Eurocopa

Ceferin admite “injustiça” de Euro em múltiplas sedes e acha que Uefa não usará formato novamente

O presidente da Uefa nem precisou citar as dificuldades extras da pandemia para concluir que a Euro em várias sedes não foi uma ideia muito brilhante

O plano de Michel Platini deu errado em diversas maneiras. Primeiro, foi chutado da presidência da Uefa por ter recebido um pagamento de Joseph Blatter sob condições suspeitas antes da grande celebração que planejou para os 60 anos da Eurocopa. E, depois, a sua proposta de realizar o torneio em múltiplas sedes foi de um projeto desafiador a uma ideia de jerico por causa de uma pandemia global. E mesmo em condições normais, o atual presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, afirmou que não repetiria a empreitada.

A Euro 2020 em múltiplas sedes foi anunciada em 2012, quando Platini ainda era um dos dirigentes mais poderosos do futebol, com ambições de chefiar a Fifa. A celebração dos 60 anos da Eurocopa foi a desculpa oficial, mas também pesou bastante o fato de não haver muitos candidatos atraentes, em uma época na qual as entidades ainda exigiam altos investimentos para receber eventos de futebol. A Turquia era a opção mais forte e, não por acaso, foi a que ficou mais revoltada com a decisão de espalhar a Euro pelo continente.

Ceferin era presidente da Federação Eslovena e compunha o Comitê Jurídico da Uefa antes de assumir a presidência como sucessor de Platini. Herdou a Eurocopa em múltiplas sedes, mas também não recuou nem mesmo diante da justificativa mais forte possível para restringi-la a um único país – conter a disseminação do coronavírus. “Eu não apoiaria mais (o formato)”, afirmou, em entrevista à BBC. “O formato foi decidido antes de eu chegar (à presidência) e eu o respeito. É uma ideia interessante, mas é difícil de implementar e não acho que o faremos novamente”.

Além de citar a dificuldade de precisar navegar por diferentes jurisdições, moedas e países que estão e não estão na União Europeia, Ceferin também afirmou que considera injusto que alguns torcedores e times tenham precisado viajar menos do que outros.

A Bélgica estreou na fase de grupos e a fechou em São Petersburgo. Entre esses jogos, precisou se deslocar à Dinamarca para enfrentar a dona da casa em Copenhague. No mata-mata, jogou em Sevilla, Munique e Londres. No total, percorreu mais de 10 mil kms. A Inglaterra disputou a fase de grupos, as oitavas de final e a semifinal em Londres. Precisou se mexer menos de 4 mil kms.

Para as semifinais, os ingleses pegaram um voo de 1,7 mil kms da capital italiana, enquanto a Dinamarca precisou sair de Baku, onde jogou a sua quarta de final, uma distância de 4,6 mil kms. A Itália, adversária da Inglaterra na final, também não se moveu muito. Foi sede nos três jogos da fase de grupos e passou todo o mata-mata em Londres, com exceção das quartas de final, em Munique, a apenas 1.000 kms de distância.

“De certa maneira, não é correto que alguns times tenham viajado mais de 10.000 kms e outros apenas 1.000 kms. Não é justo com os torcedores, que um dia tiveram que estar em Roma e depois em Baku, que é um voo de quatro horas e meia”, constatou (o óbvio) o presidente da Uefa.

E ele nem citou as dificuldades extras da pandemia. Ao contrário, comemorou que os protocolos da Uefa evitaram surtos significativos de Covid-19 entre os jogadores, embora tenha havido um ou outro caso de jogador testando positivo, e acha que a Eurocopa foi uma celebração do retorno à normalidade.

“Tem sido uma Eurocopa especial. Eu a lembrarei como o começo da normalidade e o retorno dos torcedores. Eu nunca vi uma Euro tão dramática quanto essa, com grandes partidas e resultados surpreendentes”, disse.

“Nossos protocolos de saúde são extremamente rígidos e todos são testados, mesmo quem foi vacinado. Eu fui testado 76 vezes. Os times são altamente profissionais e respeitam o sistema de bolha. Além disso, nos estádios, estamos sendo muito rígidos e fico decepcionado quando vejo políticos dizendo que pessoas foram infectadas durante as partidas”.

“Alguns dizem que 2.000 escoceses foram infectados, mas os torcedores escoceses que foram ao jogo (contra a Inglaterra) foram testados. Também houve 20.000 que vieram a Londres sem ingressos. Você não é testado no parque, mas acusar o futebol de disseminar o vírus é irresponsável, na minha opinião”, completou.

A Saúde Pública da Escócia relacionou 1.991 novos casos de Covid-19 ao futebol, pelo menos dois terços deles a pessoas que viajaram a Londres para o jogo da seleção escocesa contra a Inglaterra em 18 de junho, incluindo 397 pessoas que estiveram em Wembley. Outras dezenas de milhares de pessoas viajaram mesmo sem ingressos, apesar das orientações para não fazê-lo. O diretor nacional clínico da Escócia, Jason Leitch, porém, disse que era impossível saber se essas pessoas contraíram o vírus assistindo ao jogo ou em outros locais.

Eriksen e homofobia

Ceferin tocou em outros dois assuntos importantes desta Eurocopa. Ele disse que ficou “tocado” pela reação dos outros jogadores dinamarqueses durante o ataque cardíaco de Christian Eriksen, no primeiro jogo da sua seleção contra a Finlândia, mas não falou se houve ou não pressão da Uefa para que a partida fosse retomada naquele mesmo dia.

“Foi uma situação aterrorizante. Estávamos todos completamente chocados, mas, de certa maneira, foi bom que tenha acontecido em um jogo de futebol de alto nível porque os paramédicos apareceram em 20 segundos e salvaram sua vida, tenho certeza. Graças a Deus tudo está ok com ele e foi importante mostrar respeito a ele e ao time de médicos, que reagiram de maneira fantástica”, afirmou, provavelmente fazendo referência ao convite para que assistissem à decisão da Eurocopa em Wembley. “Eu vi os jogadores dinamarqueses se unirem ainda mais depois daquele incidente. Eles também reagiram de maneira fantástica, especialmente o capitão (Simon Kjaer) e tenho que dizer que fiquei tocado pela reação”.

O dirigente também reforçou que tanto ele quanto a Uefa são contra a homofobia, mas que não podia permitir que a sua entidade fosse arrastada a uma disputa política. A Uefa negou o pedido da prefeitura de Munique para iluminar a Allianz Arena com as cores do arco-íris em protesto a uma lei draconiana e discriminatória do Parlamento húngaro durante o jogo entre Alemanha e Hungria no fim da fase de grupos.

“Minha opinião pessoal sobre direitos humanos e diversidade e a opinião da Uefa são claras. O problema é que recebemos uma carta com um pedido para iluminar o estádio com as cores do arco-íris em protesto contra o governo de um país da Europa e contra parlamento de um país da Europa”.

“A Uefa é uma organização cujo estatuto não permite que participemos da política. Nós punimos pessoas se elas participam da política. Não podemos protestar contra governos e não seremos arrastados para uma luta política. Mas nossa posição é clara. Nós a demonstramos várias vezes e demonstraremos outras mais no futuro”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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