Eurocopa

A outra vez que Dinamarca e Gales se enfrentaram por um lugar entre os oito melhores da Eurocopa

As duas seleções já disputaram uma vaga na fase final em 1988, com a vitória em casa num jogo pulsante decidindo à Dinamarca

Dinamarca e Gales fazem um confronto inédito pela fase final da Eurocopa neste sábado, mas não é a primeira vez que as duas seleções se pegam por um lugar entre os oito melhores do torneio continental. Em tempos mais restritos da Euro, afinal, as duas equipes já foram adversárias diretas nas eliminatórias pela classificação à fase final – que então reunia somente oito concorrentes. E não eram tempos quaisquer, já que tanto dinamarqueses quanto galeses contavam com gerações históricas. Se de um lado Sepp Piontek treinava a famosa “Dinamáquina” que acabara de causar impacto na Copa do Mundo de 1986, do outro Mike England dirigia diversos jogadores galeses de sucesso nas grandes ligas, em especial no Campeonato Inglês. Cada equipe levou a melhor nos jogos em casa, mas os dinamarqueses acabaram prevalecendo e carimbaram o passaporte rumo à Euro 1988.

Até aqueles embates, Dinamarca e Gales tinham se enfrentado apenas duas vezes na história. As duas equipes compartilharam o mesmo grupo nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1966. Não fazia tanto tempo assim que os galeses haviam disputado o Mundial pela última vez, em 1958, e tentavam retornar à fase decisiva da competição. Curiosamente, seu capitão naquele momento era exatamente Mike England, que assumiria o comando da equipe nacional duas décadas depois. O então zagueiro do Blackburn ainda viveria uma passagem expressiva com a camisa do Tottenham no intervalo. Já os dinamarqueses tinham participado da Euro 1964 pouco antes, sua primeira competição internacional, se valendo do chaveamento mais fácil nas etapas classificatórias. Seu craque era Ole Madsen, indicado à Bola de Ouro por seu papel na Eurocopa.

Naquelas Eliminatórias, porém, nenhuma das duas equipes conseguiu ter sucesso. Num grupo que via a União Soviética como favoritíssima, dinamarqueses e galeses ficaram distantes da classificação ao Mundial da Inglaterra. Cada equipe venceu uma partida no duelo. A Dinamarca cumpriu seu dever em Copenhague, com gol de Madsen para garantir o 1 a 0 dentro do Idraetsparken. Já em Wrexham, o reencontro foi mais animado e contou com triunfo de Gales por 4 a 2. Roy Vernon foi o destaque de sua equipe, ao anotar dois gols. De qualquer maneira, aquele embate serviu apenas para que os times cumprissem tabela, já que os soviéticos tinham se confirmado na Copa de 1966.

Seriam 22 anos para que as duas seleções se reencontrassem dentro de campo, pelas eliminatórias da Euro 1988. E muita coisa rolou no período. Enquanto a Dinamarca experimentou sua verdadeira revolução no futebol, Gales não conseguia fazer com que seus principais talentos levassem o país de volta às competições internacionais.

As frustrações de Gales

Gales chegou a se aproximar da Copa do Mundo e da Eurocopa algumas vezes neste intervalo de duas décadas, mas sem consumar o feito. A Euro 1976 seria um dos maiores lamentos à equipe, que liderou seu grupo no qualificatório, superando adversárias mais tarimbadas como Hungria e Áustria. O problema é que, naquele momento, apenas quatro times participavam da fase final da Euro. Assim, os britânicos precisaram enfrentar a Iugoslávia em jogos de ida e volta, num duelo eliminatório prévio ao ‘Final Four’ da época. Depois da derrota por 2 a 0 em Zagreb, o empate por 1 a 1 em Cardiff seria insuficiente para os galeses, que viram os oponentes inclusive sediarem a fase final.

