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‘The Battle of Britain’: 10 jogos memoráveis entre ingleses e escoceses nas competições europeias

O termo ‘Battle of Britain’ (Batalha da Grã-Bretanha, em tradução livre) pode ter diversos significados. Na Segunda Guerra Mundial, nomeou um dos episódios mais notáveis, com Royal Air Force e a Luftwaffe cruzando os céus britânicos durante três meses na década de 1940, em vitória fundamental do Reino Unido para proteger seu território dos nazistas. No cinema, a história rendeu um famoso filme dirigido por Guy Hamilton e lançado em 1969. Já no futebol, o sentido vai por outro caminho. Ele marca a rivalidade entre escoceses e ingleses pela hegemonia na ilha, que possui maior rixa entre as seleções, mas também afeta dos clubes.

VEJA TAMBÉM: Como a rivalidade Escócia x Inglaterra começou por orgulho, e descambou para a violência

A queda de braço entre os clubes locais vem desde o final do Século XIX, quando Sunderland e Hearts, então campeões nacionais, se enfrentaram para dizer “quem era o melhor do mundo”. Os amistosos continuaram recorrentes nas décadas seguintes, com alguns torneios amistosos. O principal deles foi realizado em 1953, entre quatro clubes ingleses e quatro escoceses, para celebrar a coroação da Rainha Elizabeth II. Melhor para os representantes do norte, com final vencia pelo Celtic sobre o Hibernian. A rivalidade começa a pegar fogo, porém, a partir de 1955, com o início das competições europeias.

Os primeiros jogos oficiais entre clubes escoceses e ingleses acontecem na década de 1960, já marcados pela animosidade entre os vizinhos. Entretanto, a primeira ‘Battle of Britain’, assim chamada, veio em 1970. Celtic e Leeds se cruzaram por uma vaga na decisão da Copa dos Campeões. Um jogo tão cercado de expectativas que o duelo no Hampden Park contou com 136 mil espectadores, um recorde nos torneios continentais que dificilmente será superado. Depois disso, foram outras batalhas. Às vezes, também permeadas pelas preocupações com o hooliganismo crescente na década de 1980.

Abaixo, relembramos dez grandes episódios das Battle of Britain ocorridos no passado. Nesta quarta, ocorrerá mais um, mesmo sem tantas pompas: Celtic e Manchester City se enfrentam em Glasgow pela Liga dos Campeões. Difícil imaginar equilíbrio, olhando para o atual momento entre os clubes. Ainda assim, dá para esperar que a rivalidade latente ao menos aumente um pouco a competitividade em campo.

Rangers x Wolverhampton, Recopa Europeia 1960/61

https://www.youtube.com/watch?v=L-AfOC08WXk

A primeira edição da Recopa Europeia guardou um duelo de gigantes nas semifinais. Treinado por Stan Cullis, o Wolverhampton vinha de anos dominantes no futebol inglês, com três títulos da liga e dois vice-campeonatos a partir de 1954, além da conquista da FA Cup em 1960. O Rangers, por sua vez, recuperava a hegemonia local com a geração encabeçada pelo talentosíssimo Jim Baxter. Após a vitória por 2 a 0 no Estádio Ibrox, a torcida do Rangers protagonizou uma célebre invasão no Estádio Molineux, com cerca de 10 mil visitantes entre os 45 mil presentes. O empate por 0 a 0 valeu a vaga na decisão, perdida diante da Fiorentina.

Tottenham x Rangers, Recopa Europeia 1962/63

Outra vez o bom time do Rangers teria um obstáculo na Inglaterra, nas oitavas de final da Recopa. Porém, contra um adversário mais qualificado. O Tottenham mantinha a base da potência que conquistou a dobradinha nacional em 1961, além de ser bicampeão da Copa da Inglaterra no ano seguinte. Não à toa, os Spurs demoliram os escoceses. O time de Bill Nicholson abriu a série fazendo 5 a 2 em White Hart Lane, com o artilheiro Jimmy Greaves deixando a sua marca. E mesmo diante de 78 mil torcedores no Ibrox, os londrinos suportaram a pressão para vencer novamente, agora por 3 a 2. Destaque para Bobby Smith, autor de dois gols, decretando o triunfo aos 44 do segundo tempo. O Tottenham terminaria campeão daquela edição da Recopa, derrotando o Atlético de Madrid na final.

