Eurocopa 2024

Após vender carros e cortar árvores, Nawalka reencontra Portugal nas voltas que o mundo dá

Adam Nawalka possui uma história na seleção polonesa anterior à sua chegada como técnico. E sendo parte dos momentos mais gloriosos do país dentro de campo. Promissor meio-campista do Wisla Cracóvia, o garoto começou a ser convocado aos 19 anos. Cumpria o sonho de jogar ao lado de craques como Lato, Deyna, Szarmach, Zmuda e Tomaszewski, bases do timaço que chegou ao terceiro lugar na Copa de 1974. Nawalka precisava carregar o piano para os veteranos brilharem, mas já era uma honra fazer parte daquele elenco. Em 29 de outubro de 1977, apenas seis dias após completar 20 anos, disputou sua nona partida pela equipe nacional: empate por 1 a 1 com Portugal em Chorzów, que encaminhou a classificação polonesa nas Eliminatórias do Mundial de 1978, deixando os lusos de fora.

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Nawalka esteve na Copa do Mundo e foi um dos destaques da Polônia, que fez grande campanha na fase de grupos, mas acabou eliminada por Argentina e Brasil na segunda etapa da competição. Ao lado de Boniek, o meio-campista permaneceu como uma das apostas da seleção na renovação gradual que acontecia. No entanto, não teria outra chance de brilhar. Seu país ficou um ponto atrás da Holanda e perdeu a classificação para a Eurocopa em 1980. Já na sequência, o jovem começou a sofrer com as lesões. Após completar 23 anos, não foi mais convocado e perdia espaço no Wisla Cracóvia. Insistiu na carreira até os 27 anos, quando realmente percebeu que os problemas o impediam de atuar em alto nível. Depois disso, mudou-se para os Estados Unidos, onde se juntou a uma equipe semiprofissional da comunidade polonesa em Nova York. Sofreria um bocado até retornar à seleção.

Aposentado do futebol, Nawalka sofreu com as penúrias de quem não conseguiu juntar dinheiro como jogador e também não tinha as garantias oferecidas pelo governo polonês aos esportistas, diante do colapso do comunismo. Seguiu vivendo nos Estados Unidos, onde passou a trabalhar em uma empresa de cabos elétricos de alta tensão. Seu serviço? Subir às alturas e cortar os galhos das árvores para que os fios pudessem cruzar os céus. Um trabalho braçal bastante duro, mas que ajudaria a moldar o seu caráter. Já no início da década de 1990, com a queda da Cortina de Ferro, Nawalka voltou à Polônia. Vendia os carros fabricados na Alemanha Oriental e que seguiam tão populares entre os poloneses. Também chegou a vender calças e produtos de beleza. Até reencontrar o seu caminho no futebol e iniciar sua preparação como técnico na Itália.

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Em uma escola de treinadores fortíssima, Nawalka teve a chance de estagiar até mesmo na Roma de Fabio Capello. Mas o recomeço no futebol não foi fácil. Em sua antiga casa, no Wisla Cracóvia, desempenhou funções diretivas, com rápidas passagens como técnico no início dos anos 2000. Rodando também por clubes médios, teve sua primeira chance na seleção entre 2007 e 2008, como assistente. Sua facilidade com o inglês o tornou braço direito do holandês Leo Beenhakker, o escolhido para conduzir a Polônia rumo à Euro 2008. Conseguiu, deixando até mesmo Portugal para trás nas Eliminatórias, mas a equipe não avançou na fase de grupos.

De volta aos clubes, Nawalka passou pela segunda divisão até desempenhar seu trabalho de maior destaque, no Górnik Zabrze, clube de meio de tabela no Campeonato Polonês. Mas a velha relação com Boniek pesou mais do que o currículo na hora de chegar à seleção. Presidente da federação, o ex-companheiro precisava de um novo nome após a fracassada tentativa dos poloneses de se classificarem à Copa de 2014. Escolheu Nawalka não apenas por seus predicados como treinador, mas também pelo estilo disciplinador e concentrado. Algo que o antigo meio-campista já fazia em seus tempos de jogador e aperfeiçoou, a duras penas, com os caminhos da vida.

Apesar da fama de durão e supersticioso, Nawalka cumpre os objetivos com a Polônia. Classificou o país em um grupo duro nas Eliminatórias da Euro e faz boa campanha na França. Se o destaque do time é Lewandowski, o treinador conseguiu moldar sua equipe além do astro. Afinal, o artilheiro não passa por um bom momento e a principal virtude dos poloneses vem sendo a segurança defensiva, em uma equipe que não fica muito tempo com a bola, mas combina solidez e velocidade nos contra-ataques. Predicados que serão mais do que necessários nesta quinta, quando o técnico reencontra Portugal. Quando resgata o passado sabendo que, de alguma forma, já venceu.

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Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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