Os iugoslavos, aliás, seriam algozes também na caminhada à Euro 1984 – a outra oportunidade em que Gales chegou perto do torneio continental naquele ínterim. Os galeses arrancaram um sensacional empate por 4 a 4 em Podgorica contra a Iugoslávia e, em sua última partida, só precisavam vencer os balcânicos em Cardiff para carimbar o passaporte. O empate por 1 a 1, com um gol de Mehmed Bazdarevic a dez minutos do fim, parecia suficientemente frustrante. Mas seria pior, já que os britânicos ainda estavam na liderança quando a Iugoslávia enfrentou a Bulgária em seu último jogo. O empate prevaleceu até os 46 do segundo tempo e ia classificando Gales, até que Ljubomir Radanovic determinou o triunfo por 3 a 2 nos acréscimos e botou os iugoslavos na Eurocopa.

E não é que Gales vivesse uma sorte melhor em busca da Copa do Mundo. A campanha rumo ao Mundial de 1982 tinha escapado pelos dedos. Os britânicos dispararam nas primeiras cinco rodadas, com nove pontos conquistados de dez possíveis. A queda vertiginosa aconteceria na sequência, com derrotas nas visitas a Tchecoslováquia e União Soviética, além de um custoso empate diante da Islândia em Swansea. Na rodada final, os galeses até ocupavam a zona de classificação, mas dependiam de uma derrota da Tchecoslováquia em casa contra a já classificada União Soviética. Não aconteceu, com o empate por 1 a 1 permitindo que os tchecoslovacos ultrapassassem os galeses no saldo e fossem à Espanha.

Já rumo ao Mundial de 1986, Gales experimentou outra derrocada em que os pontos perdidos na derrota contra a Islândia na primeira rodada custaram caro. Apesar do tropeço, o time parecia se recuperar ao bater a Escócia no Hampden Park e ocupava a segunda colocação do grupo antes da rodada decisiva, o que poderia levar ao menos à repescagem. Todavia, os galeses foram ultrapassados pela Espanha, que derrotou a Islândia num resultado esperado em Sevilha, e só empataram em casa contra uma desfalcada Escócia, quando dependiam apenas de si para assegurar a vaga direta. O gol adversário no empate por 1 a 1 em Cardiff foi anotado aos 35 do segundo tempo, num pênalti convertido por Davie Cooper. Aquela partida ficaria marcada também pelo falecimento do técnico escocês Jock Stein, que sofreu um ataque cardíaco durante os minutos finais.

Mike England

Apesar das três frustrações consecutivas nos anos 1980, Mike England se sustentava à frente da seleção galesa naquele momento. Ainda havia confiança de que o treinador carismático pudesse conduzir os britânicos de volta a uma grande competição, considerando a geração talentosíssima que tinha em mãos. E não dava para negar que os britânicos ganharam casca nesse período.

Rumo às eliminatórias da Euro 1988, Gales reunia uma base fortíssima. Um dos clubes mais vitoriosos da Inglaterra no período, o Everton cedida o goleiro Neville Southall e o capitão Kevin Ratcliffe, que se colocavam como referências dos galeses, além de Pat van den Hauwe. Quem também vinha em alta era o meio-campista David Phillips, que vestia a camisa do Coventry City e seria protagonista na conquista da Copa da Inglaterra em 1986/87, com um excelente trabalho na organização dos celestes .

Kenny Jackett era outro nome conhecido no futebol inglês, um dos destaques na ascensão meteórica do Watford. Enquanto isso, Peter Nicholas surgia como um dos mais tarimbados do grupo na meia-cancha e defendia o Aberdeen. Do Manchester United ainda vinha o coringa Clayton Blackmore, que despontava na equipe nacional aos 22 anos. Gales concentrava seus convocados em clubes tradicionais do Campeonato Inglês, incluindo Robbie James (Leicester), Glyn Hodges (Newcastle) e Mark Aizlewood (Leeds), mesmo que a temporada de seus times não fosse a mais prolífica. E a seleção ainda precisava contar com Andy Jones municiando o ataque, enquanto defendia o Port Vale na terceirona local.