Liverpool x Celtic, Recopa 1965/66

De novo pela Recopa, de novo valendo um lugar na final. Naquele momento, tanto Liverpool quanto Celtic contavam com equipes célebres. Após quase uma década na segunda divisão, os Reds de Bill Shankly passaram a dominar as taças na Inglaterra durante um breve período nos anos 1960. Já na Escócia, os Bhoys de Jock Stein começavam a emendar o seu eneacampeonato nacional e logo dariam um passo maior na Europa, com a Champions de 1967. Entretanto, naquela semifinal, o Liverpool preponderou. Apesar da derrota por 1 a 0 em Glasgow, gol de Bobby Lennox, os Reds se refizeram em Anfield. Tommy Smith e Geoff Strong marcaram os gols da vitória por 2 a 0, sob forte chuva. Na decisão, porém, os ingleses acabaram superados pelo Borussia Dortmund na prorrogação.

Celtic x Leeds United, Champions 1969/70

https://www.youtube.com/watch?v=J1kPiQY02TY

A mãe de todas as batalhas. Dois esquadrões indiscutíveis, em anos nos quais o peso dos britânicos no cenário continental era gigante. O Celtic, naquele momento, vinha se quatro títulos nacionais, além da conquista na Champions três anos antes, batendo a poderosa Internazionale na final. Do outro lado, o Leeds de Don Revie se acostumara a ocupar as cabeças no Inglês e vinha também de um triunfo europeu recente, a Taça de Feiras (futura Copa da Uefa) em 1968. O confronto gerava enormes expectativas. Cumpridas apenas ao lado escocês. O gol precoce de George Connelly, logo no primeiro minuto, deu a vitória ao Celtic dentro de Elland Road. Já em Glasgow, Billy Bremner, que na juventude fora impedido pelo pai de se juntar aos Bhoys por causa do sectarismo da Old Firm, abriu o placar para o Leeds e calou os 136 mil presentes. Contudo, o Celtic ainda levaria sua torcida ao delírio com a virada por 2 a 1, tentos de Bobby Murdoch e John Hughes, assim como uma atuação soberba de Jimmy Johnstone, maior ídolo da história do clube. Na final, todavia, os alviverdes sucumbiriam ao Feyenoord.

Liverpool x Hibernian, Copa da Uefa 1975/76

https://www.youtube.com/watch?v=S6aFDyKlD50

O Hibernian teve a honra de ser o primeiro representante britânico nas competições europeias, na edição inaugural da Copa dos Campeões de 1955/56. Tempos nos quais os alviverdes eram a grande potência escocesa. Os Hibs só voltaram a se aproximar das glórias em meados da década de 1970, quando bateram na trave duas vezes na liga e passaram a frequentar novamente as competições europeias. Só não deram muita sorte em 1975, ao pegarem logo na primeira fase o Liverpool, que caminhava ao seu primeiro título continental. O Hibernian até surpreendeu os Reds com vitória por 1 a 0 em Edimburgo, mas não suportaram a pressão de Anfield. John Toshack anotou três gols e o triunfo por 3 a 1 garantiu a passagem do time de Bob Paisley.

Liverpool x Aberdeen, Champions 1980/81

https://www.youtube.com/watch?v=HiNYIK3zA80

Depois de dois anos nos quais o Nottingham Forest conquistou o troféu da Copa dos Campeões, o Liverpool procurava reconquistar a sua hegemonia no torneio continental. Os Reds começaram batendo o Oulun Palloseura, da Finlândia, antes de pegarem o Aberdeen nas oitavas de final. Os Dons tinham pouca tradição internacional à época, mas vinham com um time excelente, treinado pelo então promissor Alex Ferguson e que acabara de quebrar o jejum de 25 anos no Campeonato Escocês. Em campo, os alvirrubros contavam com nomes notáveis como Jim Leighton, Gordon Strachan, Willie Miller e Alex McLeish. Mesmo assim, não foram páreos ao esquadrão de Bob Paisley. O Liverpool venceu as duas partidas, incluindo um 4 a 0 em Anfield que contou com gol de Kenny Dalglish, e caminhou rumo à taça. Em um jogo cercado de tensões, aquele é considerado o início da rivalidade de Ferguson com os Reds. Após a goleada, o treinador ameaçou multar qualquer jogador que risse no ônibus durante a viagem de seis horas de volta a Aberdeen. Ninguém quis se aventurar a desafiá-lo.

