Mas logo a ficha da dimensão do confronto caiu: “É curioso agora, mas duvido que qualquer um de nós achará curioso quando a coisa ficar séria”, comentou Morten Olsen ao jornal Alt om Sport.

“Você simplesmente não pode perder um jogo desses”, arrematou Elkjaer à mesma publicação. E, de fato, o perdedor daquele dia estaria irremediavelmente eliminado da competição, algo que incitava o clima de rivalidade. Por ter diferença de gols bastante favorável, os dinamarqueses garantiriam a vaga com um empate, mas a possibilidade de jogar fechado na defesa e especular com o placar em contra-ataques era algo veementemente descartado por Sepp Piontek. O time seria o mesmo da goleada sobre a Iugoslávia.

Embora entrasse para a história como uma das popularizadoras do esquema 3-5-2, a Dinamarca entrou em campo naquele dia (e em parte daquela Euro) posicionada numa espécie de 4-3-1-2. No gol, estava Ole Qvist, único titular a atuar no futebol dinamarquês (no KB Copenhague) e que dividia seu tempo entre o futebol semi-profissional e a carreira de policial motociclista. A linha de defesa tinha, da direita para a esquerda, Søren Busk, Morten Olsen, Ivan Nielsen e Ole Rasmussen, que ganhou lugar com a saída de Allan Simonsen.

Nielsen é marcado por Claesen (Foto: Imago / One Football)

Vale destacar, no entanto, que existe a posição inicial e existem as mudanças fluidas que ocorrem durante a partida. Rasmussen começou como lateral-esquerdo, mas depois de alguns minutos era possível vê-lo pelo outro lado (algo mais condizente com sua camisa 2, aliás), enquanto Søren Lerby, inicialmente um meia pelo lado esquerdo, voltava para funcionar como um lateral/ala, transformando a defesa dinamarquesa quase numa linha de cinco, ainda com Busk fechando no miolo de zaga como terceiro central.

No meio-campo, um trio combativo formado por Klaus Berggreen (que vigiou quase todos os passos de Michel Platini no jogo de abertura do torneio), Jens-Jørn Bertelsen e o já citado Søren Lerby provia a consistência para liberar todo o talento de Frank Arnesen, ponta de origem e que flutuava entre as linhas, caindo por ambos os flancos ou se posicionando atrás dos dois homens de frente, a saber: o sutil e criativo Michael Laudrup, então com apenas 19 anos, e o valente e quase imparável goleador Preben Elkjaer.

Contratado pela Juventus em 1983, mas logo emprestado à Lazio devido ao limite de jogadores estrangeiros que vigorava no futebol italiano da época, Laudrup estava envolvido em outro duelo bastante interessante entre dois prodígios do futebol europeu de então, ainda que atuassem em faixas do campo um tanto diferentes. Pelo lado belga, o jovem de destaque era o meia-direita Vincenzo Scifo, jogador elegante, de toque refinado e visão de jogo que com apenas 18 anos já era o regente do meio-campo do Anderlecht.

O time da Bélgica era o mesmo da estreia e tinha apenas uma modificação em relação à partida anterior: a volta de Leo Clijsters à zaga após lesão no lugar de Paul Lambrichts. À frente de Jean-Marie Pfaff, então considerado um dos melhores goleiros do mundo, jogava uma linha de defesa com quatro novatos: Georges Grün pela direita, Walter De Greef e o líbero Clijsters pelo centro e Michel De Wolf pela esquerda. Na proteção à frente da área havia o experiente volante René Vandereycken, com passagem pelo Genoa.

O camisa 7 era o vértice mais recuado de um meio-campo em formato de losango, que contava ainda com o já citado Vincenzo Scifo aberto pelo lado direito e outro nome experiente, Franky Vercauteren, descendo pelo corredor esquerdo. Na ligação com o ataque, o capitão e camisa 11 Jan Ceulemans, originalmente um homem de frente que com o tempo recuou para municiar o setor e se tornar referência daquela equipe. E então vinha a dupla de ataque, formada pelos agudos Erwin Vandenbergh e Nico Claesen.

Com a ausência dos jogadores do Standard Liège, a Bélgica perdia sensivelmente em experiência internacional: seis titulares – mais da metade do time – ainda não haviam completado dez jogos pela seleção. Por outro lado, os demais sabiam bem o que era um grande torneio internacional de seleções ao contrário dos adversários. “Os jogadores dinamarqueses serão expostos a uma pressão física e mental a qual eles nunca experimentaram antes e não há garantia de que possam lidar com ela”, especulava o meia Vercauteren.

O confronto

O jogo começou nervoso, com algumas jogadas mais ríspidas. Mas uma bicicleta de Claesen que passou por cima do gol de Qvist logo aos sete minutos foi o primeiro indício de que a Bélgica seria melhor naquela etapa inicial em Estrasburgo. Aos 12, a Dinamarca respondeu num lance em que reclamou de pênalti em Elkjaer: uma interceptação errada de Vandereycken na intermediária sobrou para o atacante, que invadiu a área e caiu após driblar Pfaff, mas o árbitro alemão-ocidental Adolf Prokop mandou o lance seguir.

Os belgas teriam outra grande chance aos 17, quando Claesen escorou pelo alto uma bola na área para Vandenbergh, que chutou duas vezes. Na primeira, Qvist demonstrou bons reflexos para espalmar. Na segunda, já quase da linha de fundo, a bola desviou em Morten Olsen e o goleiro dinamarquês segurou no susto. O gol dos Diabos Vermelhos amadurecia. E sairia aos 27, após uma disputa dura entre Rasmussen e Claesen na qual o árbitro marcou falta para a Bélgica no lado direito do ataque, perto da linha lateral.