A maior dose de talento naquela geração galesa, de qualquer forma, estava na própria linha de frente – e em atividade no exterior. Ian Rush já tinha conquistado todos os títulos possíveis com o Liverpool no início de sua carreira e, aos 25 anos, experimentava sua aventura frustrada pela Juventus. Mark Hughes, por sua vez, tinha surgido como uma das grandes revelações do Manchester United e na época, aos 23 anos, também buscava emplacar no Barcelona. Mal aproveitado na Catalunha, deixaria o clube no meio daquela campanha para ser emprestado ao Bayern de Munique. Se os craques não viviam o melhor momento de suas trajetórias, pelo menos juntos deixavam claro o tamanho do potencial ao redor dos galeses.

A ascensão da Dinamarca

Se a força de Gales sempre esteve diretamente ligada à proximidade do Campeonato Inglês, com os times galeses integrando a pirâmide da liga vizinha, na Dinamarca foi preciso construir esse potencial. A Euro 1964 é um ponto fora da curva até ali, muito mais circunstancial do que parte de um processo. A ascensão do futebol dinamarquês aconteceu mesmo a partir dos anos 1970, com a adoção do profissionalismo na liga local e a captação de patrocinadores para investir no esporte. Com isso, o crescimento da tal Dinamáquina foi possível.

Não que a Dinamarca pudesse ser considerada como uma preferia da bola. O país conseguia ser um bom revelador de talentos mesmo em tempos amadores, com destaque à geração que tomou o Campeonato Italiano durante os anos 1950. De qualquer maneira, o impacto era mais pontual do que contínuo. A estruturação da liga local e da própria federação seria importante. Com isso, mais jogadores seriam revelados e também sairiam ao exterior para um intercâmbio. Já em 1979, os escandinavos escolheram um bom mentor a esse trabalho: o alemão Sepp Piontek, que passaria a moldar a seleção com um futebol vanguardista.

Os frutos da Dinamarca se tornaram visíveis antes mesmo que seus jogadores daquela geração despontassem como craques nas grandes ligas. O sinal de que algo grande viria ocorreu nas Eliminatórias para a Copa de 1982, quando os alvirrubros bateram a Itália, futura campeã mundial, por 3 a 1 em Copenhague. Ainda não brigaram pela classificação ao Mundial da Espanha, mas entrar de novo na rota das grandes competições seria apenas questão de tempo aos dinamarqueses.

A Euro 1984 reapresentou a Dinamarca para o mundo do futebol. Nas eliminatórias, a equipe já tinha protagonizado um feito e tanto ao despachar a Inglaterra, em chave que contava também com Grécia, Hungria e Luxemburgo. A vitória por 1 a 0 em Wembley, gol de Allan Simonsen, está entre os maiores momentos da história da seleção. Já na fase final, os dinamarqueses cumpriram bom papel. Após a derrota apertada para a anfitriã França na estreia, golearam depois a Iugoslávia por 5 a 0. Na decisão pela segunda vaga do grupo, contra uma Bélgica mais experiente, os alvirrubros alcançaram uma fantástica virada por 3 a 2 e avançaram às semifinais. Só então sucumbiram, eliminados nos pênaltis pela Espanha após o empate por 1 a 1.

Sepp Piontek (Foto: Imago / One Football)

Dois anos depois, a história se repetiu e a Dinamarca se classificou à inédita Copa do Mundo. O time de Sepp Piontek tinha a União Soviética como grande adversária no qualificatório, em grupo que ainda incluía a Suíça, a Irlanda e a Noruega. Garantir uma das duas vagas oferecidas na chave não foi problema, com a classificação selada em goleada por 4 a 1 sobre a Irlanda em Dublin. No Mundial do México, então, a Dinamáquina faria suas atuações mais célebres. Venceu Alemanha Ocidental e Escócia na fase de grupos, além de amassar o Uruguai por 6 a 1. Já nas oitavas, de novo a Espanha surgiu no caminho. E a goleada por 5 a 1 da Fúria seria bem mais impiedosa com os escandinavos, ainda que não anulasse o encantamento gerado por aquela geração dourada.