Aberdeen x Ipswich Town, Copa da Uefa 1981/82

Um pouco mais maduro, o time de Sir Alex Ferguson voltava a enfrentar um adversário inglês nas etapas iniciais das copas europeias. E, embora atualmente represente pouco, o Ipswich Town contava com um timaço na virada para a década de 1980, treinado por outra lenda, Sir Bobby Robson. Os Blues eram os atuais campeões da Copa da Uefa e tinham sido vice-campeões nacionais na temporada anterior, além de contarem com vários jogadores de seleção no 11 inicial – como os ingleses Terry Butcher, Paul Mariner e Mick Mills, os holandeses Frans Thijssen e Arnold Mühren, e os escoceses Alan Brazil e John Wark. Nem assim conseguiram passar pela forte equipe dos alvirrubros. O Aberdeen arrancou o empate por 1 a 1 na Inglaterra e Bobby Robson disse que “não jogariam melhor do que aquilo na volta”. Pois os comandados de Fergie ganharam por 3 a 1. Só não foram longe, caindo para o forte Hamburgo nas oitavas.

Manchester United x Dundee United, Copa da Uefa 1984/85

https://www.youtube.com/watch?v=pAuBBnicsog

Durante a década de 1980, o futebol escocês estabeleceu o que costuma ser chamado de ‘New Firm’. Enquanto Rangers e Celtic viviam anos de baixa, Aberdeen e Dundee United assumiram o posto de grande confronto nacional, tanto pela dominância nos títulos quanto pela própria rivalidade que as torcidas criaram. E ambos os clubes conseguiram se destacar na Europa. Se o Aberdeen foi campeão da Recopa Europeia em 1983, o Dundee United chegou a ser vice da Copa da Uefa em 1987. Caminho de quem se acostumou aos torneios continentais nos anos anteriores, sem a mesma sorte. Nas oitavas de final da Copa da Uefa em 1984, pegou o Manchester United de Ron Atkinson. E foram dois jogos movimentados. Em Old Trafford, empate por 2 a 2. Os Red Devils precisaram reverter a situação em Tannadice Park, com gols decisivos de Mark Hughes e Arnold Mühren no triunfo por 3 a 2.

Rangers x Leeds, Champions 1992/93

Os clubes ingleses haviam retornado às competições europeias apenas na temporada anterior, resultado da suspensão de cinco anos pelos incidentes em Heysel. A Premier League dava os seus primeiros passos e os temores por novos episódios de hooliganismo eram enormes. Neste contexto, Rangers e Leeds se cruzaram na edição inaugural da Liga dos Campeões. O Rangers soube capitalizar em meio ao período de vacas magras dos ingleses, levando alguns destaques do país para estabelecer o eneacampeonato escocês a partir do fim dos anos 1980. Já aquele Leeds representa a última força do velho futebol inglês, campeão nacional em 1992 – curiosamente protagonizado pelos escoceses Gary McAllister e Gordon Strachan, além de Eric Cantona, Lee Chapman e Gary Speed. O Rangers, todavia, teve pouco trabalho para se impor. O ídolo Ally McCoist marcou gols nas duas vitórias por 2 a 1. Os Teddy Bears cairiam na fase de grupos que serviu de qualificação à final, um ponto atrás do campeão Olympique de Marseille.

Celtic x Liverpool, Copa da Uefa 2002/03

O último duelo eliminatório realmente relevante entre ingleses e escoceses aconteceu nas quartas de final da Copa da Uefa. O Celtic vivia um excelente momento, dirigido por Martin O´Neill, e já começara a campanha com duas vitórias sobre o Blackburn. O maior momento dos Bhoys na Inglaterra, entretanto, estava por vir. O Liverpool de Gérard Houllier tinha tarimba internacional, campeão do torneio em 2001 em final épica contra o Alavés, além de Michael Owen em grande fase. Os Reds começaram arrancando um ótimo resultado no Celtic Park, empate por 1 a 1. Mas não seria tão simples desqualificar a equipe de Henrik Larsson, Stiliyan Petrov, Neil Lennon, Paul Lambert e outros ídolos alviverdes. Os escoceses venceram por 2 a 0 em Anfield, com tentos de Alan Thompson e John Hartson. Chegariam ainda à final, na dolorosa derrota para o Porto.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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