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Em seis anos, Bacca trocou o assento de cobrador e os pescados pelo topo da Europa

Quarenta e nove gols. Este é o número que quantifica a idolatria de Carlos Bacca em duas temporadas no Sevilla. Para se ter uma ideia, somente três jogadores o superam dentro da Espanha desde então: Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. Nem mesmo os caríssimos Benzema ou Griezmann renderam tanto. E o colombiano ainda possui os méritos de ser protagonista dos rojiblancos nas duas conquistas da Liga Europa. Nesta quarta, ele carregou o time a mais um título, anotando dois gols e uma assistência nos 3 a 2 sobre o Dnipro. Conto de fadas para quem, não faz tanto tempo, vendia peixes e trabalhava como cobrador em sua terra natal.

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Carlos Bacca chegou ao Ramón Sánchez-Pizjuán por uma quantia que até parece módica, diante de tudo o que já alcançou: € 7,5 milhões foram pagos pelo atacante de 26 anos, que arrebentou em sua única temporada no Club Brugge. Antes, o colombiano fez carreira no Junior de Barranquilla. Mesmo assim, sua chegada aos profissionais dos Tiburones demorou. Tanto que, sem saber o que poderia acontecer no futuro, o garoto acumulou outros empregos enquanto conciliava a rotina de treinos nos alvirrubros.

Nascido em Puerto Colombia, pequena cidade litorânea nas proximidades de Barranquilla, Bacca dependia dos esforços de seu pai para conseguir treinar no Junior. Mas também não deixava de ajudar a família. Primeiro, vendendo pescado na região. Depois, trabalhando como cobrador na linha de ônibus que fazia o trajeto entre as duas cidades. Já durante os fins de semana, tirava um dinheiro extra nos campeonatos de várzea, cobrando 40 mil pesos (cerca de R$ 50) por gol anotado.

Bacca largou o emprego nos ônibus apenas aos 22 anos, em março de 2009, quando fez sua estreia profissional pelo Atlético Junior. Mesmo saindo do banco, anotou os dois gols na vitória por 2 a 0 sobre o Deportivo Pasto, pelo Campeonato Colombiano. Até então, Bacca só havia jogado pelo Barranquilla FC, clube menor da cidade que disputa a segunda divisão. Causou repercussão suficiente para ganhar nova chance no clube onde tinha se formado.

Bacca-pescado

“A vida estava longe de ser fácil. Eu tive que trabalhar como cobrador, porque vim de uma família pobre e precisava ganhar dinheiro para ajudá-lo. As portas no futebol estiveram fechadas para mim durante algum tempo e, na minha idade, acima dos 20 anos, não era algo com o qual poderia contar. Mas, em 2009, eu retornei ao Junior e, graças a Deus, eles ficaram comigo”, contou em entrevista ao Marca, em 2013.

A carreira de Bacca deslanchou a partir de então. Anotou 50 gols em três edições do Campeonato Colombiano, antes de se tornar artilheiro também no Club Brugge. Até começar a fazer história no Sevilla. Mais do que o faro de gol, o camisa 9 se destaca por sua mobilidade. É um jogador que sabe jogar dentro da área, mas também torna o ataque mais veloz. Assim foi nesta quarta-feira, aproveitando as brechas na defesa do Dnipro. Sucesso nos clubes que o levou à seleção a partir de 2010, reserva na Copa de 2014.

Pouco mais de seis anos depois de abandonar os ônibus e a várzea, Carlos Bacca viveu o maior momento de sua carreira. Estrelou o Sevilla em mais uma conquista continental. Mostra que a luta e o trabalho não foram em vão. E merece ir ainda mais além. Com a bola que vem jogando, é natural que o centroavante assuma o posto de titular da Colômbia na Copa América e possa seguir para um clube de mais peso depois. Para ganhar bem mais do que 40 mil pesos por gol e sem ter que girar roletas em ônibus.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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