Eurocopa

Donnarumma não fez a atuação perfeita, mas teve papel decisivo e confirma seu posto como digno herdeiro da meta italiana

Donnarumma realizou defesas importantes nas duas últimas vitórias e ajudaria na classificação da Itália nos pênaltis

Historicamente, a meta da seleção italiana sempre esteve muito bem guardada. A fama do Calcio como uma das melhores escolas de goleiros do mundo é justificada e os torcedores não tiveram qualquer preocupação com a posição durante as duas últimas décadas. A Azzurra, afinal, tinha o luxo de contar com um dos maiores arqueiros da história e viu Gianluigi Buffon se tornar onipresente nas competições internacionais a partir do Mundial de 2002. Quando Gigi se aproximava dos 40 anos, sua sucessão virou assunto de debate. Porém, os italianos logo ganharam a tranquilidade com o surgimento de outro talento muito precoce sob os paus. Gianluigi Donnarumma é um herdeiro digno nesta linhagem e figura entre os melhores da posição há alguns anos. Seria um personagem essencial para que a Itália chegasse à decisão da Euro 2020. Mesmo sem fazer a atuação perfeita, com algumas saídas arriscadas, acabaria como herói nos pênaltis.

É uma pena que Gigi e Gigio não tenham dividido o elenco da seleção italiana rumo a uma competição internacional. Donnarumma explodiu no Milan exatamente na temporada anterior à Euro 2016. Embora já demonstrasse uma qualidade absurda para a idade, completando apenas 17 anos durante aquela temporada, não deu tempo para que o prodígio fosse chamado por Antonio Conte ao torneio continental. Porém, sua primeira convocação à seleção principal ocorreria logo em setembro de 2016. Entraria no segundo tempo de um amistoso contra a França, com a simbólica missão de substituir Buffon.

Durante um ano, Donnarumma pôde conviver com Buffon nos treinos da seleção italiana. Havia um carinho mútuo entre os dois. Buffon deixava claro como o novato poderia ser o seu sucessor na meta da Azzurra durante muito tempo e o novato não escondia a idolatria sobre o velho ídolo, por mais que tenha nascido numa época em que a lenda tinha até Copa do Mundo no currículo. Donnarumma ganhou minutos apenas em amistosos, acompanhando do banco o veterano na campanha das Eliminatórias para a Copa de 2018. Seria Buffon a se frustrar na repescagem contra a Suécia, que encerrou o seu sonho de disputar o sexto Mundial da carreira.

Buffon se despediu da Itália sem a sua última Copa do Mundo. E não havia muitas questões sobre quem assumiria a camisa 1 com a despedida da lenda. Salvatore Sirigu e Mattia Perín até disputaram algumas partidas, mas o titular seria mesmo Donnarumma. Figurou nos jogos mais importantes do ciclo com Roberto Mancini e se ausentou nas Eliminatórias apenas quando esteve lesionado. Ainda que a péssima gestão de sua carreira tenha gerado entraves no Milan, isso não parecia afetar o moral de Gigio na Azzurra. Virou um dos esteios na sequência invicta de Roberto Mancini.

Donnarumma realizou uma temporada excepcional em 2020/21, a melhor de sua trajetória – mesmo que raros tenham sido seus momentos abaixo do ótimo nestes seis anos como titular do Milan. Acabou a Serie A como o melhor goleiro do campeonato e um dos grandes responsáveis pelo retorno dos rossoneri à Champions League, independentemente da queda de rendimento da equipe durante o segundo turno. De novo, a idolatria não era questão de sua forma. O empecilho à adoração se chama Mino Raiola, o empresário do arqueiro. De qualquer maneira, Gigio também tomou sua decisão própria de não renovar com os milanistas, o que não agradou em nada a sua torcida.

