A reunião das três estrelas, a aposta mais ousada do Catar no PSG, caminha para terminar em decepção
Juntos, Neymar, Mbappé e Messi não conseguiram passar das oitavas de final da Champions League e talvez não tenham outra chance
Cerca de dois anos atrás, o Paris Saint-Germain completava o que foi considerado por muitos o melhor mercado da história. Não era à toa: trouxe Lionel Messi o que, sozinho, já seria especial. Além dele, vieram Sergio Ramos e Gianluigi Donnarumma, além de coadjuvantes competentes como Achraf Hakimi e Georginio Wijnaldum. O principal era a reunião de Messi com Neymar e Mbappé. No entanto, juntos, três dos melhores jogadores do mundo não conseguiram sequer passar das oitavas de final da Champions League, o que torna todo esse empreendimento uma decepção retumbante, e provavelmente não haverá tempo para revertê-la.
O L’Equipe publicou os salários dos jogadores do Campeonato Francês ao fim da temporada 2021/22. Os 14 primeiros colocados da lista são do clube financiado pelo Catar. Wissam Ben Yedder, do Monaco, aparecia em 15º lugar. Dos 30 maiores vencimentos, 21 eram do PSG. Não tem como fugir. O PSG tem a obrigação de conquistá-lo. Que não o tenha conseguido duas vezes nos últimos dez anos já é uma aberração. A sua temporada vive e morre com a Champions. É declaradamente o principal objetivo e a única régua de sucesso que significa alguma coisa.
Não deu muita sorte, é verdade. Ano passado, ganhou o jogo de ida em casa, mas depois pegou aquele Real Madrid iluminado que se recusou a perder até ser campeão. Dessa vez, o Bayern de Munique. Mas aí foi menos sorte e mais incompetência. O PSG não pareceu ciente de que poderia perder a primeira colocação caso o Benfica goleasse o Maccabi Haifa, como acabou acontecendo. O confronto teoricamente mais difícil que teria pela frente se concretizou quando os bávaros apareceram no sorteio – o Benfica, aliás, caiu com o Club Brugge, da Bélgica.
E como o técnico Christophe Galtier havia dito na época, para ser campeão da Champions, é necessário ganhar dos times grandes. O Bayern de Munique é um dos maiores, mas não está em seu ano mais avassalador. Nem no seu ano mais regular. Existe uma chance real de perder a Salva de Prata, cabeça a cabeça com o Borussia Dortmund. Antes de começar, o confronto era equilibrando, com leve tendência aos alemães, em melhor momento. Depois que ele começou, ficou claro que o Bayern é um time melhor.
No Parque dos Príncipes, mostrou mais maturidade, controlou a posse de bola, finalizou mais e saiu com a vitória por 1 a 0. Nesta quarta-feira, em Munique, novamente sua solidez prevaleceu. Durante a primeira hora, talvez vencesse o duelo por pontos, impulsionado pela força da sua defesa. Mas abriu o placar com Eric Maxim Choupo-Moting, mostrou que tem mais banco de reservas do que o PSG, que nem conseguiu fazer um abafa muito perigoso, e ainda colocou prego no caixão com Serge Gnabry nos minutos finais.
Durante esses dois anos, a principal discussão era a viabilidade de montar uma equipe equilibrada com três jogadores tecnicamente excepcionais, mas que não brilham pelo trabalho defensivo. Ninguém encontrou uma solução, nem Mauricio Pochettino, nem Christophe Galtier. Se obviamente fez falta pelo que oferece com a bola, a ausência de Neymar também tirou essa dúvida da equação. E nem assim o PSG pareceu uma equipe mais inteira.
Podemos distribuir responsabilidade para todos os lados. Messi fez uma partida bastante apagada, parecida com as de algumas eliminações pelo Barcelona antes de se mudar para a França. Mbappé, recentemente coroado o maior artilheiro da história do PSG, tentou bastante, mas pouco produziu. Neymar, outra vez, estava machucado. Logo Marco Verratti, o cara que tem mais tempo de casa, falhou no primeiro gol. Coadjuvantes como Vitinha e Fabián Ruiz não entregaram nada. E, se foi azar Marquinhos e Nordi Mukiele se machucarem, é difícil entender como um clube tão rico precisa lançar El Chadaille Bitshiabu em um jogo de oitavas de final de Champions League.
Na verdade, não é tão difícil de entender. Precisa porque o PSG está no meio do caminho. Durante a maior parte da administração do Catar, a estratégia de montagem de elenco foi empilhar estrelas. No último mercado, com direito a um manifesto do presidente Nasser Al Khelaifi, disse que era a hora de montar um “time de verdade”, e foi visível a mudança na política de transferências. Mas aí temos dois problemas: agora o PSG é uma mistura de estrelas do projeto anterior, jovens que pretende desenvolver e jogadores, digamos, mais operários para exercer funções coletivas; e montar times de verdade leva tempo, e talvez esse cronograma não bata com o de Messi (35 anos) ou Sergio Ramos (36 anos).
Pode ser que os três tenham mais uma chance, mas parece improvável. Messi está nos últimos meses de seu contrato e a renovação está travada. Vira e mexe aparece alguma insatisfação de Mbappé, e o desejo de vender Neymar caiu nos canais da indústria de bastidores e rumores de transferências. Seria natural que o PSG negociasse um jogador tão caro que em seis anos não conseguiu disputar mais do que 22 rodadas de Ligue 1 em uma mesma temporada. Não foi a primeira vez que esteve indisponível no mata-mata da Champions League.
A determinação de executar um projeto de médio prazo será testada por essa eliminação porque, por exemplo, o técnico Christophe Galtier também não está mandando bem. Mesmo com as devidas ponderações, era para o seu time estar em um estágio mais avançado a esta altura. Mas, se a ideia é desenvolver um coletivo, não faz sentido interromper mais um trabalho precocemente. Se uma ou duas estrelas saírem, o PSG precisará resistir à tentação de buscar outras e manter lacunas em seu elenco.
O futuro é incerto. O certo é que, em 11 temporadas seguidas de Champions League, com um projeto ambicioso, entre os maiores faturamentos da Europa, o PSG conseguiu uma final, duas semifinais e cinco vezes parou nas oitavas. E quando fez a sua aposta mais ousada, não avançou nem da primeira fase do mata-mata. Sendo gentil, não dá para dizer que tem sido um sucesso.


