Eurocopa

A excelente estreia na Euro 2020 ajudou a exaltar um pouco mais a grandeza de Skriniar ao futebol da Eslováquia

Além de liderar a boa atuação defensiva de sua equipe, o zagueiro ainda marcou o gol da vitória

De 2007 a 2018, apenas dois jogadores receberam o prêmio de melhor do ano na Eslováquia. Marek Hamsik levou oito troféus e Martin Skrtel ficou com os outros quatro, num duopólio que basicamente correspondia ao protagonismo na seleção. Os dois eram os principais representantes eslovacos nas grandes ligas europeias e também as duas principais referências da equipe nacional. Tal cenário só mudou em 2019, quando Milan Skriniar rompeu a sequência dos dois astros. A premiação ao zagueiro correspondia à queda dos dois veteranos, mas também representava sua ascensão. Skriniar, hoje, é o maior símbolo do futebol da Eslováquia em alto nível. E aproveitaria a estreia na Euro 2020 para demarcar essa importância, decisivo na vitória por 2 a 1 sobre a Polônia.

A Euro 2020 não é a primeira competição internacional de Skriniar. O zagueiro participou da Euro 2016, quando tinha apenas 21 anos e havia acabado de se transferir do Zilina à Sampdoria. O novato seria apenas um mero coadjuvante de sua equipe na França. Chegou à Eurocopa com apenas duas partidas disputadas pela seleção principal e, depois de esquentar o banco durante a fase de grupos, ganhou uma chance como titular nas oitavas de final contra a Alemanha. Não evitaria muito o estrago, atuando como volante na derrota por 3 a 0. Aquela aparição, todavia, serviria de cartão de visitas ao prodígio.

Depois de seis meses na Sampdoria nos quais pouco jogou, Skriniar virou titular do clube na temporada 2016/17. Acabou se tornando uma das principais revelações da Serie A entre os zagueiros e se transferiu à Internazionale. Já em Milão, o eslovaco se estabeleceu como um dos melhores defensores do Calcio, num campeonato que exige tanto dos jogadores da sua posição. Skriniar combina uma capacidade física enorme com também uma ótima leitura de jogo. Não à toa, vai muito bem nos combates e nas divididas. A noção de espaço o permite dominar a área, assim como sair jogando limpo nas transições. Nem precisou se adaptar para virar um dos principais jogadores da Inter.

Lá se vão quatro temporadas em que Skriniar brilha na zaga da Inter. Algumas temporadas foram melhores que outras, mas o beque manteve um bom nível técnico e preservou sua posição como titular dos nerazzurri. O ponto alto veio exatamente em 2020/21, deixando para trás alguns questionamentos do ano anterior, se encaixando no sistema de Antonio Conte e auxiliando na reconquista do Scudetto pelos interistas após 11 anos. O eslovaco formou uma trinca muito segura ao lado de Alessandro Bastoni e Stefan de Vrij. Não à toa, pintou em algumas seleções de melhores do campeonato. Chegou em alta na Eurocopa, para ser exatamente o protagonista da Eslováquia – uma equipe que, sem grandes destaques, dependeria da forma do beque para superar as expectativas.

Desde 2016, Skriniar virou um nome constante na seleção da Eslováquia – de início, até aproveitado mais como volante. O ponto alto, de qualquer forma, seria a classificação à Euro 2020. Depois de ficarem na terceira posição das eliminatórias, os eslovacos precisaram pegar um atalho através da repescagem da Liga das Nações. Com COVID-19, Skriniar perdeu as semifinais contra a Irlanda. Mas voltou a tempo de disputar a decisão contra a Irlanda do Norte e selar a classificação dos eslovacos na prorrogação. Enfim, teria a sua primeira grande chance pela seleção de pintar na Eurocopa como titular.

Por conta das lesões, Skrtel passou o último semestre sem clube e perdeu a Euro 2020. Hamsik também chegou a ser dúvida, mas agarrou um contrato com o Göteborg para não ficar sem ritmo depois de deixar a China e mesmo assim foi convocado sem as melhores condições físicas. Desta forma, ainda mais, Skriniar era o principal jogador da Eslováquia na estreia contra a Polônia. Não usou a braçadeira de capitão. Mas fez por merecer o destaque, liderando uma boa apresentação de sua equipe e anotando o gol da vitória. Não à toa, recebeu o prêmio de melhor em campo da Uefa.

Um dos méritos da Eslováquia esteve em seu bom papel defensivo. Ainda que a Polônia tenha ficado mais com a bola, encontrou dificuldades para criar chances. A zaga eslovaca se segurou muito bem e reduziu os espaços, sob a liderança de Skriniar. O zagueiro terminou o jogo com dez cortes, dois chutes travados, três interceptações e três duelos ganhos. Não precisou realizar uma falta sequer. E no embate com Robert Lewandowski, contribuiu para que o Bola de Ouro acabasse neutralizado.

Skriniar, no entanto, faria mais. Principalmente durante o primeiro tempo, a Eslováquia teve uma atuação segura para sair em velocidade nos contragolpes e finalizar até mais. O zagueiro era essencial nessa construção de jogo a partir da defesa e nos lançamentos longos. Dos 48 passes tentados no jogo, ele acertou 45. E, quando necessário, o camisa 14 também apareceu na frente. Depois que a Polônia voltou melhor ao segundo tempo e empatou, a reação dos eslovacos dependeu de Skriniar. Na cobrança de um escanteio, Hamsik desviou no primeiro pau e a sobra ficou com o zagueiro. Dominou e bateu no cantinho, apresentando qualidade de um bom definidor. O talento além do defensor que impera do outro lado do campo.

Difícil dizer até onde vai a Eslováquia. Apesar dessa vitória, não é uma seleção que inspira tanta confiança, até pela exibição bem abaixo da crítica da Polônia. Mas há bons jogadores. E há um dos melhores zagueiros da Europa, que merece tamanho reconhecimento como um dos maiores futebolistas que seu país já produziu. Skriniar ainda está abaixo dos prêmios acumulados por Hamsik e Skrtel no futebol nacional. De qualquer forma, pode almejar o tri consecutivo do troféu entregue ao melhor jogador eslovaco do ano e, aos 26 anos, ainda tem muito a oferecer para os compatriotas. A Euro 2020 pode ajudá-lo a se gravar um pouco mais como referência do esporte em sua nação.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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