Um desafio para Donnarumma durante a Euro 2020 seria se concentrar na seleção enquanto permanece livre no mercado e procura um novo clube. Seu histórico com a Azzurra, ainda assim, depunha a seu favor. Em 25 partidas pela equipe nacional antes da Eurocopa, o goleiro sofreu apenas duas derrotas. Não tomou mais de um gol num mesmo jogo nenhuma vez e em 15 desses compromissos ficou com sua meta se ser vazada. Transmitir segurança também é uma característica importante a um goleiro e, apesar da falta de experiência, esse não parecia ser um problema para Gigio.

A fase de grupos mal viu Donnarumma trabalhar. O domínio da Itália não permitiu que os adversários ameaçassem muito sua meta. Começaria a aparecer especialmente diante da Áustria, mas sem evitar seu primeiro gol sofrido no torneio. Antes disso, porém, realizaria uma defesaça para buscar no cantinho uma batida colocada de Louis Schaub. Sua importância aumentaria nas quartas de final contra a Bélgica. Se a Azzurra conseguiu abrir vantagem no primeiro tempo, Gigio teria sua participação nisso. Quando o placar estava zerado, seriam dois milagres contra os craques adversários. Pegou um lindo arremate de Kevin de Bruyne e também parou Romelu Lukaku. Apesar da provocação do centroavante no gol de pênalti, o arqueiro riu por último ao final do duelo.

Já nesta terça, Donnarumma realizou duas defesas importantes contra a Espanha. Numa partida em que a Roja buscou muito mais o ataque, o goleiro precisou trabalhar na resistência italiana. Durante o primeiro tempo, espalmou uma bola difícil de Dani Olmo, em chute dentro da área. Na segunda etapa, parou um chute de longe de Mikel Oyarzabal sem problemas, mas não evitaria o tento de Morata. Já na prorrogação, defendeu uma falta venenosa de Olmo, em bola na qual ainda dependeu da zaga para afastar de vez. Não foi a noite mais tranquila do camisa 21 em suas saídas pelo alto e os companheiros evitaram sustos maiores. Mas nada que tenha comprometido realmente a situação da Azzurra.

Por fim, os pênaltis consagrariam um dos goleiros. Coube a Donnarumma sair como herói, depois que Unai Simón tinha defendido a cobrança de Manuel Locatelli. O italiano deu sorte quando Dani Olmo isolou e depois cumpriu sua missão ao rebater o tiro mal batido de Morata. Se o desempenho nos 11 metros era exatamente o único questionamento sobre Buffon ao longo de sua carreira, o seu sucessor acaba avançando com a missão cumprida na marca da cal. Poderá disputar o título que Gigi não levou, passando perto com o vice em 2012 diante da própria Espanha.

“Com a força deste grupo, conseguimos chegar na final. É impossível descrever o que estou sentindo, quero aproveitar essa vitória com meus companheiros e dedicar a Spinazzola, que nos mandou um vídeo antes do jogo”, declarou Donnarumma, na saída de campo. “O time foi fantástico. Demos nosso máximo e agora precisamos de mais um passo para fazer nosso sonho virar realidade”.

“A sensação é indescritível. Fiquei tranquilo nos pênaltis, porque sabia que poderia ajudar a equipe. Estudamos tudo com os treinadores de goleiro e também há instinto. Sirigu falou comigo antes dos pênaltis, mas não posso dizer o que ele me contou. É um ótimo goleiro e uma grande pessoa”, complementou.

Aos 22 anos, espanta a rodagem acumulada por Donnarumma. Já são 31 jogos pela seleção, com o 32° a caminho. E pela Serie A passou a marca de 200 partida, com 251 aparições no total pelo Milan. Se há dúvidas sobre sua progressão, está mais por aquilo que decide fora de campo do que necessariamente em campo – com o rumo incerto para a próxima temporada, mais próximo do Paris Saint-Germain. Talento, entretanto, nunca foi problema ao goleiro prodígio. A seleção nota como sua meta está em boas mãos e o camisa 21, em sua primeira grande competição, já compõe uma formação histórica – que poderá ser ainda mais marcante com a taça nas mãos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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