Eurocopa

A Itália ganhou a Euro com um goleiro que decide e Donnarumma promete um futuro ainda mais brilhante pela frente

Donnarumma salvou contra Bélgica, pegou pênalti contra a Espanha e garantiu a comemoração contra a Inglaterra

Onze metros e um chute podem marcar uma carreira inteira. Enfrentar uma disputa de pênaltis em final de campeonato é encarar o risco fracasso iminente. Controlar os nervos, esquecer do mundo ao redor, focar no trabalho. O peso nas costas de cada batedor, entretanto, é o oposto da leveza que permite ao goleiro saltar mais. Aquele que não pode errar durante os 120 minutos acaba perdoado de seus pecados e se prontifica à santificação. O caminho se abre para ser herói. E foi assim que Gianluigi Donnarumma se apresentou duas vezes nesta Eurocopa. Seria decisivo contra a Espanha, seria ainda mais decisivo contra a Inglaterra. Suas defesas permitiram que os italianos comemorassem a reconquista da Eurocopa depois de 53 anos. Num panteão seletíssimo de arqueiros campeões pela Azzurra, Gigio se soma a lendas como Dino Zoff e Gianluigi Buffon – e com uma longa estrada pela frente, para fazer ainda mais.

Dar o prêmio de melhor jogador da Eurocopa para Donnarumma é discutível, considerando que ele não foi exatamente o melhor da posição com bola rolando ao longo do torneio – não por falhas, mas por não ser tão exigido. Sua melhor atuação neste sentido aconteceu contra a Bélgica, em que segurou o placar até os companheiros abrirem o triunfo. Porém, não se nega o peso decisivo de Donnarumma. Na hora certa, ele preponderou diante da Espanha e também da Inglaterra. Pegou o mesmo número de penais de Jordan Pickford. Mas, no fim das contas, defendeu o último e possibilitou uma vitória para a eternidade da seleção italiana.

Aos 22 anos, Donnarumma se coloca entre os melhores goleiros do mundo há um tempo impressionante para sua idade. E o próprio desempenho na Eurocopa salientou seu talento. Tem pontos a melhorar, é verdade, com saídas pelo alto que por vezes causaram calafrios. Sob os paus, ainda assim, o jovem é um gigante. Possui uma envergadura excelente, é explosivo, é ágil, é firme. E é capaz de operar milagres, como aconteceu diante de Kevin de Bruyne contra a Bélgica. Mais importante, intimida os adversários, como aconteceu nesta decisão de Eurocopa.

Donnarumma pouco trabalharia ao longo dos 120 minutos em Wembley, por méritos de sua defesa e também por deméritos da Inglaterra. Não teve o que fazer no lance do gol de Luke Shaw e, quando houve a mínima ameaça no segundo tempo, mandou para fora a cabeçada de John Stones. Mesmo os cruzamentos ingleses não forçariam tanto as saídas do arqueiro pelo alto. Do outro lado, Pickford se viu muito mais testado e teria uma influência maior para que o empate prevalecesse. Mas, no fim das contas, qualquer um poderia ser herói na disputa por pênaltis.

A Inglaterra perdeu seus pênaltis com um trio de garotos. A escolha para botá-los na marca da cal é questionável, não apenas pela inexperiência, mas também por estarem frios. A Itália, contudo, se valeu de seu próprio novato. Donnarumma não era muito mais velho que seus adversários, mas carrega um currículo invejável para quem tem apenas 22 anos. E seria bem mais difícil para os batedores encararem um gigante como ele nos 11 metros. Até mesmo Harry Kane teve dificuldades para tirar do alcance do arqueiro. Sancho e Saka não conseguiram – com o detalhe que o primeiro buscou o canto, mas parou no ótimo voo do italiano. Em sua primeira competição internacional, Gigio garantiu o troféu.

Donnarumma se cercou de grandes professores para decolar em sua carreira. Foi importante a convivência com Buffon em seu início pela seleção, durante as Eliminatórias para a Copa de 2018. O desfecho seria o mais decepcionante possível, mas Gigio pôde dividir treinos com uma lenda e certamente aprendeu um bocado. Gigi parecia disposto a botar o garoto sob as suas asas e sempre o tratou com um carinho imenso, preparando-o como seu herdeiro. Já no Milan, vale lembrar, o treinador de goleiros é outro ídolo do clube: Dida. Certamente deve ter passado seu conhecimento ao longo desse ano de vivência, até pela especialidade nos pênaltis. O pupilo fez jus ao mestre.

Uma das histórias da próxima temporada será o destino de Donnarumma. O goleiro não quis renovar seu contrato com o Milan e a Eurocopa o valoriza ao máximo. A princípio, o Paris Saint-Germain seria o destino provável do italiano. Entretanto, talvez o papel decisivo com a seleção eleve sua pedida. Quem o contratar sabe que terá um goleiraço por muito tempo e que pode desequilibrar em grandes momentos. A primeira conquista de sua carreira é enorme.

Sorte da Itália é que Donnarumma não pode mudar de pátria. A Azzurra contará com esse goleiraço muito provavelmente por mais de uma década. Gigio é jogador para disputar pelo menos mais três Eurocopas, pelo menos umas três Copas do Mundo. A quem teve Buffon presente por praticamente 20 anos como titular, é uma dádiva tremenda ver essa passagem de bastão tão segura. Ao final da partida em Wembley, o próprio capitão Giorgio Chiellini comentava como a sensação de segurança é parecida aos zagueiros. “Tenho sorte porque joguei com Buffon e agora jogo com Donnarumma. É o mesmo!”, comentaria o veterano.

Donnarumma é o quinto goleiro a ser campeão de um grande torneio pela Itália como titular. Buffon levou a Copa de 2006, Dino Zoff estava na Euro 1968 antes de brilhar também no Mundial de 1982. O capitão Gianpiero Combi levou 1934, até Aldo Olivieri o substituí-lo em 1938. E o detalhe é que, de todos esses, Donnarumma foi quem conseguiu seu feito mais jovem. Não dá para cravar que o camisa 1 colecionará títulos. Porém, diante daquilo que já fez pelo Milan ou pela seleção nos últimos seis anos e pelo potencial, o futuro tende a ser brilhante para Gigio. Se não for, seu lugar nos livros de história ele já garantiu.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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