Eurocopa

A história do clássico entre Alemanha e Itália em sete momentos históricos

“Alemanha e Itália fazem o Dérbi da Europa. Há um passado e um presente importantes”. As palavras de Gianluigi Buffon dizem muito sobre o peso do confronto que se dará neste sábado, em Bordeaux. Alemães e italianos vêm credenciados pelas grandes atuações nesta Eurocopa. Pela maneira como afirmam o favoritismo dentro de campo, mesmo com estilos de jogo bastante distintos. No entanto, o clássico se engrandece mesmo com o peso das camisas e as histórias que complementam o contexto atual. Azzurra e Nationalelf já disputaram 33 partidas, com 15 vitórias italianas e apenas oito derrotas. E a freguesia alemã aumenta ainda mais em jogos oficiais, sem um triunfo sequer, com quatro derrotas e quatro empates. Um passado rico, apesar da balança que pende só para um lado. Por isso mesmo, a oportunidade na Euro 2016 se faz tão importante. É a chance dos atuais campeões do mundo quebrarem a escrita. Ou dos italianos reforçarem uma hegemonia que diz muito sobre alguns de seus maiores esquadrões.

O início da freguesia

Itália e Alemanha disputaram o seu primeiro amistoso em janeiro de 1923. Diante de 25 mil espectadores, a Azzurra se impôs em Milão, com vitória por 3 a 1. E a supremacia da seleção italiana nos primeiros anos do clássico era clara, com a base que se formava aos futuros bicampeões do mundo. Nos cinco primeiros confrontos, foram quatro triunfos da Itália, com destaque aos 3 a 1 de 1933, já com vários craques que consagrariam Vittorio Pozzo no Mundial do ano seguinte.  A única comemoração alemã aconteceu em 1929. Em Turim, os comandados por Otto Nerz surpreenderam com a vitória por 2 a 1. O capitão germânico era Heinrich Stuhlfauth, ídolo do Nuremberg e considerado um dos melhores goleiros do mundo em sua época.

Os anos negros

A aproximação das ditaduras de Adolf Hitler e Benito Mussolini, ao final dos anos 1930, tornou os confrontos entre alemães e italianos recorrentes. Era a mostra de força do nazi-fascimo usando o futebol como pretexto, com arquibancadas lotadas. Em 1936, a Azzurra conquistou os Jogos Olímpicos em Berlim e voltou à capital germânica para um amistoso contra o time da casa. Diante de 83 mil espectadores, prevaleceu o empate por 2 a 2. As duas seleções voltaram a se cruzar em 1939, ano no qual a Segunda Guerra Mundial estourou. Em março, a Itália venceu por 3 a 2 em Florença, com dois tentos de Silvio Piola. Contudo, na revanche de novembro, Vittorio Pozzo resolveu fazer um experimento com o WM em sua formação. Acabou goleado em Berlim por 5 a 2, com três tentos de Franz Binder – parte de Wünderteam da Áustria, mas “anexado” com o resto de seu país por Hitler. Já em maio de 1940, quando a destruição já assolava a Europa, os países voltaram a reafirmar os laços através do futebol, com vitória italiana por 3 a 2 no San Siro.

A reaproximação

Depois disso, alemães e italianos passaram 15 anos sem se reencontrar no futebol. Natural, diante das feridas abertas com a Segunda Guerra Mundial. A rivalidade em campo só foi revivida em 1955, em dois amistosos, um em cada país. E a Itália recobrou sua supremacia contra os rivais, mesmo depois de conquistarem a Copa do Mundo no ano anterior. Sob a estrela de Giampiero Boniperti, a Azzurra carimbou a faixa da Alemanha Ocidental de Sepp Herberger, com dois triunfos por 2 a 1 – um em Stuttgart e outro em Roma. Em 1962, as duas seleções disputaram o seu primeiro jogo oficial, empatando por 0 a 0 na fase de grupos da Copa de 1962. Três anos depois, o amistoso em Hamburgo terminou com igualdade no placar, 1 a 1.

