Champions League

O futebol nunca perde e diversidade de estilos faz bem ao jogo

Por Felipe Lobo

Futebol é um esporte que permite uma enorme diversidade de estilos de jogo. Há sempre esquemas táticos da moda, mas também há uma variedade grande em esquemas de jogo. O Atlético de Madrid de Diego Simeone venceu, em sequência, Barcelona e Bayern de Munique na Champions League. Eliminou dois dos times que dominam a última década na competição. A vitória de um time como o Atlético sobre o Bayern quer dizer alguma coisa?

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Não, não quer dizer nada. É a vitória de um time sobre o outro. São times de estilos opostos, é verdade. O Bayern trabalha com a premissa da posse de bola acima de tudo, usando, inclusive, como modelo de defesa. O Atlético tem uma ideia de jogo diferente, que tenta ocupar espaços, e não ter a bola. Simeone se parece mais com Mourinho do que com Guardiola, mas não quer dizer que seja um duelo de defesa contra ataque. Olhar assim é tirar a complexidade de um jogo que envolve muito mais elementos.

A vitória do Atlético não impõe um jeito de jogar sobre outro, não quer dizer que todos devam jogar daquele jeito. Não dá nem para dizer que será uma tendência. A Grécia em 2004 ganhou a Eurocopa com um jogo muito mais pobre do que esse do Atlético de Madrid, que traz diversos elementos interessantes. Por vezes criamos uma batalha simbólica e filosófica que não passa de um embate imaginário.

É como dizer que a queda da Seleção de 1982, diante de uma Itália defensiva, sim, mas muito talentosa, fez mal ao futebol. O futebol é muito maior. E os times continuam marcantes, mesmo que não vençam. A história não é contada só pelos vencedores. Futebol, por mais que tenha tanta terminologia militar, não é guerra. O outro não será exterminado se perder.

Guardiola perdeu para uma Internazionale que conseguiu se defender com unhas e dentes em 2010, no jogo de volta. É importante lembrar: no jogo de ida, a Inter venceu, e bem, o Barcelona por 3 a 1, com alguns dos seus destaques ofensivos brilhando, como Sneijder e Milito.

Na volta, a expulsão de Thiago Motta e a imposição do Barcelona empurraram o time italiano para a intermediária defensiva e o time soube cobrir bem os espaços do campo e sair com uma derrota por 1 a 0 e a classificação embaixo do braço. Isso não mudou Guardiola. Nem mudou os times que quere m jogar mais como Guardiola. Eles continuaram existindo. O seu estilo continuou sendo importante e vencedor.

Há diversos exemplos de bons times que se construíram a partir de um futebol interessante. E A dicotomia Guardiola x Mourinho (e que coloca Simeone no lado do português) é reducionista, porque nem todo técnico se encaixa tão facilmente em um lado ou outro. Nem mesmo Simeone. Aliás, nem mesmo Mourinho dá para dizer que é só defensivista. Os seus trabalhos nos mais diversos times mostram isso. Porto, Chelsea, Inter e Real Madrid, em suas passagens, tiveram conquistas dominando adversários, inclusive os mais fortes.

Filipe Luís, do Atlético de Madrid, consola Javi Martínez, do Bayern de Munique (AP Photo/Matthias Schrader)
Filipe Luís, do Atlético de Madrid, consola Javi Martínez, do Bayern de Munique (AP Photo/Matthias Schrader)

Guardiola é sem dúvida um dos técnicos mais inovadores e criativos que existem no mundo e mudou o jogo. É um revolucionário no modo de fazer seus times jogarem. Tenta criar soluções de forma pouco usual. Nem sempre funciona. Algumas vezes paga o preço disso, como a defesa alta e atacar com 10 jogadores.

Simeone talvez não seja. O que não o torna um personagem menos importante no futebol. Simeone passa conceitos defensivos importantes, sabe trabalhar a bola no ataque, sabendo que precisa aproveitar o tempo com a bola e não desperdiçar as chances. O Atlético é um time com talentos, como Griezmann, Koke, Saúl. Sabe o que fazer quando tem a bola – e tem habilidade e talento para isso.

O Atlético sabia que precisava ganhar em casa, tanto no confronto contra o Barcelona quanto contra o Bayern. Nas duas, conseguiu vencer em casa jogando melhor do que o adversário. Não foi preciso ter mais posse de bola: foi saber criar mais chances dentro do seu jogo. É um estilo de jogo que tem os seus riscos.

O pênalti de Thomas Müller no jogo de volta, ainda no primeiro tempo da semifinal, poderia ter mudado totalmente a história do confronto. Mas todo jogo envolve riscos. O do Bayern é que ao sufocar o adversário com 10 jogadores no campo de ataque e criar uma pressão quase insuportável, qualquer retomada de bola do adversário se torna um contragolpe perigoso. Foi assim que tomou o gol de Griezmann. E nos dois casos, o risco é calculado.

Como em qualquer confronto esportivo, vence quem aproveita melhor suas qualidades contra os defeitos do adversário. Não quer dizer que um é melhor que outro. Mesmo em um confronto em dois jogos, no mata-mata, um time tecnicamente pior – ou mesmo menos organizado – pode vencer. Por isso, tratar a vitória do Atlético de Simeone como um mal ao futebol parece um exagero megalomaníaco.

O futebol nunca perde por um jogo jogado. O que faz o futebol perder são as manobras fora de campo, as más gestões dos dirigentes, a organização corrupta que cerca o futebol. Um jogo jogado, por mais que um estilo seja de manutenção de posse de bola e outro seja de ocupação de espaços – e normalmente será mais complexo do que isso – nunca significará uma derrota para o futebol. A diversidade de estilos de jogo, de Guardiola a Ancelotti, de Wenger a Van Gaal, de Klopp a Massimiliano Allegri, nunca será ruim para o futebol. A diversidade é positiva. Fazer de um jogo uma derrota do futebol é querer transformar a parte em um todo. É um exagero metonímico. O futebol é bem maior do que isso.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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