Para as Eliminatórias da Euro 1988, quase toda a espinha dorsal da Dinamarca atuava no exterior. A começar pelo capitão Morten Olsen, cérebro no miolo de zaga, que se aproximava das 100 partidas pela equipe nacional e se encaminhava ao fim da carreira numa forte equipe do Colônia. Também nos Bodes aparecia o atacante Flemming Povlsen, que estourava aos 20 anos de idade. O futebol francês tinha sua importância, reunindo o lateral John Sivebaek no Saint-Étienne e o meio-campista Soren Lerby no Monaco. Ambos, ainda assim, possuíam mais tarimba: Sivebaek havia deixado o Manchester United, enquanto Lerby jogara antes por Ajax e Bayern.

O contingente dividido por Bélgica e Holanda era fundamental. O PSV reunia Ivan Nielsen e Jan Heintze, antes de contratar o próprio Lerby às vésperas de conquistar a Copa dos Campeões de 1987/88. Também tinha Frank Arnesen, uma das figuras principais da seleção, que precisaria se aposentar da equipe nacional em 1987 por conta das lesões. No país vizinho, Per Frimann defendia o Anderlecht. E se Sivebaek tinha deixado o Manchester United, o Jesper Olsen se mantinha em Old Trafford. Vale citar ainda o contingente do próprio Campeonato Dinamarquês, com o goleiro Troels Rasmussen defendendo a meta do AFG Aarhus e o veterano Jens Jorn Bertelsen vivendo o fim da carreira no Esbjerg. Naquele momento também surgia o meio-campista John Jensen, que seria herói na conquista da Euro 1992.

A Itália reunia os maiores craques do mundo na época. E de lá vinham os dois principais jogadores da Dinamarca. A grande figura da companhia era o atacante Preben Elkjaer, que seguia vestindo a camisa do Verona. Referência na Copa de 1986, também já havia conquistado o Scudetto com os gialloblù numa surpreendente campanha. Na Juventus, brilhava Michael Laudrup, visto como o futuro do clube após a aposentadoria de Michel Platini. O meio-campista tinha apenas 23 anos, mas registrava 40 jogos com a seleção principal e também havia sido uma das sensações no Mundial de 1986. Vale citar ainda o meio-campista Klaus Berggreen, que atuava no Torino, após passagens por Pisa e Roma nos anos anteriores. No papel e até mesmo por seus feitos anteriores, a Dinamarca já surgia como favorita em busca da classificação.

Gales sai em vantagem

O Grupo 6 das Eliminatórias da Euro 1988 contava com certo equilíbrio, ainda que Dinamarca e Gales parecessem mais prontos para brigar pela classificação. A equipe mais tradicional da chave era a Tchecoslováquia, que atravessava um período de entressafra após o ocaso da geração campeã na Euro 1976. O lendário Josef Masopust era o treinador numa equipe que até trazia nomes que se destacariam na Copa de 1990 – como Tomás Skuhravy, Jozef Chovanec e Miroslav Kadlec. Já a surpresa ficaria por conta da Finlândia, que surfaria no bom momento de seus clubes, com Martti Kuusela no comando.

A campanha no Grupo 6 começaria favorável à Dinamarca. Os três principais concorrentes emendavam empates entre si. O fiel da balança eram os duelos contra a Finlândia, mas apenas os dinamarqueses venceram os oponentes nos dois confrontos. Gales não passaria do empate por 1 a 1 na visita a Helsinque e a Tchecoslováquia amargou uma pesada derrota por 3 a 0 no Estádio Olímpico da capital finlandesa. Naquele mesmo dia em que os tchecoslovacos pareciam perder fôlego, aconteceu o primeiro confronto direto entre galeses e dinamarqueses.

A Dinamarca entrou na rodada com seis pontos, dois a mais que Gales, e por isso o triunfo em Cardiff seria tão importante aos britânicos. Mike England tinha uma ausência sensível em seu ataque para o embate no Ninian Park, sem Ian Rush. Porém, as outras estrelas estavam presentes, com Mark Hughes dando qualidade à linha de frente, Neville Southall na meta e Kevin Ratcliffe usando a braçadeira de capitão. Aquele resultado seria vital para manter as esperanças dos galeses na competição, até porque tinham uma partida a menos que os dinamarqueses naquela altura.

