Champions League

Projeto do Arsenal, com muita paciência, se consolidou como potência de degrau em degrau

Final da Champions League é só mais um feito de uma trajetória de paciência e confiança no trabalho de Arteta

A chegada do Arsenal à final da Champions League 2025/26, a primeira em duas décadas, é mais um feito que simboliza um projeto bem pensado que resistiu às pressões com paciência e confiança no que viria pela frente.

O início veio há quase sete anos, em 2019, com a nomeação de Edu Gaspar em julho e a chegada de Mikel Arteta cinco meses depois. Houve erros, fracassos e resultados que machucaram o torcedor. Os títulos maiores ainda não vieram: apenas uma Copa da Inglaterra, em 2020, e duas Community Shields, a supercopa local, em 2021 e 2024.

Os Gunners resistiram. E, agora, colhem os frutos. Restam mais quatro jogos na temporada e, em 31 de maio, na decisão europeia contra Bayern de Munique ou PSG, podem terminar com uma dobradinha inédita. Um título europeu nunca ocorreu. A última Premier League veio em 2004, há 22 anos.

Um dos grandes méritos de Arteta foi acostumar seu clube e jogadores — e até ele mesmo — aos grandes momentos novamente. Quando ele assume em seu primeiro desafio como técnico principal, no fim de 2019, substituindo Unai Emery, o time já nem jogava mais a Champions e sofria com a sombra de mais de duas décadas de Arsène Wenger.

Arteta celebra classificação do Arsenal à final da Champions League
Arteta celebra classificação do Arsenal à final da Champions League (Foto: IMAGO / Paul Marriott)

Primeiro, Arteta aprendeu a vencer clássicos

Um fator que incomodava muito no Arsenal, além da ausência de títulos, era a completa freguesia contra os rivais do Big Six. Entre janeiro de 2015 e novembro de 2020, o time passou 29 partidas sem vencer nenhum dos seus principais concorrentes fora de casa.

A sequência caiu já sob o comando de Arteta, gol solitário de Pierre-Emerick Aubameyang no Old Trafford, a primeira vitória na casa do Manchester United em 14 anos. Esse não foi o único tabu que o técnico espanhol derrubaria.

Em Stamford Bridge, eram oito anos sem vencer. Por Premier League como visitante contra o maior rival Tottenham, quase nove anos. Nem ao menos vencia o Manchester City, em casa ou fora, no Campeonato Inglês, por oito temporadas. Todos os tabus foram dizimados.

Só em Anfield e no Etihad Stadium a equipe londrina ainda não venceu, mas, desde 2024, os empates são mais comuns nas casas de Liverpool e Manchester City do que vitórias dos mandantes.

Inclusive, a situação com os Reds e Citizens serve para simbolizar outro momento: a transição de um coadjuvante na Inglaterra, “substituindo” o Liverpool para se tornar um dos candidatos todos os anos aos títulos locais.

Entre 2017 e 2023, o Arsenal perdeu por três ou mais gols em nove oportunidades para os dois na Premier League, com direito a 5 a 0, 4 a 0 e 4 a 1 sofridos com Arteta no cargo.

A transformação acontece a partir de março de 2023. Desse período, até agosto de 2025, ou seja, mais de 840 dias, o time passou 22 partidas sem perder para nenhum rival do Big Six. Bateu todos eles no período, com 13 vitórias e nove empates.

A melhor sequência anterior, de 17 partidas, foi justamente na era mais vencedora recente do clube: entre dezembro de 2002 e setembro de 2004, quando ficaram 49 jogos invictos na Inglaterra.

Lewis-Skelly comemora gol em vitória do Arsenal por 5 a 1 sobre o Manchester City
Lewis-Skelly comemora gol em vitória do Arsenal por 5 a 1 sobre o Manchester City (Foto: IMAGO / Sportimage)

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Segundo, passou a competir na Premier League

Quando Arteta chegou, o Arsenal tinha terminado em quinto nos campeonatos ingleses de 16/17 e 18/19 e em sexto no de 17/18. Nos dois primeiros anos, o jovem comandante conseguiu ser ainda pior: oitavo, piores colocações e número de pontos desde o 12º lugar na edição de 1995/96.

A pressão era grande, mas, silenciosamente, o clube ia se reformulando com a saída de veteranos, a chegada de jovens — Gabriel Martinelli e William Saliba, dupla importante atualmente, vieram em 2019 — e uma consolidação da parceria Arteta-Gaspar.

