Champions League

A um projeto de médio prazo, a primeira temporada de Nagelsmann no Leipzig supera as expectativas

Julian Nagelsmann chegou ao RB Leipzig para dar o passo à frente em sua ascendente carreira. O treinador chegou a ser cotado pelo Bayern de Munique e por outros grandes clubes, mas, aos 33 anos, sabia que o tempo estaria a seu favor. Preferiu assumir um projeto promissor, para crescer junto e virar uma das faces principais ao que a Red Bull planeja na Alemanha. Esta primeira temporada, a princípio, deveria servir para se adaptar ao novo ambiente e fincar as bases de um desenvolvimento a médio prazo. Os resultados, porém, acabam saindo muito melhores que as expectativas. Mesmo de mãos abanando, não tem como refutar que 2019/20 termina de maneira bastante positiva aos Touros Vermelhos, após oito rodadas na liderança da Bundesliga e a campanha até as semifinais da Champions League.

Tudo o que precisava como carta de apresentação, Nagelsmann já conseguiu fazer à frente do Hoffenheim. Chamava atenção o garoto prodígio que assumiu o clube aos 28 anos, em meio a uma situação difícil na Bundesliga, mas referendado por seu ótimo trabalho à frente das categorias de base. Conseguiu não apenas evitar o rebaixamento dos alviazuis, com uma excelente arrancada no segundo turno do campeonato, como na temporada seguinte colocou o Hoffe pela primeira vez na Champions League. A aposta se pagou rapidamente e Nagelsmann não precisou de tempo para mostrar que era um dos melhores treinadores da Alemanha.

Além dos resultados satisfatórios, o jovem apresentava boas ideias. Seus times no Hoffenheim sempre buscaram o ataque, tomando muitos gols, mas marcando ainda mais. O técnico dava espaços a jovens jogadores e fortaleceu o futebol de outros bons valores presentes no elenco. Além do mais, a variação tática sempre se manteve como uma tônica, sem se prender muito a uma formatação e sabendo se adaptar aos adversários. A marca principal de seu estilo era fazer a bola chegar à frente com o máximo de dinamismo e velocidade. Manteve um ótimo aproveitamento em pouco mais de três anos na Rhein-Neckar Arena, acertando seu próximo destino antes de cumprir todo o período.

A figura de Nagelsmann se casava muito bem com o que a Red Bull prega em seus projetos esportivos, entre a juventude e a vanguarda. Suas visões também se casam com o ímpeto que se propõe em Leipzig, ainda mais diante do elenco recheado de promessas. E, num clube que se estabelece, a pressão por resultados naturalmente tende a ser menor – para que o treinador também amadureça, ganhe respaldo, se talhando para gerir medalhões em clubes maiores no futuro. Tudo parecia se combinar e os quatro anos de contrato oferecidos pelos Touros Vermelhos indicavam esta projeção um pouco maior. O que se viu acabou sendo muito melhor do que a encomenda.

Seria uma temporada de transição não apenas pela chegada de Nagelsmann. A renovação de Timo Werner aconteceu apenas para que o atacante desse condições mais favoráveis ao clube para negociá-lo, em sinal de gratidão. Com a saída do artilheiro já esperada e a queda de outros nomes mais antigos, sobretudo de Emil Forsberg, também há uma troca de protagonismo na Red Bull Arena. Apesar disso, Nagelsmann conseguiu tirar ainda mais de Werner e proporcionou ao atacante a melhor temporada de sua carreira. Valorizou-o. Também viu outros jogadores seguirem a evolução, a exemplo de Marcel Sabitzer e Dayot Upamecano, montando um time desde já competitivo.

O primeiro turno equilibrado da Bundesliga auxiliou que a liderança do Leipzig se mantivesse por tanto tempo, entre as carências do Borussia Dortmund e a troca de comando no Bayern de Munique. A disputa de momento foi com o Borussia Mönchengladbach, embora parecesse que as duas equipes estivessem num patamar acima das expectativas. A arrancada dos bávaros sob as ordens de Hansi Flick também se combinou com a queda de produção dos Touros Vermelhos no segundo turno, com muitos empates atravancando o rendimento. De qualquer forma, bastou para assegurar a participação na Champions League em 2020/21.

