Europa

A rivalidade entre Escócia e Inglaterra começou por orgulho, mas descambou ao hooliganismo

O clássico entre seleções mais antigo do mundo. Inglaterra e Escócia inauguraram o futebol internacional há 144 anos, com um amistoso sem gols disputado em Glasgow. Desde então, desenvolveram uma grande rivalidade, que perdura por tantas décadas. A falta de encontros ajudou a adormecer um pouco a rixa durante os últimos anos. As Eliminatórias da Copa, entretanto, trataram de reavivá-la: nesta sexta, os dois vizinhos duelam em Wembley, sob um contexto inédito desde que o Reino Unido deixou a União Europeia – questão sobre a qual a maioria dos ingleses votou a favor, mas os escoceses majoritariamente se opuseram. Neste momento em que os ânimos esfriaram, a política nem deve respingar tanto assim. Nada que tire, de qualquer forma, o desejo de uma nação derrubar a outra.

Em dia de clássico, resgatamos um texto de setembro de 2014, recontando o histórico da rivalidade entre Escócia e Inglaterra, diante do contexto do referendo que votaria a independência escocesa – mas que não venceu nas urnas. O final foi atualizado, conforme o que aconteceu desde então:

Como a rivalidade Escócia x Inglaterra começou por orgulho, e descambou para a violência

Por Leandro Stein

A rivalidade entre escoceses e ingleses vai muito além do futebol, e se expressa nos estádios desde pelo menos 1870. Porém, com um caráter que se transformou desde então. Se havia um ambiente amistoso nos primeiros duelos, as rixas aumentaram significantemente a partir da década de 1970, desdobrando para o hooliganismo. Por conta da violência, os jogos tornaram-se bem menos frequentes nos últimos 25 anos, pelo menos entre as seleções.  O que não diminuiu a vontade do povo de um país se sobrepor ao outro.

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Afinal, os sentimentos entre ingleses e escoceses no futebol remetem a uma supremacia que não existe há um bom tempo, quando os dois países tinham reconhecidamente as duas melhores seleções do mundo. Perder para a Inglaterra significa à Escócia se sentir em segundo dentro desse universo particular. E, em tempos de independência, também significa ser submisso a uma realidade que muita gente na nação não quer mais.

O primeiro clássico internacional da história

A criação das regras em 1863 ajudou a impulsionar o futebol. E, com muitos escoceses praticando a modalidade nas escolas públicas de Londres, que monopolizavam o jogo naqueles primeiros anos, a rivalidade floresceu naturalmente. Tanto que os primeiros confrontos entre ingleses e escoceses aconteceram antes mesmo da noção de “seleção nacional” surgir. Entre 1870 e 1872, foram cinco partidas organizadas em Londres pela Football Association.

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O primeiro amistoso aconteceu em março de 1870 no Kennington Oval, o principal estádio da Inglaterra nos primórdios – e ainda hoje utilizado para partidas de críquete. A partida contou com grande repercussão da imprensa escocesa, ainda que a seleção do norte fosse formada apenas por jogadores que defendessem clubes e universidades inglesas. Dos 11 escalados naquele jogo, apenas um havia nascido mesmo na Escócia, embora todos os outros tivessem ascendência no país. Com a bola rolando, prevaleceu o empate por 1 a 1. A Escócia abriu o placar com Robert Copland-Crawford, estudante de 17 anos, que aproveitou a estratégia do goleiro inglês Charles Alcock se juntar no ataque com a posse de bola e acertou um chute de muito longe com o gol vazio.

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Aqueles times, no entanto, ainda não tinham influência do futebol-arte desenvolvido pelos escoceses. A difícil viagem da Escócia para a Inglaterra impedia que os melhores jogadores do norte fossem a Londres. Tanto que apenas um jogador do Queen’s Park defendeu a seleção nas cinco primeiras partidas: Robert Smith, que também foi um dos fundadores e o primeiro capitão do time de Glasgow. Além dele, outras estrelas escocesas eram Henry Renny-Tailyour, craque do Royal Engineers, clube de grande reputação pelo estilo de troca de passes; e Arthur Kinnaird, que foi cinco vezes campeão da Copa da Inglaterra e futuro presidente da FA. E o time também contava com William H. Gladstone, filho do então primeiro ministro britânico.