Para 2021/22, os Gunners gastaram mais do que ninguém no mundo: 165,6 milhões de euros em jogadores como Ben White e Martin Odegaard (que já estava emprestado um ano antes) por definitivo, mais dois do time que atuou na semifinal da Champions League 25/26.

A quinta posição na temporada com gastos recordes frustrou ainda mais porque o rival Tottenham, quarto, ficou apenas dois pontos à frente, tendo vencido o North London Derby por 3 a 0 na 36ª rodada.

Mas, como tudo tem sido um processo passo a passo no Arsenal, precedeu a duas lutas pelo título que não acontecia praticamente desde 2005. Os dois vices para o Manchester City, sendo líderes por mais rodadas e taxados de “pipoqueiros”, doeram. Assim como o outro segundo lugar na última temporada, quando os Citizens não conseguiram competir, mas surgiu um novo Liverpool com Arne Slot para ser campeão.

Três vices seguidos até a temporada atual. Nela, ficou líder por praticamente toda a competição, passou por uma queda que ressuscitou os fantasmas de time “amarelão”, com o City retomando a ponta da tabela após estar nove pontos atrás, e a recuperação a partir do momento que todo mundo criticava o futebol físico e pouco vistoso do time.

Arteta resgatou um time que parecia com o físico esgotado há duas semanas e emplacou vitórias marcantes sobre Newcastle (mais resultado do que futebol), Fulham (atuação de gala) e o próprio Atlético de Madrid (outra boa exibição), com um empate com os espanhóis no meio disso na ida da semifinal europeia.

Com um jogo a mais que os Citizens, o Arsenal tem cinco pontos de vantagem na liderança. Enfrenta West Ham (18º colocado), Burnley (19º, já rebaixado) e Crystal Palace (15º, com um pé na final da Conference League). Confrontos acessíveis e com tudo para que mantenham sua vantagem, o que encerraria um jejum de 22 anos sem conquistar a Premier League.

Terceiro, a consolidação na Champions League

Foram seis anos sem ir para a Champions League. Os Gunners se tornaram um time mais comum de disputar a Liga Europa — aliás, foram vice-campeões em 2019, com Unai Emery.

Mikel Arteta também conseguiu retomar a primeira prateleira europeia ao time londrino. A participação em 2023/24, a primeira desde 2017, veio com uma queda só nas quartas de final para o Bayern de Munique, acostumado a esses momentos.

No ano seguinte, as quartas ficaram para trás com um memorável 3 a 0 sobre o Real Madrid no Emirates Stadium, além de vencer os “Reis da Europa” também no Santiago Bernabéu, 2 a 1. A queda na semifinal para o PSG com duas derrotas não foi tão amarga por ser um adversário tão incrível que terminou campeão europeu.

Na temporada atual, o Arsenal já entrou como favorito à “Orelhuda”. O elenco estava amadurecido nas noites europeias. Novas contratações deram ao elenco duas opções para cada posição — em algumas até mais.

E provou seu favoritismo, mesmo que com futebol pouco atraente em vários momentos, passando na fase de liga com 100% de aproveitamento — e vitórias sobre Bayern, Atlético e Internazionale — e depois eliminando Bayer Leverkusen, Sporting (ambas com muitas críticas pela margem mínima) e Atlético até chegar na decisão.

Naturalmente, quem passar entre Bayern ou PSG nesta quarta-feira (6) será o favorito na final europeia. A dupla pratica o melhor futebol do mundo no momento, ilustrando o que há de melhor no futebol moderno.

Os ingleses, porém, não devem ser subestimados: são os únicos invictos no torneio, com 11 vitórias em 14 partidas, e sofreram apenas seis gols. A defesa contra um adversário muito ofensivo, sejam alemães ou franceses, pode ser o fator que pese em uma final única.

O Arsenal pode terminar sem nenhum título em 31 de maio que, ainda assim, o trabalho de Arteta continua bom. A passagem pode até terminar, mas não apagará o que foi construído em quase sete anos. O clube só voltou a ser um colosso europeu graças ao espanhol e a Edu Gaspar, que deixou a equipe em 2024. Se as taças vieram, o executivo brasileiro, hoje no comando do grupo do Nottingham Forest, deveria ser lembrado por seu papel no projeto.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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