Vandereycken levantou na área, Morten Olsen afastou de cabeça, mas a bola acabou sobrando do outro lado para Scifo, que ajeitou de primeira para Ceulemans. O meia-atacante chutou bem no canto direito de Qvist, com a bola ainda tocando a trave antes de entrar. Um gol que premiava a equipe aparentemente mais segura de si em campo até aquele momento. Tanto que Pfaff só seria exigido pela primeira vez aos 33 minutos, segurando um chute de fora da área de Bertelsen. E o time de Guy Thys logo ampliaria.

Aos 38, Scifo cobrou um lateral na meia-esquerda para Vercauteren, que arrancou, livrou-se de Bertelsen, esperou a bola quicar e mandou um lindo chute cruzado de pé esquerdo encobrindo Qvist na meta dinamarquesa. Foi um dos gols mais bonitos daquela edição, que teria a excelente média de 2,73 gols por jogo, superada apenas (e por um centésimo) pela Euro 2000 dentre as edições com o formato de grupos na primeira fase, a partir de 1980. E cerca de um minuto depois, o placar seria novamente movimentado.

Praticamente na saída de bola após o segundo gol belga, Laudrup encontrou Elkjaer entrando na área belga. O atacante chegou à linha de fundo e, marcado por dois defensores, foi calçado por De Greef – após a partida, um irritado Pfaff chamaria o camisa 10 dinamarquês de “o melhor ator do mundo”. Pênalti que Arnesen converteu com categoria para recolocar a Dinamarca na briga. E, de fato, por uma soma de fatores, o jogo começaria a mudar. No intervalo, Claesen saiu para a entrada do meia-armador Ludo Coeck.

Inscrito no torneio com a camisa 10, Coeck era um armador dinâmico e talentoso que fora um dos destaques da Bélgica na Copa de 1982, mas que teve sua presença na Eurocopa colocada em dúvida por uma persistente lesão sofrida em novembro contra a Suíça pelas Eliminatórias, e que o havia tirado de ação por cerca de seis meses. A entrada do jogador da Internazionale – que faleceria em outubro do ano seguinte, aos 30 anos, num acidente de automóvel – tinha a intenção de preencher e controlar o meio-campo.

Outro ponto que contribuiu para inverter a dinâmica do jogo foi a chance inacreditável perdida pelos belgas logo no primeiro minuto da etapa final. O atacante Vandenbergh interceptou um passe no centro do campo, tocou para Scifo e este entregou a Ceulemans, que pegou a defesa da Dinamarca de calças curtas, saindo para o jogo, ao lançar o mesmo Vandenbergh. O camisa 9 avançou pelo meio completamente sozinho, de frente para Qvist, mas seu chute fraco e rasteiro foi salvo pelo goleiro com os pés no limite da área.

Laudrup encara a marcação de Coeck enquanto Scifo observa (Foto: Imago / One Football)

Teria sido a oportunidade de matar o jogo, um gol que não se perde. Nitidamente os belgas aos poucos cediam o controle do jogo. E a primeira substituição na Dinamarca – a entrada do atacante Kenneth Brylle, mais um do Anderlecht, no lugar do lateral Rasmussen aos dez minutos – teria impacto quase imediato: aos 14, Laudrup abriu o jogo na esquerda com Arnesen, que arrancou, parou diante de Grün, foi à linha de fundo e cruzou na segunda trave, na medida para Brylle subir no meio da defesa belga e escorar de cabeça.

A vantagem belga se esvaíra e, naquele momento, era a Dinamarca quem avançava às semifinais. Tentando reaver a iniciativa do jogo e a presença ofensiva, Guy Thys fez entrar logo em seguida o atacante Eddy Voordeckers no lugar do meia Vercauteren. Mas, mais do que o controle das ações, a Bélgica parece ter perdido o controle emocional. Nos minutos seguintes o que se vê é a volta de um jogo mais ríspido, com entradas duras, em especial dos belgas. O clima esquentava e os cartões começavam a ser mostrados.

O primeiro veio para De Greef, que pegou Elkjaer no meio-campo. Três minutos depois foi a vez de Vandereycken receber o seu ao acertar Arnesen – o que levou Morten Olsen a sair da defesa para tirar satisfação e empurrar o companheiro de clube e rival de seleção. Em meio à estéril tentativa de “abafa” por parte dos belgas, a maior chance veio só aos 36 minutos, num centro de De Wolf para a área que Nielsen não conseguiu afastar, mas fez o recuo providencial para Qvist antes que a bola chegasse a Ceulemans.

Naquela altura, a Dinamarca também já havia retornado ao seu desenho tático inicial, depois que Arnesen foi substituído pelo lateral John Sivebaek aos 34 minutos. E logo em seguida seria a vez dos escandinavos resolverem a parada. Em mais uma bola alçada a esmo pelos belgas no ataque, Nielsen ganha a disputa pelo alto e Elkjaer pega a sobra em seu próprio campo, iniciando uma arrancada. A tentativa de corte de Clijsters bate no calcanhar de De Greef e a jogada volta para Elkjaer, que segue em disparada na direção do gol.

No caminho, o camisa 10 da Dinamarca ainda driblou De Greef passando a bola por entre as pernas do zagueiro e, na saída de Pfaff, deu um leve toque por cima do goleiro, que não conseguiu evitar a virada. Com um gol bem ao seu estilo, Elkjaer colocou o ponto final em um grande jogo, intenso e cheio de variações, e carimbou a classificação dinamarquesa às semifinais, na qual a seleção enfrentaria a Espanha no estádio Gerland, em Lyon. A saga escandinava, no entanto, teria fim ali, com uma dolorosa derrota nos pênaltis.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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