Nestes primeiros jogos, porém, o domínio da Inglaterra foi evidente. Os Three Lions venceram três partidas e empataram outras duas, contra um adversário que não estava com sua força máxima. Os resultados passaram a deixar os escoceses descontentes pela falta de jogadores locais e o jornal The Scotchman chegou a publicar um artigo de CW Alcock, então presidente da FA, afirmando que a seleção do norte estava aberta a todos, com os convites realizados através dos periódicos mais populares da Escócia.

Quando finalmente a Escócia se sentiu representada

O passo para que o duelo entre Escócia e Inglaterra finalmente acontecesse só foi dado em 1872, com a Football Association enviando sua seleção até a região de Glasgow para um amistoso. Os escoceses, enfim, conseguiram montar um time contando com os jogadores locais, embora todos do Queen’s Park. O time do norte até tentou contar com Renny-Tailyour e Kinnaird, mas os compromissos dos dois aristocratas não permitiu que viajassem a tempo de entrarem em campo.

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Em 30 de novembro, dia de Santo André (padroeiro da Escócia), as duas equipes se enfrentaram em um campo de críquete diante de 4 mil torcedores. Os escoceses já vestiam a camisa azul marinho com o leão no peito, enquanto os ingleses estavam de branco, com seus três leões. Porém, o campo pesado atrapalhou o “futebol científico” da seleção do norte e fez prevalecer o empate por 0 a 0 – o único do clássico até 1970. Ainda assim, o clima nas arquibancadas era bastante amistoso, algo que marcou os nobres primórdios do futebol.

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A partir de então, Escócia x Inglaterra se tornou um evento anual. E a qualidade do jogo de passes desenvolvido pelos escoceses naqueles tempos fez com que o domínio se tornasse claro. De 1873 a 1887, foram dez vitórias e apenas duas derrotas em 14 confrontos. Algumas das derrotas mais humilhantes dos ingleses aconteceram neste período, incluindo os 7 a 2 engolidos no Hampden Park, em 1878. Não à toa, a superioridade da Escócia provocou os ingleses a montarem em 1882 uma seleção de amadores para desafiá-los: o Corinthian, que passou a reunir os melhores jogadores das escolas públicas de Londres e se tornou uma das bases da seleção inglesa até a década de 1910.

Durante este período, inclusive, surgiram duas inovações importantes: a International Board, que unificava as regras nos quatro países do Reino Unido, e passaria a fazer o mesmo para o resto do mundo nas décadas seguintes; e o British Home Championship, primeiro torneio de seleções da história, disputado entre as nações britânicas. Na primeira edição, disputada entre 1883/84, a Escócia provou sua hegemonia. Venceu os três jogos com dez gols marcados e apenas um sofrido, levando o primeiro de seus quatro títulos consecutivos naquele início.

Os escoceses foram os primeiros “campeões mundiais”

A ida massiva de jogadores à Inglaterra com o início do profissionalismo, em 1885, e o início do Campeonato Inglês na temporada 1888/89 acabaram influenciando a seleção escocesa. Sem contar com os craques vendidos ao sul, a Escócia viu os Three Lions virarem a situação a partir de 1888. Naquele ano, a Inglaterra goleou por 5 a 0 dentro do Hampden Park, com grande atuação de John Goodall – o artilheiro do Preston North End que, ironicamente, era filho de escoceses. A sorte só começou a mudar em 1896, quando a federação cedeu e passou a convocar os jogadores de clubes ingleses. No amistoso daquele ano, Jimmy Cowan liderou a vitória da Escócia por 2 a 1, encerrando uma invencibilidade dos rivais de 20 jogos e sete anos.

FUTURO: Dez momentos em que o futebol escocês ficou à frente do inglês

Ao mesmo tempo, começava a nascer outro tipo de disputa. A criação do British Home Championship impulsionou a ideia entre os clubes. Embora os escoceses disputassem a Copa da Inglaterra na década de 1880, a Copa da Escócia começou a ser levada a ter mais representatividade no período. E se tornaram comuns duelos entre os campeões dos dois torneios, para se definir o “campeão do mundo”. O Hibernian foi coroado em 1887, enquanto o Renton ficou com a taça em 1888.

