Champions League

Geração fraca? Brasileiros são decisivos em jogos pesados da Champions League

Entre tentos e assistências, brasileiros participam de sete gols na pesada quartas da Champions League

Muito fã de futebol analisa de forma simples o porquê da Seleção Brasileira não conquistar uma Copa do Mundo há mais de 20 anos. Alguns usam o argumento do atraso na preparação dos treinadores ou pelos casos de corrupção na Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que impedem uma gestão profissional. Outra resposta comum, talvez a mais utilizada, é dizer que “a geração é fraca”.

Se levar em consideração que o Brasil tinha vários atletas com Bolas de Ouro ou prêmios da Fifa nas últimas décadas e agora não tem mais, até há um fundo de verdade, mas não quer dizer que os jogadores de agora são fracos ou não são protagonistas na Europa. A ida das quartas de final da Champions League, competição mais difícil do mundo, prova isso.

Foram quatro jogaços nos últimos dois dias. Na terça-feira (9), dois empates espetaculares: Real Madrid 3 a 3 Manchester City e Arsenal 2 a 2 Bayern de Munique. No dia seguinte, tivemos vencedores, só que sem perder a emoção. Com duas viradas, o Barcelona venceu o Paris Saint-Germain por 3 a 2, enquanto o Atlético de Madrid sofreu para segurar o 2 a 1 no placar contra o Borussia Dortmund. Além da qualidade técnica e o fator imprevisível, as quatro partidas tiveram outra coincidência: o peso de cinco jogadores brasileiros. Confira nesta análise da Trivela o desempenho de cada um nas quartas da Champions.

Vini e Rodrygo nasceram para jogar no Real Madrid

No Santiago Bernabéu, para variar, a dupla verde e amarela fez chover – tudo isso com a ajuda de um ajuste tático de Carlo Ancelotti. Ao invés de atacante, Rodrygo entrou como ponta esquerda, posição onde costuma render mais, e Vinicius Júnior foi jogar mais centralizado. Os dois se entendem muito bem e armaram a jogada do primeiro gol. À la Real Madrid vertical no contra-ataque dos bons tempos, o camisa sete acionou o Rayo partindo, pela esquerda, nas costas da defesa adversária para marcar o 2 a 1 no placar em bonita jogada que terminou com finalização rasteira.

No segundo tempo, após o City virar, Vini Jr. mostrou toda sua qualidade com a perna esquerda, a mais “fraca”, para cruzar na medida antes de batida perfeita de Fede Valverde.

Ambos foram os melhores em campo do lado espanhol da eliminatória, com Vini tendo maior impacto por ficar mais tempo em campo. As duas assistências e o gol dos brasileiros são os destaques óbvios, mas é ainda mais legal assisti-los juntos. Parecem se entender só com um olhar e armaram vários outros ataques para o Real, talhado ao contra-ataque.

Na Seleção Brasileira, naturalmente propositiva em todos os jogos, os dois ainda não se encaixaram e têm buscado o entrosamento do Real. Com Tite, só atuaram oito vezes juntos, e, sem contar o 2023 caótico, a nova fase com Vini-Rayo começou no último mês sob comando de Dorival Júnior.

Vini Jr e Rodrygo: a dupla irresistível do Real Madrid (Foto: Divulgação)

Ainda reserva, Gabriel Jesus sai do banco para dar vida ao Arsenal

Foram apenas 23 minutos mais acréscimos em campo, mas Gabriel Jesus merece o destaque da rodada. Quando ele entrou, o placar estava 2 a 1 para o Bayern de Munique e o Arsenal até ali não tinha finalizado no gol. Até que aos 20, no meio de um monte de marcador adversário, o atacante deixou Matthijs de Ligt no chão e, com a chegada de Leon Goretzka para travar, deu um toque na medida para Leandro Trossard confirmar o do empate.

Esse lance mostra bem a especialidade de Jesus. Não espere 30 gols do brasileiro em uma temporada, porém ele entregará qualidade saindo da referência do ataque e assistindo os colegas de time com muita técnica. Inclusive, nem centroavante tem sido mais. Contra o Bayern se movimentou pelo ataque, não teve função fixa, e nas últimas partidas dos Gunners jogou como ponta pela esquerda.

Um levantamento do SofaScore aponta que Jesus é o segundo jogador desta Champions que precisa de menos minutos para participar de um gol. São quatro gols e três assistências, média de 54 minutos por participação.

Jesus tem relação de altos e baixos com a Seleção, mas não deveria ser um nome totalmente descartado pela qualidade e polivalência de jogar em todas do ataque.

Lino mantém regularidade em boa temporada no Atlético

Quem acompanha o futebol espanhol vê a temporada espetacular que faz Samuel Lino. O gol contra o Dortmund, essencial para vitória, foi mais uma mostra disso e ele chegou a 13 participações em 2023/24.

Como ala esquerdo do esquema com três zagueiros de Diego Simeone, o brasileiro é um dos principais desafogos do time por sua capacidade de driblar. Ainda segundo o SofaScore, ninguém no elenco do Atlético acertou tantos dribles (46) e venceu duelos aéreos ou no chão (180) quanto Lino ao longo da temporada. A importância ofensiva é ilustrada quando pisa na área para marcar nas quartas da Champions.

Ao contrário de outros nomes da lista, Lino ainda nem ao menos foi convocado pelo Brasil.

Raphinha desencanta na Champions e evolui junto com o time

Finalizando com chave de ouro os destaques dessa rodada da Champions, Raphinha teve o desempenho mais espetacular. Iniciou como “falso ponta” pela esquerda, flutuando para o setor central, função que já afirmou não gostar de exercer, mas mesmo assim comeu a bola. No primeiro tempo, apareceu na área para aproveitar falha de Gianluigi Donnarumma e cravar o primeiro. Ainda deu uma batida de longe e quase ampliou.

Depois, no meio da etapa final, virou ponta direito com a entrada de João Félix e por ali marcou o gol do empate catalão, em uma bonita finalização de primeira. Todos os quatro chutes que o brasileiro tentou foram na direção de Donnarumma, uma atuação irretocável.

É verdade que o ponta do Barcelona não vem de uma temporada regular e quando vestiu a camisa da Seleção Brasileira também não desempenhou tão bem. Mas ele vem evoluindo, junto do Barcelona, voando e invicto desde que Xavi Hernández anunciou que sairá do clube em junho.

Mas a geração é ruim ou não?

Obviamente, o Brasil tem e sempre terá ótimos jogadores à disposição para convocar. Um país continental, com um histórico desse no futebol, não deixará de revelar talentos. Não é porque que não há mais brasileiros ganhando a Bola de Ouro que ninguém presta. Quase todo time de elite do futebol mundial tem um atleta que saiu daqui, e esta rodada da Champions provou como eles também são protagonistas e essenciais em suas equipes.

Tudo passa por um projeto consolidado da CBF, que também reflete no campo, para potencializar todo o talento brasileiro. Sem Ancelotti, essa realidade pode acontecer com Dorival Júnior e os dois primeiros amistosos deram uma boa impressão.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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