Já a Dinamarca vinha com um impasse sobre a utilização de Laudrup. O craque acabara de se recuperar de uma lesão e a Juventus manifestou sua preocupação de que o armador se contundisse com a seleção. Piontek não seria nada polido ao discutir o tema: “Não posso prometer que ele não sofrerá outra contusão. Os galeses são muito fortes. Se estão preocupados com um nariz quebrado ou algo assim, talvez devessem colocá-lo numa redoma de vidro no museu e dizer ‘esse é Michael Laudrup, ele foi um jogador de futebol'”, afirmou o treinador, ao The Times. Apesar disso, Laudrup entrou em campo. A forte equipe alvirrubra ainda tinha Morten Olsen, Soren Lerby e Preben Elkjaer entre suas estrelas na visita a Cardiff.

Diante de 20 mil torcedores no Ninian Park, Gales cumpriu sua missão e venceu por 1 a 0. O gol saiu logo aos 19 minutos, em grande jogada de Mark Hughes. O camisa 10 iniciou o lance com uma linda enfiada na esquerda e, depois da trama que rendeu uma bola no travessão, o próprio Hughes estava dentro da área para completar o rebote. A Dinamarca não conseguiu reagir e, pior, viu uma rusga pintar em seus vestiários. Piontek resolveu tirar Michael Laudrup logo no intervalo, mandando a campo John Jensen, e o craque teria ficado furioso com a decisão do comandante. Ao final da partida, a liderança do Grupo 6 era dividida por galeses e dinamarqueses, ambos com seis pontos, um a mais que os tchecoslovacos – enquanto os finlandeses, com três, não tinham mais chances.

A Dinamarca dá o troco

O reencontro de Dinamarca e Gales aconteceu pouco mais de um mês depois, em Copenhague. Seria a última partida dos dinamarqueses nas eliminatórias da Euro 1988, enquanto os galeses ainda teriam a visita à Tchecoslováquia no último encontro. Um empate no Estádio Idraetsparken parecia um excelente negócio aos britânicos, considerando que poderiam atuar também pela igualdade em Praga. A derrota, de qualquer maneira, poderia não ser tão custosa pelo saldo de gols inferior dos dinamarqueses.

Para a Dinamarca, era vencer ou vencer. Piontek seguia contando com a força de seu excelente elenco. Não abriria mão de Michael Laudrup no 11 inicial, assim como apostaria em John Jensen entre os titulares. Também contaria com Morten Olsen, Soren Lerby e Preben Elkjaer formando a espinha dorsal, além de Jesper Olsen, ausente em Cardiff. Do outro lado, Gales tinha como grande notícia o retorno de Ian Rush. Seria a estrela da companhia ao lado de Mark Hughes. O problema era mesmo no gol, sem contar com Southall. Quem assumiu a meta para a ocasião foi Eddie Niedzwiecki, então no Chelsea. O arqueiro tinha sido eleito o melhor jogador dos Blues em 1985/86, embora tenha perdido a posição na temporada seguinte.

Mais de 44 mil torcedores lotaram as arquibancadas do Idraetsparken. O clima nas arquibancadas era intenso, com centenas de bandeiras espalhadas e uma torcida inflamada. O barulho ensurdecedor poderia atordoar os galeses. E a execução do hino errado durante a entrada das equipes incomodou os visitantes, a ponto de Ian Rush gesticular reclamando para o maestro da banda que tocava a canção no gramado. Aquele seria só um detalhe na noite infeliz de Gales.

A Dinamarca precisou de pouco tempo para botar pressão. Teve um gol anulado logo nos primeiros minutos e também exigiria boas defesas do goleiro Niedzwiecki. Gales teve dificuldades de chegar ao ataque e mal produziu ao longo do primeiro tempo. Ainda assim, o empate por 0 a 0 parecia um excelente negócio aos visitantes, olhando para a situação na tabela.

