Eurocopa

No xadrez tático, os pênaltis foram o xeque-mate para a Alemanha, enfim, exorcizar a Itália

Em um clássico repleto de grandes jogos em seu passado, Alemanha e Itália deixaram a desejar em emoção. Dois adversários gigantes, que fizeram um confronto mental, mais do que qualquer outra coisa, em Bordeaux. Joachim Löw e Antonio Conte eram os cérebros por trás dos movimentos calculados, que prezavam pela perfeição principalmente na defesa. E quando os erros aconteceram, foram quase sempre fatais. O empate por 1 a 1 ao longo dos 120 minutos se tornou plenamente compreensível diante do que as equipes apresentaram. Até que a definição do terceiro semifinalista da Eurocopa acabasse nos pênaltis. Melhor para os alemães, que foram mais competentes (ou menos incompetentes) após 18 cobranças, vencendo por 6 a 5. Vão para a nona semifinal em sua história na Euro.

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Horas antes da partida, os técnicos deixaram claro o duelo tático que se daria em Bordeaux. Joachim Löw modificou a sua formação, apostando em uma linha defensiva com três zagueiros. Assim, Höwedes entrou na vaga de Draxler. Tentava espelhar a Itália de Antonio Conte. A Azzurra, por sua vez, teve uma ausência sentida com De Rossi, sem condições físicas, dando espaço a Sturaro.

Do ponto de vista do xadrez que se desenhava, italianos e alemães fizeram um primeiro tempo perfeito. O que não significou um jogo vistoso. A Itália se fechava muito bem na defesa e travava o meio de campo da Alemanha, mesmo com a posse de bola dos germânicos. Toni Kroos, o principal motor do time, mal tinha espaço para criar. Desta maneira, o jogo se iniciava quase sempre com Boateng ou Hummels. Quando recuperavam a redonda, os italianos não tinham tanta pressa para trabalhar, trocando passes na defesa. Tentavam forçar as brechas com o seu meio-campo operário e descolar alguma bola longa para Graziano Pellè ou Éder.

Nos poucos arremates da Alemanha, os melhores vinham a partir do jogo aéreo. Substituindo o lesionado Khedira, Schweinsteiger chegou a balançar as redes, mas cometeu falta em De Sciglio. Já a melhor oportunidade do primeiro tempo foi italiana, depois de um lançamento primoroso de Bonucci. Giaccherini dominou na linha de fundo e cruzou na pequena área, em bola desviada por Neuer. Sturaro encheu o pé na sobra, mas o chute explodiu na marcação e saiu para escanteio.

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Na segunda etapa, a partida melhorou. Mario Gómez começou a aparecer mais e ajudou em alguns dos principais lances da Alemanha. Aos nove minutos, o centroavante passou para Müller soltar a bomba, mas Florenzi fez milagre para desviar – sublinhando a grandiosa atuação do ala, onipresente em campo. E o gol viria em uma jogada digna de ponta de Gómez. Pela esquerda, o artilheiro limpou a marcação e passou para Hector, livre diante do desleixo de Sturaro. Um erro que custou caro. O cruzamento desviou, mas sobrou limpo para Özil emendar para as redes.

O Nationalelf cresceu com o gol e poderia ter ampliado logo na sequência. Özil deu um lançamento magistral para Mario Gómez. O centroavante dominou e tentou bater de calcanhar. Chiellini veio antes para desviar, mas só não marcou contra porque Buffon desviou com um milagre. Defesaça responsável pela sobrevida italiana na partida, enquanto o lance tirou Gómez de campo, lesionado. Saindo mais para o ataque, a Azzurra começou a ameaçar, especialmente diante das avenidas nos lados da Alemanha. E, depois de um escanteio, Boateng jogou fora a noite impecável que vivia em um toque de mão infantil. Pênalti que Bonucci cobrou como um camisa 10: com paradinha e bola no canto da rede.

A igualdade apagou a Alemanha nos 15 minutos finais. E não seria surpreendente se a Itália virasse. Foram dois lances de perigo, em que Éder e De Sciglio erraram por pouco. Já na prorrogação, a cautela prevaleceu. O Nationalelf teve muito mais a bola, mas era improdutivo. Substituto de Mario Gómez, Draxler protagonizou as jogadas mais claras, mas falhou. Errou o gol em uma bola difícil na pequena área e forçou demais o passe para Müller em um passe que se desenhava mortal. O destino era mesmo a decisão por pênaltis.

E, então, o que se viu foi um show de horrores na marca da cal. Dos 10 primeiros batedores, apenas quatro balançaram as redes, dois para cada lado. Zaza saiu do banco só para cobrar e errou. Pellè ameaçou cavadinha e mandou para fora. Bonucci trocou o canto e Neuer pegou. Não que a Alemanha viesse melhor. Müller bateu fraco, para defesa de Buffon, e Özil carimbou a trave. Já quando Schweinsteiger poderia fechar a série, lançou nas arquibancadas. Mas os batedores das alternadas, por incrível que pareça, beiravam a perfeição. Buffon chegava em todas, mas não alcançava. Neuer, por sua vez, pulava sempre no canto esquerdo. Quando mudou de lado, pegou o chute de Darmian. A deixa para Hector confirmar a classificação por 6 a 5.

A Itália deixa a Eurocopa de cabeça erguida. Mesmo sem um elenco estrelado, venceu as mais badaladas Bélgica e Espanha, enquanto vendeu caríssimo a derrota para a Alemanha. Trabalho notável de Antonio Conte, da sua fortíssima defesa e de seus operários do meio para frente. Do outro lado, a Alemanha teve a inteligência de entender o jogo da Azzurra para não se expor como os espanhóis. Avança sem impressionar e com a consciência de que a eliminação não veio por pouco. Mas revigorada pelo resultado suado contra um adversário enorme. Depois de cinco frustrações, enfim, os germânicos batem os seus rivais em uma partida eliminatória.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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