Clube mais asiático da história da Champions, Astana põe o Cazaquistão no mapa do torneio

O Cazaquistão se aproximava do momento histórico já fazia algum tempo. Depois que o Shakhter Karaganda ficou no quase, o país esperava pelo momento para emplacar o seu primeiro clube da fase de grupos da Champions. O que se consumou nesta quarta-feira, graças ao Astana. A equipe da capital cazaque empatou com o Apoel por 1 a 1 e, graças à vitória no jogo de ida, eliminou os cipriotas. Colocou a sua liga no mapa do torneio, a 32ª a classificar um time para a etapa principal da Liga dos Campeões. Os auriazuis ainda serão o clube mais oriental a chegar na fase de grupos, assim como quarto asiático (já que, apesar de parte do território nacional se localizar na Europa, a cidade não está nela), igualando o feito restrito até então aos israelenses.
Enquanto era uma república soviética, o Cazaquistão só conseguiu colocar um clube na primeira divisão do país: o Kairat Almata, que disputou 24 temporadas do Campeonato Soviético, mas nunca foi além da oitava posição. Assim, as primeiras participações nas competições europeias só vieram a partir de 2003, com a admissão do país na Uefa. O melhor desempenho tinha acontecido em 2014/15, quando o Shakhter caiu diante do Celtic, na última fase preliminar da Champions. Como prêmio de consolação, disputou a fase de grupos da Liga Europa, mas não avançou além disso. Um patamar superado pelo Astana.
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Considerando tradição, no entanto, o Astana está longe de ser considerado um dos clubes de camisa mais pesada do Cazaquistão. O time só surgiu em 2009, conquistando um título do Campeonato Cazaque e dois da Copa do Cazaquistão desde então. Por causa do calendário anual do futebol no país, a vaga nas preliminares da Champions foi assegurada ainda em 2014. E, além do Apoel, os auriazuis já tinham demonstrado o seu potencial ao eliminar Maribor e HJK Helsinque nas etapas anteriores.
O valor de mercado do elenco do Astana não passa de € 13 milhões. Menos do que o dinheiro pago pelo Shanghai Shenhua por Demba Ba, por exemplo, mas que o torna o elenco mais caro do futebol cazaque. Em uma equipe baseada principalmente em jogadores locais, são oito estrangeiros à disposição. E o mais rodado é o defensor Branko Ilic, de 32 anos, que disputou a Copa de 2010 pela Eslovênia e passou por clubes como Betis, Lokomotiv Moscou e Partizan Belgrado. Nada que chame tanta atenção.
O sucesso do Astana, aliás, tem a ver com um mecenato – o que, convenhamos, não é nenhuma surpresa. O clube surgiu a partir da fusão entre o Megasport e Alma-Ata, transferindo-se de Almaty para Astana – recém-transformada na capital do país. Na cidade, a equipe passou a receber injeções de dinheiro da Companhia Ferroviária Nacional do Cazaquistão, que permitiu à diretoria tirar da concorrência alguns dos melhores jogadores do país, além de buscar outros reforços de peso no exterior. Também ganhou de presente da prefeitura a Astana Arena, moderno estádio para 30 mil torcedores que custou US$ 185 milhões aos cofres municipais.
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Já a partir de 2013, o financiamento público se tornou ainda mais escancarado. Nursultan Nazarbayev, presidente cazaque desde 1991 (em um regime antidemocrático, acusado de corrupção e perseguição política), criou o Astana Presidential Sports Club. A entidade passaria a reunir equipes de diferentes modalidades para impulsionar o desenvolvimento dos esportes na capital e mudar a imagem internacional de Astana. A partir de então, a própria previdência nacional passou a financiar o clube.
Assim, a ascensão nacional do Astana se torna mais do que natural, ainda que surpreenda na Europa. É uma equipe “chapa branca”, que, além de representar o Cazaquistão na Champions, também encampará a bandeira política do governo internamente. Não à toa, a artificialidade da equipe não atrai público, com a média na liga nacional ficando pouco acima dos 3 mil espectadores por jogo. Ao menos na Champions os números têm sido bem melhores, chegando contra o Apoel aos 30 mil de capacidade máxima do estádio. Apesar de todos os conflitos de interesses, as pessoas ainda querem ver a história do futebol cazaque ser escrita. E é isso o que realmente enriquece a Champions, mesmo com as controvérsias de bastidores.



