Eurocopa

Não faltou emoção e nem drama para uma Suíça memorável, que reviveu na partidaça e eliminou a França nos pênaltis

Virada no placar, pênalti defendido, empate agônico no fim, prorrogação imparável: Suíça 3x3 França fica para a história da Eurocopa

A Arena Nacional de Bucareste recebeu uma das partidas mais emocionantes da história da Eurocopa nesta segunda-feira. Se o Espanha 5×3 Croácia parecia eletrizante o suficiente, o Suíça 3×3 França conseguiu repetir o roteiro e ainda adicionar contornos de dramaticidade. Mas, no fim, desta vez passou o menos cotado. Os suíços conseguiram se reconstruir daquilo que parecia um show francês no início do segundo tempo e buscaram o empate salvador nos acréscimos, antes de uma prorrogação ainda cardíaca. Para que, nos pênaltis, a vitória dos helvéticos por 5 a 4 viesse quando Yann Sommer pegou a batida derradeira de Kylian Mbappé. As reviravoltas e as outras tantas chances criadas marcam a noite insana na Romênia. E isso tudo num duelo em que os dois times não abdicaram da sede pelo triunfo mesmo nos instantes mais dramáticos. A Suíça segue com uma vitória memorável às quartas de final, deixando aqueles considerados como os maiores favoritos pelo caminho. Na próxima etapa, a Espanha será a adversária dos suíços.

As formações

A França apostou numa formação diferente, diante dos problemas na lateral esquerda, sem Lucas Hernández e Lucas Digne nas melhores condições. Com isso, o time foi armado num 3-5-2. Clément Lenglet entrou na zaga ao lado de Presnel Kimpembe e Raphaël Varane. Já o ala esquerdo foi o improvisado Adrien Rabiot. No meio, Paul Pogba e N’Golo Kanté fechavam a cabeça de área, com Antoine Griezmann na ligação. Karim Benzema e Kylian Mbappé se combinavam no ataque. Já a Suíça repetia a equipe que deu certo contra a Turquia, também num 3-5-2. Nico Elvedi e Ricardo Rodríguez se somavam a Manuel Akanji na zaga. Steven Zuber continuava na ala esquerda, com Granit Xhaka controlando o meio. Xherdan Shaqiri armava, com Breel Embolo e Haris Seferovic na frente.

A Suíça fica com o jogo na mão

A França mudava a formação, mas não a postura. Ainda era uma equipe que preferia jogar mais resguardada e explorar os ataques rápidos, especialmente nas arrancadas de Mbappé. Os blocos mais baixos de marcação permitiam que a Suíça subisse em campo e tentasse forçar os erros. O que os Bleus não esperavam era o gol precoce dos helvéticos. Remo Freuler já daria um aviso, em cruzamento perigoso que ninguém completou na área. Já aos 15 minutos, saiu o lance que botou os suíços na dianteira. Numa bola espirrada, Zuber deu sequência no lado esquerdo. Cruzou no capricho para que Seferovic emendasse de cabeça às redes, ganhando de Lenglet pelo alto.

França não faz muito no primeiro tempo

A partir de então, o jogo mudava de figura. A França precisava tomar a iniciativa, de um jeito que não gosta de fazer, e permitiria à Suíça recuar em busca dos contragolpes. E de fato a criação dos franceses era pobre, com poucos lances de perigo. Rabiot chegou a cruzar uma bola aos 23, que Sommer desviou com a ponta dos dedos. Os Bleus não tinham a profundidade que seus atacantes podem conferir e não abriam o jogo pelo meio. Os lances acabavam reduzidos a espasmos, como num tiro de fora da área que Rabiot mandou para fora aos 28.

Suíça ainda dá seus sustos

A Suíça não precisava forçar muito para manter o jogo contra o seu controle. Por vezes apertava um pouco mais a marcação e administrava a posse de bola, longe de passar muitos sustos. E até dava para buscar um pouco mais o ataque. Aos 41, Varane seria salvador para desarmar Embolo. Diante do desencontro da França, a impressão era de que os suíços poderiam pressionar mais. Se de um lado a marcação era rígida, que não deu brechas a muitos arremates limpos dos Bleus, do outro os franceses necessitavam de mais atenção.

