Eurocopa

No modorrento jogo de Sevilha, Isak deu um raro sopro de vida e alimentou um pouco mais as expectativas da Suécia

Jovem atacante fez sua primeira partida por grandes competições e representou a principal ameaça à Espanha

Espanha e Suécia fizeram o primeiro jogo sem gols da Euro 2020. Mas, numa partida em que as equipes deixaram a desejar, os suecos ainda tiveram um bom destaque ofensivo. Alexander Isak fez os espanhóis suarem frio, representando a principal ameaça enquanto permaneceu em campo. Se o ataque da Roja era bastante estéril, apesar da posse de bola massiva, bastava a mínima brecha para que o centroavante adversário levasse perigo. Se o gol de Isak não veio, foi mais por culpa dos outros do que exatamente por seus deméritos. Um respiro aos escandinavos, diante daquilo que o jovem pode representar.

O encontro com a Espanha tinha um gosto especial para Isak, afinal. A Real Sociedad consegue aproveitar o máximo potencial de um talento que surgiu muito cedo para o futebol. Ainda com 17 anos, o filho de imigrantes eritreus já acumulava gols no AIK e era tratado como um fenômeno no Campeonato Sueco. A progressão de Isak, todavia, levou um pouco mais de tempo. O garoto não emplacou em sua transferência ao Borussia Dortmund e precisou de um semestre emprestado ao Willem II para redescobrir sua fome de gols na Eredivisie. Tal recuperação se tornaria essencial para abrir as portas na Real Sociedad em 2019/20 e fazer os bascos desembolsarem €6,5 milhões pelo negócio – um valor mais baixo que pago inicialmente pelo BVB.

Com 20 anos recém-completados, Isak ainda permaneceu no banco da Real Sociedad durante seus primeiros meses. Entretanto, o interesse de Willian José em seguir à Premier League foi a chave para a promessa arrebentar. Enquanto o centroavante titular negociava sua saída em janeiro de 2020, o novato ganhava espaço. Entrou, deu conta do recado e, quando o brasileiro voltou sem acertar sua venda, já tinha perdido seu lugar no time titular. O momento do sueco era tão bom que o técnico Imanol Alguacil não iria se arriscar a tirá-lo. Neste um ano e meio desde que passou a comandar o ataque dos txuri-urdin, Isak anotou 22 gols em 52 aparições por La Liga – uma marca respeitável a quem ainda tem 21 anos.

Campeão e artilheiro da Copa do Rei 2019/20, Alexander Isak se firmou na seleção sueca a partir de então. O atacante até desfrutou de uma sequência em 2019, durante as Eliminatórias da Euro, mas geralmente saindo do banco. Seus gols foram anotados contra adversários inexpressivos, como Malta e Ilhas Faroe. Foi o impacto no futebol espanhol que realmente abriu portas ao garoto na equipe nacional a partir de 2020, encarando adversários mais cascudos e ocupando um lugar como titular. Considerando o esquema tático dos suecos, com dois atacantes, Isak garantia o melhor dos mundos: é um atacante alto para o jogo aéreo, mas também com boa mobilidade e refinamento técnico. Algo evidenciado contra a Espanha.

Diante da ausência de Zlatan Ibrahimovic, lesionado, a certeza sobre a titularidade de Alexander Isak se tornou maior. E dá para dizer que faltou um parceiro mais qualificado na linha de frente, diante das limitações de Marcus Berg, apesar de sua experiência. As duas maiores oportunidades da Suécia em Sevilha nesta segunda saíram dos pés do jovem. No primeiro tempo, ele ganhou a disputa com Aymeric Laporte e deixou o zagueiro no chão. Se o gol não saiu, os méritos foram todos de Marcos Llorente, para afastar o perigo quase em cima da linha e ainda contar com a sorte, ao ver a bola bater na trave. Já na segunda etapa, Isak faria outro carnaval na marcação adversária. Seu passe saiu açucarado para Berg, que desperdiçou com a meta escancarada à sua frente.

Aos 24 minutos do segundo tempo, o técnico Janne Andersson decidiu trocar sua dupla de ataque para renovar as energias. A estratégia era até compreensível, mas a saída de Isak não se mostrou acertada. Sem o garoto, a Suécia perdeu a principal ameaça contra os espanhóis e não criou muita coisa. Ao menos, a defesa conseguiu se desdobrar para manter o placar zerado. O goleiro Robin Olsen realizou defesas vitais, enquanto Victor Lindelöf e Marcus Danielson trancaram o miolo de zaga – por mais que a Espanha também não tenha vivido sua noite mais calibrada no Estádio Olímpico de la Cartuja.

A Suécia é uma seleção coletivamente bem montada, mas que passou os últimos anos sem grandes talentos individuais. As recorrentes notícias sobre a volta de Zlatan Ibrahimovic também correspondiam a essa escassez. Alexander Isak, no entanto, oferece um pouco de esperança aos seus compatriotas. Indica que o ataque estará muito bem servido com sua presença, assim como com a opção de Dejan Kulusevski – que, após pegar COVID-19, acabou se ausentando neste início de fase de grupos. Ainda não dá para dizer qual será o nível do centroavante ou como sua carreira se desenvolverá. Mas essa estreia na Euro 2020, sua primeira partida por uma das grandes competições, foi bastante promissora. Isak deu uma pincelada de cor a um jogo que durante quase todo o tempo se limitou a um modorrento tom acinzentado de raras emoções.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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