Piontek aumentou o poder ofensivo no segundo tempo com a entrada de Flemming Povlsen na volta dos vestiários. E a mudança faria a diferença para determinar a vitória por 1 a 0 logo aos quatro minutos da etapa final. A jogada começou com Morten Olsen fazendo fila no campo de defesa, antes de mandar uma trivela para Per Frimann na direita. Povlsen passou em diagonal e recebeu o passe em profundidade, livre para chegar à linha de fundo. O cruzamento rasteiro não foi bom, mas a zaga se enroscou com a bola. A sobra ficou viva na área e Elkjaer fuzilou às redes. Uma erupção aconteceu nas arquibancadas.

Gales não teria muitas forças à reação. Na verdade, deu até sorte de não tomar o segundo gol. Na reta final da partida, a Dinamarca ganhou um pênalti e Elkjaer cobrou, mas isolou a bola bem longe. O jogo ainda teria um princípio de confusão por uma garrafa de plástico atirada pela torcida que pegou no ombro do árbitro, mas sem maiores consequências. Não era nada que atrapalhasse o resultado positivo dos escandinavos. O apito final seria seguido por uma comemoração massiva nas arquibancadas, com bandeiras tremulando e serpentinas atiradas. A equipe se aproximava da Eurocopa, embora não dependesse de si para a classificação.

Com oito pontos, a Dinamarca eliminava a Tchecoslováquia, mas precisava torcer pela equipe de Masopust na partida final. Os tchecoslovacos receberiam Gales em casa e um triunfo dos visitantes poderia classificá-los. Com dois pontos a menos, os britânicos ainda levariam a melhor sobre os dinamarqueses com uma vitória simples e tomariam a liderança no saldo de gols. Porém, mesmo eliminados, os anfitriões não permitiriam a festa galesa em Praga e infligiriam mais uma frustração à longa lista de desilusões sob as ordens de Mike England.

Gales entrou em campo com Hughes, Rush, Southall, Ratcliffe e todos os destaques. Perdeu por 2 a 0. O primeiro gol seria um enorme vacilo da zaga, aos 32 minutos, que Ivo Knoflícek não perdoou. Já o golpe de misericórdia da Tchecoslováquia aconteceu já aos 45 do segundo tempo, numa cobrança de falta de Michal Bilek que deixou o mal colocado Southall estático. Com isso, os galeses sequer terminariam na segunda colocação do Grupo 6, ultrapassados pelos tchecoslovacos. De casa, a Dinamarca pôde comemorar seu retorno à Eurocopa depois de quatro anos.

Uma história curiosa daquele dia envolveu Mark Hughes. O camisa 10 disputou duas partidas na mesma data, por clube e seleção. Ao final da derrota em Praga, o craque pegou um avião particular direto a Munique. Na mesma noite, o Bayern enfrentava o Borussia Mönchengladbach pela Copa da Alemanha. Causou espanto a aparição de Hughes à beira do campo para entrar no jogo durante o segundo tempo, já que ninguém sabia do plano bolado pelo diretor Uli Hoeness para contar com o galês. Os bávaros perdiam o duelo naquele momento, mas buscaram o empate e venceram por 3 a 2 na prorrogação. Ao menos, Hughes riu por último depois da decepção com a seleção.

A Dinamarca seria apenas figurante na Euro 1988. Mesmo com a ascensão de jogadores como Peter Schmeichel e Kim Vilfort para o torneio, os alvirrubros perderam os três jogos num grupo no qual enfrentaram Espanha, Itália e Alemanha Ocidental. Piontek também não conseguiria classificar a equipe para a Copa do Mundo de 1990 e deixaria o cargo. Com a geração da Dinamáquina envelhecida e as rusgas de Laudrup, o técnico Richard Moller Nielsen conseguiu um milagre com o time desacreditado na Euro 1992. Já Gales não deixaria seu calvário tão cedo. Ainda viveria outros lamentos, como nas Eliminatórias para a Copa de 1994. Foi apenas em 2016 que os britânicos voltaram às competições internacionais. E, nesta Euro 2020, tentarão uma revanche contra a Dinamarca, 34 anos depois daquela eliminação no Grupo 6 de 1988.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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