Lloris salva a pele da França

A França precisava de mudanças e voltou ao 4-2-3-1 no segundo tempo, com a entrada de Kingsley Coman na ponta esquerda, na vaga de Lenglet. O time demonstrava um pouco mais de agressividade desde os primeiros minutos, mas concedia espaços atrás. E quase a Suíça causa um estrago maior. Primeiro, Embolo arrancou pela direita e cruzou rasteiro. A defesa francesa conseguiu se safar antes que alguém completasse. Já aos oito, os helvéticos ganharam um pênalti de Benjamin Pavard em cima de Zuber. Ricardo Rodríguez partiu para a cobrança e mandou no cantinho, mas Lloris operou uma defesa incrível para negar o tento. Lance tão difícil quanto importante.

Benzema garante o empate

A França ganhou confiança com o pênalti defendido por Lloris, ao mesmo tempo em que a Suíça perdeu sua solidez defensiva. Foi a chave para que Benzema fizesse estrago, anotando dois gols em sequência. Aos 12, o lance nasceu numa recuperação de Kanté na intermediária. Griezmann conectou com Mbappé, que deu a enfiada para Benzema na entrada da área. O mais incrível foi o domínio do centroavante, meio de letra, quando a bola parecia passar. O artilheiro domou a redonda e, diante de uma zaga desmontada, chegou a tempo de dar um toquinho na saída de Yann Sommer.

Benzema determina também a virada

E não foram nem mais dois minutos para que a França já garantisse a virada. Pogba desarmou na entrada da área, tocando para Coman. O ponta recuou a Griezmann, que tabelou com Mbappé e recebeu uma linda devolução de calcanhar. O atacante saiu de frente com Sommer e bateu cruzado, para o goleiro desviar com a ponta dos dedos. Todavia, a bola ficou viva na pequena área e de novo Benzema estava lá, para apenas conferir de cabeça. Depois da atuação decisiva contra Portugal, o atacante conseguia ser ainda mais brilhante à seleção.

A França dita o ritmo

A partir de então, enfim, a França tinha o jogo favorável. E os Bleus sequer precisaram esperar a Suíça em seu campo. Com os adversários sentindo a virada, deu para empurrar os alvirrubros contra a parede. Um breve respiro dos helvéticos veio numa cobrança de falta de Shaqiri, que Seferovic não conseguiu completar. De qualquer maneira, o jogo dos franceses fluía, com a boa participação de Coman pelo lado esquerdo. Ainda quase saiu um gol contra bizarro, num recuo de Silvan Widmer que pegou Sommer de calças curtas, mas acabou saindo para fora. Logo Vladimir Petkovic faria suas primeiras trocas, aos 27, com Kevin Mbabu e Mario Gavranovic nas vagas de Widmer e Shaqiri.

O golaço de Pogba

Se a partida já parecia suficientemente difícil à Suíça, ela se tornaria pior aos 30 minutos. Pogba queria participar da festa e adicionou uma pintura à sua excelente Eurocopa. Num lance em que Benzema carimbou a marcação, a sobra do chute veio mansa para o meio-campista. Pogba tinha todo o espaço para ajeitar e mandou de chapa um tiro perfeito na gaveta. Sommer saltou em vão. A comemoração marrenta, cruzando os braços e rindo pra torcida, era a representação da leveza que o duelo tomava aos franceses. Logo seriam mais duas trocas entre os suíços, com Ruben Vargas e Christian Fassnacht nos lugares de Embolo e Zuber.