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Não havia, porém, uma organização que tornasse esses campeonatos contínuos. O mais notável aconteceu em 1895, após a criação do Campeonato Escocês. O amistoso entre Sunderland e Hearts, os dois campeões das ligas, foi chamado de Campeonato Mundial e contou com grande repercussão da imprensa na época. Diante de 10 mil torcedores em Edimburgo, os Black Cats venceram a movimentada partida por 5 a 3. Porém, ainda que defendesse a bandeira da Inglaterra, o Sunderland não poderia ser mais escocês: todos os jogadores da equipe haviam nascido no norte da fronteira.

Mais amizade do que rixa

O maior desastre da história do clássico entre Escócia x Inglaterra aconteceu em 1902. Durante o duelo anual entre as seleções, um setor recém-construído das arquibancadas do Estádio Ibrox desabou. Mais de 600 pessoas ficaram feridas e 25 pessoas morreram. Mas, apesar do acidente, a partida continuou acontecendo, para evitar a saída em massa dos torcedores e novos incidentes. Apesar disso, o resultado foi considerado inválido e acabou remarcado para o Villa Park, um mês depois. O dinheiro arrecadado na bilheteria deste reencontro foi destinado às vítimas de Ibrox.

HISTÓRIA: Há 130 anos, o primeiro torneio de seleções do mundo

Mesmo com ingleses e escoceses disputando o posto de qual era a melhor seleção do mundo, o sentimento de irmandade britânica prevalecia acima das brigas. Além disso, a partir da década de 1920, outras seleções começaram a mostrar nível para enfrentar a dupla, fazendo com que o clássico não fosse mais visto como o principal evento do futebol internacional. Nesta época, a Escócia conquistou uma de suas vitórias mais marcantes no clássico: goleou por 5 a 1 em Londres, tornando aquele time conhecido como “Wembley Wizards”. Uma vitória que fez os escoceses serem aplaudidos por 80 mil pessoas nas arquibancadas.

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A postura soberba fez com que os dois países britânicos recusassem disputar a Copa do Mundo de 1930, ignorando o futebol praticado fora do Reino Unido. Um ano antes, a Inglaterra sofreu a primeira derrota de sua história para uma seleção de fora das ilhas, a Espanha, enquanto a Escócia viu o mesmo tabu cair em 1931. O domínio foi dos escoceses nos anos 1930, mas a hegemonia da dupla já estava ameaçada. A Segunda Guerra Mundial, que fez com que o clássico não fosse disputado entre 1939 e 1947, marcam uma quebra.

Quando o clássico passou a ser mais que um jogo

Ao fim da guerra, Escócia e Inglaterra começaram a ceder e a entrar no futebol internacional. E o clássico passou a ser cada vez mais visto como uma questão de orgulho. Em 1950, o Home British Championship também valia como classificação para a Copa do Mundo. Entretanto, mesmo com a vaga assegurada no Mundial, os escoceses preferiram declinar por terem perdido para a Inglaterra no torneio. Achavam que aquela derrota já era suficiente para apontar o melhor. Com o vexame dos ingleses no Brasil, ao menos, a seleção do note mudou seus conceitos para 1954 e foi à Copa, mesmo com a derrota no clássico do torneio classificatório. Acabou na lanterna de sua chave, goleada por 7 a 0 pelo Uruguai.

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Em 1953, os clubes da Escócia e da Inglaterra voltaram a disputar um torneio internacional, para comemorar a coroação da Rainha Elizabeth II. Em Glasgow, quatro equipes de cada país se enfrentaram em mata-matas. Curiosamente, quem se saiu campeão foi o participante mais antimonárquico possível, o Celtic, que derrotou Arsenal, Manchester United e Hibernian na caminhada pelo título.

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Foi uma das poucas alegrias da Escócia em um período de claro domínio da Inglaterra nos clássicos. De 1952 a 1961, os Three Lions venceram sete e não perderam um confronto sequer. A maior humilhação veio no último ano da hegemonia, com os ingleses enfiando 9 a 3 em Wembley. O jogo marcou a carreira do goleiro Frank Haffey, que admitiu a falha em cinco gols e mudou-se para a Austrália pouco tempo depois.

