Eurocopa

A imagem do dia na Euro: Pinturas que marcam uma geração

Numa seleção tcheca repleta de gols memoráveis em Eurocopas, Schick anota o mais belo deles

Assistir à Eurocopa é um exercício de alimentar o fanboy que existe dentro de cada um de nós. Todo mundo tem um jogo favorito, uma seleção mais querida, um espaço no tempo que pertence à nossa inocência e justa nostalgia. Minhas primeiras lembranças são da Euro 2000, aquela decidida num golaço de David Trezeguet contra a Itália, e que também teve pinturas memoráveis como as de Nuno Gomes, contra a França, a de Luís Figo contra a Inglaterra. Bons tempos. E a Euro de 2004? Nenhum jogo ruim! Ao menos é assim que quero me lembrar.

Os mais velhos, que acompanharam a edição de 1996, em solo inglês, certamente se lembram do gol de cobertura de Karel Poborsky, pela República Tcheca, contra Portugal. Voltando um pouco mais no tempo, outro momento que jamais envelhece aos olhos: Marco Van Basten, em 1988, de voleio. Para não dizer que não falei das flores: a cavadinha de Antonin Panenka para garantir o título tchecoslovaco em 1976.

Falo de alguns tchecos porque tenho certeza que os aqui citados, Poborsky e Panenka, não devem se importar em ceder seus lugares na história como os maiores artistas em um lance único. O que vimos hoje, nos pés de Patrik Schick, pode ter sido o grande gol da República Tcheca na história da Euro. Pode ter sido, não. Foi. Vamos ser justos.

Schick já tinha marcado de cabeça o primeiro dos tchecos contra a Escócia, no Hampden Park, em Glasgow. Nada de ordinário, um gol normal, apesar da pressão adversária durante toda a partida. O que esperávamos, na segunda etapa, era uma resposta dos donos da casa, empurrados pela torcida. No entanto, a galera presente acabou testemunhando uma façanha que virou recorde na Euro. Quem contava com uma reviravolta da Escócia acabou saboreando uma cerveja quente e amarga nas bancadas.

Em um contragolpe fatal, a República Tcheca marretou um contragolpe sem precisar chegar na área escocesa. Poucos centímetros à frente da linha de meio-campo, Schick emendou de esquerda uma bomba (com uma curva fenomenal) para superar o goleirão David Marshall, adiantado desde a ação ofensiva de sua equipe, segundos antes. Marshall bem que correu e tentou saltar, mas virou um simples coadjuvante e caiu desolado nas redes. Pura poesia, da finalização até o cruzar da linha.

Não vou negar, fui fanboy do mesmo Poborsky e de Tomas Rosicky, Pavel Nedved, Milan Baros e Jan Koller naquela já longínqua Euro 2004. Lamentei aquela que foi uma das grandes injustiças da minha adolescência quando a Grécia avançou para a final diante de Portugal. Dito isso, acrescento que não sou lá um admirador de Schick por ele não ter atendido às expectativas criadas em torno dele nos últimos anos.

Por outro lado, existem poucas coisas tão redentoras quanto um gol icônico. Caminhamos para que daqui a uns bons anos a história relembre aquele gol de Trezeguet, o de Figo, o da comemoração bizarra de Balotelli, o do Poborsky… e o de Schick, que caprichou em seu lance mais incrível. É seguro dizer que ele jamais fará algo parecido. Se fizer, me comprometo a voltar neste mesmo texto para atualizar com tal momento, assumindo que me enganei. Vamos ver, Patrik. Vamos ver.

Mostrar mais

Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo