Áustria resgata sua tradição de qualidade técnica e está de volta aos grandes torneios

Polster, Pfeifenberger, Konsel, Herzog. Todos ex-jogadores de qualidade, referências da última seleção da Áustria que se classificou para um torneio internacional com méritos próprios. Como sede, o país até esteve presente na Euro 2008, mas fez mera figuração na fase de grupos. Até a redenção acontecer nesta terça-feira, 17 anos depois. Pela primeira vez em sua história, os austríacos se classificaram nas Eliminatórias da Eurocopa. Mais do que isso, afirmaram a boa geração com um resultado expressivo: em Solna, enfiaram 4 a 1 sobre a Suécia sem qualquer piedade. Voltam a uma grande competição com vaga antecipada e a segunda melhor campanha da qualificação até o momento, atrás apenas da Inglaterra.
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Presente em sete Copas do Mundo, a Áustria não teve a mesma sorte na Eurocopa. Enquanto o torneio continental sequer existia na época do célebre Wunderteam de Sindelar e Hugo Meisl, as boas equipes das décadas de 1980 e 1990 não conseguiram avançar até as fases finais da Euro. Um feito possível só por vias tortas em 2008. Desta vez, porém, não dá para negar os méritos dos austríacos, recuperando exatamente as raízes dos times do passado, reconhecidos pela qualidade técnica. O time não perdeu um jogo sequer rumo à Euro 2016, com sete vitórias e um empate. E em um grupo razoavelmente equilibrado, que também conta com Rússia, Suécia e Montenegro entre os concorrentes. Dona da segunda melhor defesa das eliminatórias, a equipe do treinador Marcel Koller também se destaca pelos resultados fora de casa. Além de golear em Solna, também venceu em Moscou.
A grande referência do time é David Alaba. O defensor do Bayern de Munique é escalado em sua posição original e se torna dono do meio de campo, formando dupla de volantes com Baumgartlinger. Combinando liderança e toque refinado, o camisa 8 se faz importante na construção de jogo e também nas bolas paradas – não à toa, soma quatro gols e uma assistência na competição. Porém, a lateral esquerda não fica desguarnecida com a opção. O titular da posição é o capitão Christian Fuchs, por anos entre os melhores da Bundesliga no setor, quando atuava no Schalke 04, e atualmente no Leicester City.
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O Campeonato Alemão, aliás, serve de base para a seleção austríaca. As outras boas alternativas do meio estão por lá: os meias Martin Harnik e Zlatko Junuzovic. Já a Premier League também tem buscado outros destaques do país, como o meia Marko Arnautovic e o zagueiro Sebastian Prödl. No miolo da defesa, um nome que promete crescer bastante nos próximos anos é o de Aleksandar Dragovic, de 24 anos, que estourou no Basel e atualmente está no Dynamo Kiev. Enquanto isso, a maior carência se concentra no ataque. O titular é o veterano Marc Janko, que rodou até pelo futebol australiano e atualmente está no Basel. Já o seu reserva imediato é Rubin Okotie, grande promessa que nunca vingou como se esperava.
Ao menos nas eliminatórias, no entanto, o ataque não foi problema e Janko teve os seus momentos de brilho. Ainda que as virtudes da Áustria tenham se concentrado em outros setores. Com a solidez defensiva e o toque de bola refinado de seu meio de campo, os austríacos venceram boa parte dos jogos pelo placar mínimo. Também contaram com a força do time nas bolas paradas. Alaba, Fuchs e Junuzovic são cobradores de primeira linha. E têm como alvos dentro da área sete companheiros com mais de 1,80 m de altura – Janko, Arnautovic e Prödl passam de 1,90 m.
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E o desempenho rumo à Euro 2016 não parece um ponto fora da curva, mas um sinal do crescimento dos austríacos. Desde a Copa de 2002 a seleção sequer disputava a repescagem em Eliminatórias. Porém, ficou a somente três pontos de alcançar a Suécia em seu grupo para o Mundial de 2014, em chave que também contava com a Alemanha. A maior parte dos titulares tem entre 27 e 29 anos, em seu auge técnico. Enquanto isso, os mais jovens são justamente Alaba e Dragovic, com potencial de crescer ainda mais. Símbolos de uma geração que integrou de vez os imigrantes, um processo essencial em um país de população diminuta. Entre os destaques, são três jogadores de famílias refugiadas da Iugoslávia, além de Alaba, de origem nigeriana e filipina.
Olhando para os possíveis concorrentes, a Áustria corre por fora na Euro 2016. Considerando que até três times podem passar em cada grupo às oitavas de final, imaginar a seleção nos mata-matas não é loucura. Mas, além disso, o que vier será lucro. Já para a sequência do ciclo, a Copa do Mundo de 2018 se coloca como um objetivo concreto. Considerando o grupo em que os austríacos foram sorteados, não há ninguém para temer em busca da vaga direta: Gales, Sérvia, Irlanda, Moldávia e Geórgia. Também em crescente, os galeses se põem como maior obstáculo. Ainda assim, não parece nada tão difícil quanto aquilo que o país já superou para estar na próxima Eurocopa.