Uma humilhação que mexeu com os brios dos escoceses, que venceram os três dérbis seguintes. Já em 1967, a Escócia venceu por 3 a 2 os campeões do mundo dentro de Wembley e passaram a dizer que eles mesmos deveriam ser chamados de melhores do mundo. Já entre os clubes, no primeiro duelo dos dois países pela Copa dos Campeões, o Celtic também inflou o moral escocês ao eliminar o Leeds United de Don Revie diante de 136,5 mil pessoas no Hampden Park – ainda hoje, o maior público já registrado em competições da Uefa.

A violência interrompe o clássico anual

A partir da década de 1970, a questão do orgulho no clássico ultrapassou o limite da animosidade. Com o hooliganismo ganhando cada vez mais espaço nos estádios, as preocupações começaram sobrepor à festa nos duelos entre ingleses e escoceses. Os clubes dos dois países passaram a se encontrar com maior frequência nas competições continentais, enquanto os duelos entre as seleções concentravam as atenções e as tensões.

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Em 1977, o sinal mais claro de que a situação poderia sair fora de controle. Após a vitória da Escócia por 2 a 1 no Home British Championship, centenas de torcedores invadiram o campo em Wembley. A polícia não estava suficientemente preparada para conter a algazarra, com os escoceses quebrando as traves e invadindo os vestiários para comemorar. Não houve nenhuma briga ou confusão do tipo durante aquele jogo, mas ficava evidente que o barril de pólvora poderia explodir. Por isso mesmo, os limites às torcidas visitantes passaram a ser maiores.

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As brigas envolvendo os hooligans se tornaram mais frequentes na década de 1980. O Home British Championship teve fim em 1984, embora o duelo anual tenha se seguido na Copa Stanley Rous. Porém, os confrontos entre as firms (espécie de torcida organizada) de Inglaterra e Escócia passaram a se repetir nos dias do clássico entre as seleções. Até 1989. Cerca de um mês depois da tragédia de Hillsborough, Inglaterra x Escócia jogaram no Hampden Park. As brigas entre gangues se espalhou em algumas cidades do Reino Unido e aconteceu também nas arquibancadas. Diante do debate intenso sobre a violência das torcidas, as federações preferiram cancelar o dérbi anual. Os encontros passaram a ser mais raros, mas ainda repletos de rivalidade.

Vizinhos cada vez mais distantes

O primeiro encontro de peso entre escoceses e ingleses desde a pausa aconteceu na Liga dos Campeões 1992/93. Rangers e Leeds United se cruzaram na segunda fase, em jogo cercado de preocupações. Por causa dos episódios de hooliganismo, as torcidas visitantes não foram permitidas e os torcedores dos azuis não puderam comemorar a classificação de sua equipe em Elland Road.

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Já as seleções voltaram a se cruzar no clássico de maior importância da história, pela fase de grupos da Euro 1996. Em campo, Paul Gascoigne brilhou na vitória por 2 a 0 da Inglaterra, com as arquibancadas de Wembley sem incidentes diante do grande aparato de segurança. Já nas ruas de Londres, hooligans de diferentes clubes escoceses uniram forças em confrontos com ingleses e com a polícia. Três anos depois, foram mais dois dérbis pela repescagem das Eliminatórias da Euro 2000, com uma vitória para cada lado. Desta vez, com os incidentes bem menos intensos.

Desde a virada do século, a rivalidade ficou mais expressa nos sentimentos do que nos confrontos – seja em campo ou fora dele. O predomínio financeiro da Premier League deixou os escoceses em um nível bem abaixo de competitividade, apesar dos jogos mais frequentes pelas competições europeias. Da mesma forma, a seleção do norte também perdeu forças no cenário internacional, restando a ela secar os Three Lions na Copa do Mundo e na Eurocopa – o que, convenhamos, não foi tão difícil. Inglaterra e Escócia só voltaram a se enfrentar em 2013, em um clássico comemorativo pelos 150 anos da Football Association. E o contorno de festa ficou evidente em Wembley, com a vitória dos ingleses por 3 a 2. Já o último jogo aconteceu em novembro de 2014, sob o resultado das urnas que derrubaram a intenção de parte dos escoceses em se tornarem independentes do Reino Unido. Novo triunfo inglês por 3 a 1, dentro do Celtic Park, palco de tantas manifestações contra o poder britânico. Nas arquibancadas, nada além de provocações.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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