A Suíça volta para o jogo

A partida não estava totalmente resolvida para a França, porém. Era necessário manter a atenção na marcação, o que não aconteceu aos 36 minutos, com o segundo gol da Suíça. Mbabu aproveitou o enorme espaço do lado direito da área e cruzou para Seferovic assinalar mais um de cabeça. Apesar disso, os Bleus não se retrancaram. Rabiot mandaria outra pancada pra fora aos 38. Só que ainda haveria um gol anulado dos suíços aos 40. Rodríguez chutou mascado e Gavranovic mandou para dentro, mas estava impedido. O aviso era claro. Na sequência, Deschamps aumentou sua força no meio, com Moussa Sissoko substituindo Griezmann.

O milagre acontece: Suíça 3×3

A Suíça encheu seu time de atacantes, em especial quando trocou Ricardo Rodríguez por Admir Mehmedi. Pois o desespero se transformou em milagre, com o terceiro gol aos 46. Numa bola roubada de Pogba no meio, Xhaka acelerou no contra-ataque. A assistência seguiu entre as linhas francesas e encontrou Gavranovic no mano a mano contra Kimpembe. O substituto deixaria o zagueiro no chão, antes de definir na saída de Lloris. A emoção enorme de Espanha 3×3 Croácia se repetia com um roteiro muito parecido em Bucareste.

Só acaba quando termina

Não dava para piscar diante do campo. Nenhuma das duas equipes desistia de matar o jogo ainda no tempo normal, entre uma França cheia de qualidade individual e uma Suíça com muitos atacantes. Mehmedi saiu de frente com Lloris, mas a bola escapou no domínio e o goleiro ficou com ela. Logo depois, Coman esteve prestes a anotar um golaço. Depois do cruzamento de Sissoko, o ponta matou no peito e mandou a chicotada que estalou o travessão. Só então os times tiveram um respiro com o fim do tempo normal. Sobravam mais 30 minutos extras à injeção de emoção.

Sem tempo para respirar na prorrogação

A prorrogação não reduziu o ímpeto das equipes. Ainda era uma partida lá e cá, com os dois times dispostos a buscar a vitória. Mehmedi cabeceou para uma defesa segura de Lloris, antes de Sommer operar uma defesaça num chute de Pavard. Benzema deixaria o campo naquele momento, para a entrada de Olivier Giroud. Seferovic também permitiria que Fabian Schär recompusesse a defesa suíça. Mas a sede pelo gol ainda prevalecia. Mbabu teve seu cruzamento travado na área por Varane, ao passo que Coman acertaria a rede pelo lado de fora. Só deu para descansar um pouco mais quando o desgaste óbvio gerou atendimentos médicos a Coman e Xhaka.

A França ainda tentou mais o gol

O fim do primeiro tempo da prorrogação ficaria um pouco mais travado. Já no início do segundo, a França deu um passo à frente para pressionar. Numa grande jogada individual de Kanté, Mbappé chutou para fora. Depois, o atacante recebeu uma enfiada perfeita de Pogba e, de frente com Sommer, pegou mal na bola, num erro crasso. Coman sairia sentindo, com a entrada de Marcus Thuram. O ponta participava bastante e, numa dessas, recebeu mais um passe soberbo de Pogba. O cruzamento chegou a Giroud, que carimbou Mbappé. No fim, os Bleus ainda ficavam mais em cima. A última grande chance viria num lançamento de Kimpembe para Giroud, que cabeceou livre. Sommer deu uma linda ponte para ficar com a bola.

Nos pênaltis, Sommer breca Mbappé

A Suíça começou batendo na disputa por pênaltis. Gavranovic converteu. Já o primeiro cobrador francês foi Pogba, que mandou na gaveta. Schär e Giroud mantiveram o aproveitamento, assim como Akanji e Thuram. Quando Vargas chutou a quarta dos suíços, Lloris tocou na bola antes que ela entrasse. Na sequência, Kimpembe não deu chances a Sommer. Por fim, na quinta série de tiros, Mehmedi mandou no cantinho e Sommer defendeu o tiro de Mbappé para classificar os helvéticos. Festa da Suíça, que pela primeira vez chega às quartas de final da Eurocopa e faz sua melhor campanha internacional desde a Copa de 1954.

Ficha técnica

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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