Eurocopa

Antes ignorado por Luis Enrique, Jordi Alba é uma grande referência da Espanha que avança à semifinal

Com participação no gol e nas principais jogadas da equipe, Alba foi destaque contra a Suíça

Jordi Alba é um dos raros resquícios da geração multicampeã na atual seleção da Espanha, ao lado de Sergio Busquets. O lateral não disputou a Euro 2008 e nem a Copa de 2010, mas virou titular na Euro 2012, na vaga de Joan Capdevilla. O então jogador do Valencia seria um dos melhores da equipe tricampeã continental, com direito a uma partidaça na final contra a Itália. Quase uma década depois, Alba permanece como um dos principais laterais da Europa. E sua importância dentro da Roja se reforçaria nesta sexta-feira. O camisa 18 seria o melhor da equipe na classificação contra a Suíça e, ao longo dos 120 minutos, parecia o mais interessado em evitar uma eliminação. Nos pênaltis, viu o goleiro Unai Simón também fazer a diferença.

A passagem de Jordi Alba pela seleção espanhola tem um ápice muito precoce na Euro 2012. O lateral ganhou suas primeiras convocações meses antes do torneio continental e deslanchou para ganhar a posição na fase final. Disputou todos os minutos da campanha espanhola. Foi um dos mais agressivos numa equipe bastante burocrática e, na grande vitória sobre a Itália na decisão, até gol marcou. Seria a garantia de seu lugar na história, ainda que marcasse mais seu nome no Barcelona, onde virou uma peça-chave para os títulos do clube a partir de sua transferência. Na seleção, tal sucesso não se repetiria.

Alba seguiu como titular absoluto na defesa de Vicente del Bosque. Não escaparia da decepção na Copa de 2014 e na Euro 2016. Também manteria seu prestígio com Julen Lopetegui e não foi a conturbada saída do treinador às vésperas do Mundial de 2018 que custou a titularidade do lateral esquerdo. Sob as ordens de Fernando Hierro, também fez parte da apática campanha na Rússia. E até parecia que Luis Enrique estava disposto a prescindir dos serviços do veterano. O camisa 18 não fez parte dos planos do novo treinador no ciclo iniciado após a Copa de 2018.

A ausência de Jordi Alba nas convocações era inexplicável. Afinal, o lateral continuava comendo a bola no Barcelona. Além disso, não merecia ser visto como um pária depois das fracas campanhas nas competições anteriores. Até parecia haver alguma aresta mal aparada dos tempos em que Luis Enrique tinha sido treinador do Barça. O comandante se negava a dar explicações, apenas garantia que a motivação se restringia ao ponto de vista profissional. Todavia, a imprensa espanhola garantia que a relação já não era boa nos tempos de Camp Nou e a escolha por um sistema com três zagueiros no fim de sua passagem pelo clube incomodou o lateral. Não à toa, frequentou mais o banco neste período.

Chegou uma hora que Luis Enrique não podia mais ignorar Jordi Alba. Até contava com Marcos Alonso e José Gayà como boas opções naquele momento, mas a excelência do barcelonista o deixava à frente na fila. A convocação finalmente veio na terceira lista elaborada pelo treinador. Desde então, o veterano não foi titular absoluto da Espanha, revezando-se no posto com Gayà. Ainda assim, seu lugar nas convocações foi permanente, exceção feita a momentos em que se ausentou por lesão. Ainda que o Barça tenha sofrido nos últimos anos, o lateral se sustentou como uma referência dos blaugranas, por mais que fisicamente decaia.

Jordi Alba foi decisivo na Data Fifa de março, quando garantiu vitórias nas Eliminatórias, enquanto a Espanha não jogava bem. Passou à frente de Gayà na disputa pela lateral esquerda. Diante da ausência de Busquets, usou até a braçadeira de capitão nas primeiras partidas da Euro 2020. Não era a largada mais efetiva da Espanha, longe disso. O camisa 18, ainda assim, era um dos melhores da equipe. Sua influência no controle de jogo da Roja era evidente e muitas das melhores oportunidades da equipe dependiam da bola esticada na esquerda. Faltava os companheiros colaborarem, diante da quantidade de lances gerados pelo ala.

Quando Alba apareceu menos, diante da Eslováquia, a Espanha apresentou um repertório maior. O lateral não foi necessário para a goleada que confirmou a classificação. Até por isso, Luis Enrique pareceu se sentir mais confortável para sacar o camisa 18 diante da Croácia. Porém, Gayà se machucou e o veterano entrou em campo no final do segundo tempo. Não evitaria o empate croata, mas faria uma boa prorrogação para auxiliar sua equipe a seguir em frente na Euro. E seria a opção diante da Suíça, sem que Gayà estivesse em condições.

Alba participou do gol da Espanha, é verdade, na batida que Denis Zakaria desviou contra as próprias redes. E se o lance de sorte ofereceu mais tranquilidade para a Roja, a importância do lateral esquerdo no jogo seria muito maior do que isso. As melhores jogadas dos espanhóis passaram por seus pés. Muitas vezes o time rodava a bola até o lado esquerdo, para que o veterano arranjasse um cruzamento ou algum passe diferente. Em alguns momentos, poderia dar certo. Não apenas porque Alba encontrou os espaços, mas também porque colocou seus companheiros em condição de finalizar. Eles só não acertaram.

Ao longo do jogo, Alba não precisou aparecer muito defensivamente. Ganhou passe livre para atacar e estava sempre lá na frente. O camisa 18 completou 100 passes na partida, com 93% de acerto. E criou ocasiões para os companheiros, com quatro assistências para que os atacantes falhassem na hora de finalizar. Sobretudo na prorrogação, quando os espanhóis tentaram se valer da vantagem numérica após a expulsão de Remo Freuler, o jogo passava pela canhota de Alba. Só que a classificação dependeu outra vez da sorte, assim como da competência de Unai Simón para defender dois pênaltis adversários.

A Espanha possui um elenco homogêneo, mas não necessariamente grandes protagonistas. Dos raros medalhões que foram mantidos por Luis Enrique, Jordi Alba é um dos que merecem maior respeito, por sua história e por seu talento. Acaba se tornando uma face principal nas pretensões de um time um tanto quanto desacreditado, mas que alcança as semifinais. Contra um adversário de peso na próxima partida, essa experiência e essa capacidade do camisa 18 serão ainda mais necessárias.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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