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Uefa proíbe que Allianz Arena se ilumine com as cores do arco-íris em protesto a lei homofóbica da Hungria

No entanto, 11 mil bandeiras do arco-íris devem ser distribuídas nas arquibancadas e outros estádios alemães preparam uma mensagem de solidariedade à comunidade LGBTQ da Hungria

A Uefa está mais do que satisfeita em organizar campanhas genéricas contra a homofobia e a favor da igualdade, desde que elas não lhe tragam nenhum custo político. Uma ação que especificamente visa uma lei draconiana do país de uma das suas filiadas é ir longe demais. Há alguma outra leitura possível? Porque a Uefa recusou a proposta do prefeito de Munique, Dieter Reiter, de iluminar a Allianz Arena com as cores do arco-íris para o jogo entre a Alemanha e a Hungria na próxima quarta-feira.

Seria uma mensagem forte de solidariedade à comunidade LGBT da Hungria em protesto a uma nova lei do parlamento húngaro que proíbe a disseminação de informações consideradas pró-homossexualidade nas escolas e restringe a mídia de veicular conteúdos com conteúdo homossexual em programas direcionados a menores.

Uma provocação direta à Hungria do primeiro-ministro de extrema direita Viktor Orbán? Claro. Imagino que esse fosse justamente o ponto. “A Uefa, por meio dos seus estatutos, é uma organização politica e religiosamente neutra. Dado o contexto político desse pedido específico – uma mensagem que visava a decisão tomada pelo parlamento nacional da Hungria -, a Uefa deve recusar a proposta”, afirmou a entidade, em um comunicado.

Aleksander Ceferin, segundo a agência de notícias italiana ANSA, reforçou que a Uefa tem o “compromisso de combater todas as formas de discriminação, inclusive o preconceito e a homofobia”, mas deixou claro que o fato de haver políticos envolvidos é suficiente para que ela se abstenha desse compromisso.

“Foi um pedido de um político claramente dirigido a um ato político de um governo de outro país”, afirmou Ceferin. A Uefa sugeriu que a prefeitura de Munique ilumine o estádio com as cores do arco-íris em 28 de junho, o dia de Christopher Street, uma data de celebração LGBT que remete às revoltas de Stonewall nos EUA, ou entre 3 e 9 julho, a semana do Dia de Christopher Street em Munique.

Porque aí a Uefa teria um álibi para dizer ao governo Orbán que o protesto não é direcionado às tentativas de censura do seu governo e também a Alemanha não estaria jogando contra a Hungria. “De todo coração, apoio e festejo Neuer usar uma faixa com as cores do arco-íris. E de todo o coração, sou a favor de um estádio iluminado com as cores do arco-íris em outras ocasiões, como propõe a Uefa, sem fins políticos”, completou.

Uma observação importante: o governo da Hungria foi essencial para que a Uefa conseguisse completar a última temporada da Champions League ao permitir que a Puskás Arena de Budapeste fosse usada para jogos entre clubes alemães e ingleses nas oitavas de final cuja organização foi prejudicada pelas restrições de viagem na Europa por causa da pandemia de Covid-19.

Fico feliz que ele tenha mencionado o caso Neuer. O goleiro da Alemanha usou uma braçadeira de capitão com as cores do arco-íris nos dois primeiros jogos da Eurocopa. A Uefa abriu uma investigação contra o jogador. Dois dias atrás, a Federação Alemã afirmou que a entidade havia interrompido o processo porque a faixa de capitão havia sido avaliada como “um símbolo do time pela diversidade e, portanto, uma boa causa”.

“Acho vergonhoso que a Uefa nos proíba de dar um sinal de abertura, tolerância, respeito e solidariedade para as muitas pessoas da comunidade LGBT”, afirmou Reiter, prefeito de Munique, segundo a DW, enquanto o presidente interino da Federação Alemã, Rainer Koch, apoiou a decisão da Uefa. “Ela não poderia agir de outra forma. Não era mais uma mera afirmação na luta comum contra qualquer forma de discriminação, mas uma ação política”, escreveu no Facebook, também de acordo com a DW.

Bom, claramente não é uma luta tão comum assim, certo? Outra investigação foi aberta contra denúncias de homofobia e racismo da torcida húngara, que levou uma faixa com mensagem anti-LGBT para o primeiro jogo do grupo, contra Portugal, e foi ouvida emitindo sons de macaco na partida seguinte, diante da França.

“Meus pensamentos estão com o povo da Hungria, mas especialmente com as comunidades LGBTs no país. O mundo do futebol tem mais uma oportunidade de se posicionar. Espero que a Uefa trate isso com seriedade e reconsidere levar mais jogos da Euro para Budapeste. Jogo igualitário?”, escreveu Pernille Harder, jogadora do Chelsea e embaixadora da campanha #EqualGame da Uefa, em seu Twitter.

A Euro 2020 tem mais duas partidas programadas para Budapeste. Portugal e França farão a terceira rodada da fase de grupos na Puskás Arena nesta quarta-feira, e o estádio também receberá uma das partidas das oitavas de final entre a Holanda e um terceiro colocado.


Outros estádios alemães farão os seus protestos de maneira independente. O porta-voz do conselho do Eintracht Frankfurt afirmou que, “se Munique não puder fazê-lo, outros estádios do país terão que mostrar suas cores”. A mesma ação deve ser tomada nos estádios de Colônia, Augsburg, Wolfsburg e pelos dois que são utilizados por Union e Hertha Berlim. “Estamos felizes em participar porque estamos comprometidos com a tolerância e os direitos humanos”, disse Christoph Meyer, porta-voz do Estádio Olímpico, ao Berlienr Zeitung, segundo a revista Kicker.

E segundo os organizadores da Budapest Pride, os seus correspondentes alemães preparam uma ação paralela na Allianz Arena durante Alemanha x Hungria. “Organizações LGBTQ de Munique estão se preparando para o jogo na quarta-feira. Eles entregarão 11.000 bandeiras do arco-íris dentro e nos arredores do estádio”, afirmou a Budapest Pride, no Facebook, segundo a agência de notícias Reuters. A Torre Olímpica de Munique, com vista para o estádio, também deve ser iluminada com as cores do arco-íris, e a Anistia Internacional também se organiza para entregar bandeiras do arco-íris.

“Nós, como associação, achamos muito estranho como a Uefa lida com valores que deveriam ser geralmente aceitos na sociedade”, afirmou o porta-voz da Associação de Lésbicas e Gays da Alemanha, Markus Ulrich, de acordo com a Kicker. “A Uefa não consegue ver os sinais dos tempos e é fácil observar de que lado está escolhendo com a sua decisão”.

Porque, pela milésima vez, neutralidade diante de ataques a direitos humanos (ou qualquer questão, mas vamos nos ater a que é mais relevante aqui) é uma posição política em si e ela fala muito mais alto do que hashtags, campanhas genéricas ou tuítes como este, em agosto de 2019, prometendo uma Eurocopa “para todos”.

Naquela ocasião, em resposta a um amigo internauta questionando qual era a necessidade do tuíte, a própria Uefa respondeu: “Infelizmente, há muitas pessoas, e muitas dentro da comunidade LGBTQ, que não se sentem incluídas ou aceitas no futebol. Achamos que é importante lembrá-las que elas são. É um jogo para todos”.

Seria legal perguntar se a comunidade LGBTQ da Hungria está se sentindo incluída na Eurocopa.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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