Champions League 2026/27

A fotografia que escancara a paixão às vezes deixada de lado na Champions

A Liga dos Campeões anda tão plastificada que, muitas vezes, a gente pensa que cenas como a da fotografia acima nem existem. O torneio cada vez mais ganha ares de negócio. Mas, ainda assim, continua mexendo com as paixões. Sim, algumas arquibancadas parecem ocupadas por manequins. Apesar disso, muitas torcidas existem, persistem e resistem. A cultura de estádio se mantém. É só ver o que aconteceu nesta terça em Manchester, com os fanáticos pelo Borussia Mönchengladbach aguentando a forte chuva e cantando junto com os próprios jogadores. Ou como essa senhorinha polonesa demonstrou na volta do Legia Varsóvia à fase de grupos, após 19 anos de ausência.

As impressões sobre a torcida polonesa não foram uniformes. Os ultras deram show com um belíssimo bandeirão e pirotecnia (que deve ser punida) durante a entrada dos times, mas também protagonizaram péssimas imagens ao entrarem em conflito com os seguranças do estádio. É preciso não generalizar. Não é a ignorância de alguns que diminui o fervor de tantos. A torcedora de 68 anos serve de um grande exemplo.

Krystyna Wasilewska ganhou notoriedade nas arquibancadas do Legia nas últimas três temporadas, quando uma fotografia registrando sua dedicação ao clube se viralizou. A aposentada frequenta a Zyleta (ou a tribuna norte), setor conhecido por abrigar os torcedores mais fanáticos e espontâneos. “Fico lá porque é o coração do estádio. Você sente a real atmosfera e as emoções”, declarou, em entrevista ao site Legia.net. “Na minha opinão, a atmosfera no estádio hoje é ainda melhor que antigamente, embora possamos melhorar sempre mais”.

Torcedora do Legia desde a infância, Wasilewska começou a comparecer na maioria dos jogos a partir de 2009. Costuma ir acompanhada de sua filha e seus netos. Em 2013, a idosa chegou a sofrer discriminação, mas se manteve firme: “Aquilo me aborreceu, pra dizer o mínimo. Discriminaram uma mulher que acompanha o seu amado time com todas as forças e torce melhor que vários homens. Cantamos todos juntos. Quando aconteceu, eu não queria mais torcer, estava muito triste. Mas logo percebi que estava lá pelo clube e, naquele jogo, deixei todo o meu coração, dei tudo ao Legia. Será que todos lá fizeram isso?”.

Ao que parece, o episódio hoje é apenas parte de um passado que não merece ser lembrado. Wasilewska tem memórias bem melhores para resgatar. “O estádio é minha segunda casa. A empolgação recarrega as minhas baterias para a próxima partida. O Legia deixa a minha adrenalina no máximo, sinto sempre como se estivesse no lugar certo e na hora certa”. E nesta quarta estava, para uma fotografia que serve de legado à Liga dos Campeões. Mostra aquilo que o torneio não pode abandonar: a paixão que se faz tão essencial no futebol.

kris

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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