O Jogo do Século

O grande marco no clássico entre Alemanha Ocidental e Itália vem na Copa do Mundo de 1970. O duelo no Estádio Azteca valia vaga na decisão. E os dois timaços fizeram tudo para eternizar aquela ocasião como ‘O Jogo do Século’. Boninsegna deixou a Azzurra em vantagem durante a maior parte do tempo regulamentar, mas Schnellinger buscou o empate nos instantes finais. A preparação para uma prorrogação espetacular. Gerd Müller virou o placar, mas os italianos voltaram a ficar em vantagem com Burgnich e Riva. De novo Müller buscou o 3 a 3. Para, no minuto seguinte, Gianni Rivera determinar o resultado final de uma das maiores partidas da história. Apesar da derrota, Beckenbauer saiu como herói, jogando como o ombro deslocado. Já a Azzurra, desgastada, não conseguiu ser competitiva com o Brasil na final. De qualquer maneira, havia um prêmio conquistado diante dos germânicos, a ser lembrado eternamente. Até o fim da década, o Nationalelf ainda se tornaria bicampeão do mundo e jogaria outras três partidas com os italianos, somando uma vitória e dois empates. Nada que apagasse o gosto amargo por jogar tanto no México e não vencer.

A final da Copa

Doze anos depois, outro jogo decisivo em Mundial. Itália e Alemanha Ocidental até tiveram um embate na segunda fase da Copa de 1978, mas o 0 a 0 não foi muito significante. Bem diferente do que aconteceu em 1982, na final em Madri. Tanto os italianos quanto os alemães vinham motivados pelos feitos anteriores: a Azzurra, por escrever a Tragédia do Sarriá diante do Brasil; a Alemanha Ocidental, por triunfar na partidaça contra a França na semifinal. Mas, no fim das contas, nada parecia possível de desbancar os italianos naquela ocasião, nem mesmo Breitner ou Rummenigge. Cabrini desperdiçou um pênalti no primeiro tempo, que nem assim fez falta. Na segunda etapa, o time de Enzo Bearzot abriu três tentos de vantagem, com Paolo Rossi, Tardelli e Altobelli. No final, Breitner até venceu Zoff, mas o 3 a 1 consagrava o tricampeonato mundial dos italianos. Dois anos depois, os finalistas da Copa foram convidados para fazer parte da festa dos 80 anos da Fifa. Vitória alemã em Zurique por 1 a 0, gol de Briegel. Já em 1986, em outro amistoso, o Nationalelf fez 2 a 1 em Avellino.

Os encontros europeus

Entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990, o clássico se tornou corriqueiro. Em 1988, pela primeira vez as seleções se cruzaram na Euro. O empate por 1 a 1 em Düsseldorf, logo na estreia, ajudou a encaminhar a classificação de ambas as equipes. Parariam nas semifinais, diante de Holanda e União Soviética. Em 1992, Roberto Baggio decidiu o amistoso que poderia muito bem ter sido a final da Copa de dois anos antes, enquanto a Alemanha respondeu com duas vitórias entre 1994 e 1995. E, em 1996, outro encontro europeu pela fase de grupos. Gianfranco Zola desperdiçou um pênalti, em tarde inspirada do goleiro Andreas Köpke. Empate por 0 a 0 na rodada final, que custou a eliminação da Azzurra, enquanto o Nationalelf caminhou rumo ao tricampeonato continental em Wembley.

Os últimos traumas alemães

Se a atual ascensão da Alemanha demorou a se reverter em títulos, a Itália tem muita culpa nisso. Em 2006, o aviso veio em março, com goleada por 4 a 1 em Florença, tentos de Gilardino, Toni, De Rossi e Del Piero. Nada perto do pesadelo que se concretizaria em Dortmund, naquele 4 de julho. Favorita e dona da casa, a Alemanha não conseguiu vencer o sistema defensivo perfeito de Marcello Lippi na semifinal da Copa do Mundo. Caiu nos últimos instantes da prorrogação, quando Grosso e Del Piero deram os golpes fatais em noite que parecia fadada aos pênaltis. A chance do troco viria em outra semifinal, desta vez na Euro 2012. Balotelli, no jogo de sua vida, causou de novo as lágrimas alemãs. Desde então, o clássico aconteceu mais duas vezes: empate por 1 a 1 em novembro de 2013 e goleada do Nationalelf por 4 a 1 no último mês de março. Os alemães esperam que seja um presságio deste sábado, embora saibam que o espírito dos italianos costuma ser outro quando a bola rola para valer.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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