E a campanha continental era uma espécie de bônus, não apenas para este começo de Nagelsmann, como também para o clube referendar suas ambições além das fronteiras. Se antes o desempenho internacional do Leipzig esteve aquém do que poderia se pedir, desta vez os Touros Vermelhos aproveitaram seu caminho facilitado. Avançaram num grupo teoricamente nivelado por baixo – com Benfica e Zenit, mas também o semifinalista Lyon. Depois, amassaram um Tottenham em crise com duas vitórias categóricas. Por fim, naquele que se torna o triunfo mais importante do clube até o momento, o RasenBallsport impôs seu jogo diante do Atlético de Madrid, para desbancar um favorito em seu lado da chave. Os colchoneros acabaram inferiorizados e, com um gol no fim, a história estava feita aos alemães.

O Leipzig se tornou apenas o nono clube alemão na história a disputar uma semifinal de Champions. Se for considerada a fase moderna do torneio, a partir de 1992/93, apenas cinco clubes germânicos chegaram tão longe. Obviamente, vencer o Paris Saint-Germain estava no horizonte e o objetivo seria superar tal marco, mais fantástico a quem cinco temporadas antes estava na segunda divisão – com sete remanescentes daquele período. Mas os Touros Vermelhos também conheciam a força do adversário que encaravam, com um estilo oposto ao do Atlético de Madrid e muito mais qualidade individual. Nagelsmann tentou conter as armas dos parisienses com um posicionamento mais contido e, no fim das contas, a derrota por 3 a 0 até saiu de bom tamanho diante das chances criadas pelos vencedores.

Ao longo desta terça-feira, o Leipzig também deixou claro que não é um time pronto. Abusou dos erros na defesa, construiu pouco no ataque e não conseguiu conter a sede do PSG. Numa partida em que os franceses tinham mais opções de qualidade que nas quartas de final, com seus craques facilitando o jogo uns dos outros, os alemães acabaram se tornando presas fáceis. Não teve Nagelsmann, jovens talentos ou qualquer tipo de adaptação tática que evitasse o pior. Entretanto, a derrota também serve para lembrar como os Touros Vermelhos superaram os seus limites para estar ali.

O sucesso na Champions talvez encerre o ciclo de outros jogadores importantes, como Dayot Upamecano ou Marcel Sabitzer. Por mais que a Red Bull invista, o clube não tem o poder financeiro para competir com as verdadeiras potências da Europa – por enquanto. Mas, ainda que perca destaques, Nagelsmann já conhece o ambiente e a maioria dos jogadores entende melhor as ideias do treinador. A tendência é ver um time mais competitivo na próxima Bundesliga, o objetivo primordial antes de sonhar com a Champions. Embora o time só tenha sofrido quatro derrotas no Campeonato Alemão, o excesso de empates e as dificuldades nos confrontos diretos indicam pontos a melhorar.

O Leipzig permanece com vários jogadores prontos a ganharem espaço no futebol internacional, mesmo alguns que sequer apareceram no elenco nesta temporada. Há um caminho bem estruturado e um potencial para seguir se consolidando. Nagelsmann se confirmou neste primeiro ano como a melhor escolha disponível. É ver como os jogadores reagem a esta eliminação. Mais do que a tristeza, deveriam encarar como uma oportunidade de encarar a elite do futebol europeu em duelos decisivos. Podem criar mais casca, mesmo para lidar com o Bayern no cenário doméstico. Um título da Copa da Alemanha, como próximo passo, seria muito bem vindo. Na hierarquia local, os Touros Vermelhos seguem atrás do Borussia Dortmund.

E que se façam inúmeros questionamentos à artificialidade ao redor do RB Leipzig, pertinentes dentro do caráter associativo no futebol alemão e do próprio modelo de clube que se determina no país, esportivamente o sucesso da Red Bull é inegável. Deixando um pouco de lado a disputa de identidade ou mesmo a sustentabilidade do investimento na realidade média da Bundesliga, quando os demais precisam respeitar o 50+1, é um time que se encorpa e que possui bases muito interessantes. Há juventude de sobra e também uma excelente capacidade não só em detectar bons prodígios, como em atraí-los – embora o uso dos outros Red Bull espalhados pelo mundo, especialmente o Salzburg, facilite esta centralização.

A impressão é de que este foi apenas o começo do RB Leipzig, mesmo que repetir uma semifinal de Champions dependa de muitas variáveis e possa não acontecer de novo tão cedo. Com o Bayern de Munique por perto, há uma régua alta para tentar se equiparar e reduzir as distâncias. O PSG levou os Touros Vermelhos de volta a uma realidade em que alcançar o nível mais alto leva tempo. Mas ninguém envolvido diretamente com o clube vai reclamar do sonho que pôde viver ao longo dos últimos meses.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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