Champions League

Copeiro como sempre, Atlético ganha mais uma chance de alcançar o sonho do título europeu

Por Bruno Bonsanti

O Atlético de Madrid foi campeão europeu durante cinco minutos em 1974. Marcou quase no final da prorrogação da final, mas levou um gol do Bayern de Munique que forçou uma segunda partida, na qual foi derrotado. Quarenta anos depois, o título foi seu por ainda mais tempo. Passou quase uma hora entre o gol de Godín e o de Sergio Ramos, que levou o jogo contra o Real Madrid à prorrogação e a mais uma profunda decepção. Nada disso é o bastante para o apaixonado torcedor colchonero, para os aguerridos jogadores do time, para o gigante coração de Diego Simeone. Eles querem entrar na história. Não querem o título por cinco minutos ou uma hora. Querem o título para sempre. E ganharam mais uma chance de realizar esse sonho.

LEIA MAIS: O “cholismo” ganha a Itália. Trapattoni: “Eu amo o Simeone. O Tiki-taka me faz dormir”

Na época do desequilíbrio, das goleadas na primeira fase, no grupo de elite que sempre chega à semifinal, alcançar duas decisões seguidas em três temporadas é uma tarefa praticamente impossível para um clube com os recursos do Atlético de Madrid. E ele mesmo assim conseguiu. Eliminou adversários muito mais ricos, como o Barcelona, e nesta terça-feira, o Bayern de Munique, apesar da derrota por 2 a 1 na Allianz Arena, sempre com a consciência de que nenhum gigante é alto demais para derrubar. A atual campanha pode ser mais simbólica porque já venceu dois dos três times que dominam a Europa. Pode encontrar o terceiro, o arquirrival Real Madrid, em Milão, no final de maio.

O processo seletivo para ser o Davi oficial do futebol europeu é sempre um martírio para o Atlético de Madrid e seu torcedor. Trata-se, afinal, do time que se defende, que sangra, que se defende mais um pouco, que chuta a bola para longe, que derruba suor, gasta tempo, dá um tapa no quarto árbitro (isso não foi muito legal, Simeone), que defende de novo e aproveita bem as poucas chances que cria. O jogo contra o Bayern de Munique seguiu esse mesmo roteiro já tão habitual. O Atlético de Madrid sofreu. O Atlético de Madrid venceu.

Os donos da casa fizeram um excelente primeiro tempo. Guardiola colocou em campo uma das suas escalações mais convencionais, com, grosso modo, Xabi Alonso e Vidal no meio-campo, Ribéry e Douglas Costa pelas pontas, Müller e Lewandowski no ataque. Grosso modo porque movimentação e alternância de posições é o básico para qualquer time do espanhol. Desta maneira, o Atlético de Madrid foi amassado no primeiro tempo. Deu quase cinco vezes menos passes que o adversário. Finalizou apenas duas vezes contra 16 do Bayern de Munique.

E voltou aos vestiários perdendo por apenas 1 a 0. Não importa o tamanho do domínio, não se entra na área do Atlético de Madrid com facilidade. O Bayern conseguiu uma vez, em um lindo passe de Boateng que pegou de surpresa apenas quem ainda não percebeu que ele é um dos melhores armadores do time, com bolas longas sempre muito bem colocadas. Müller ajeitou para Lewandowski, mas Oblak, um colosso, abafou a jogada e fez a defesa.

Fora isso, chutes de longe deram a tônica do perigo que o time da casa levava ao goleiro esloveno. Exceto quando Giménez, bom e promissor zagueiro, estava no lugar errado na hora errada e sofreu um lapso mental. Primeiro, desviou um chute de Xabi Alonso, em bola rolada para ele após cobrança de falta, e iludiu Oblak. Segundo, cometeu um pênalti bobo em Javi Martínez, que daria ao Bayern de Munique o placar que ele precisava. Mas Oblak fez a defesa.

A blitz continuaria no segundo tempo, mas Simeone reagiu. Tirou Augusto Fernández e colocou Carrasco. Melhorou a saída de bola, que serviu como o furo no copo para aliviar a pressão. Deu para respirar um pouco e aproveitar a linha de defesa avançada do Bayern de Munique, essencial para o abafa e também um risco para o contra-ataque. Torres lançou Griezmann, que teve a frieza para tocar na saída de Neuer e exigir que a próxima carta dos alemães só pudesse ser dois gols.

Mais do que nunca, virou ataque contra defesa. E além dos chutes de fora, a outra arma possível contra o paredão colchonero é a bola aérea. Ribéry lançou Alaba, que cruzou para Vidal, dois centímetros menor que Filipe Luis, parecer três metros maior e cabecear para dentro da pequena área, onde Lewandowski estava pronto para conferir. O prejuízo ficou menor, mas não o bastante para não ser eliminado pela terceira vez seguida na Champions League.

Se Müller perdeu um pênalti no primeiro tempo, por que o Atlético de Madrid não teria a chance de fazer o mesmo no segundo? Fernando Torres invadiu a grande área pela esquerda e foi derrubado por Javi Martínez. Ele mesmo pegou a bola para cobrar, mas executou o movimento como se estivesse chupando um picolé. Neuer defendeu com a mesma facilidade, e o Atlético perdeu a chance de matar a eliminatória. Para ser justo, Torres fez grande partida, na questão defensiva, com assistência para Griezmann e cavando o pênalti. Está em boa fase.

E o Atlético de Madrid precisará dele, de Griezmann, do capitão Gabi, de Godín e Giménez, de Simeone (que possivelmente será suspenso pelo tapa no auxiliar), dos jovens Carrasco e Saúl, de cada torcedor que acompanhou a final de 1974 e a de 2014 para manter a mesma intensidade em Milão e tentar, contra Real Madrid ou Manchester City, evitar que o sonho do título europeu escape mais uma vez pelos dedos.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo