Nem titular, nem descartável: ‘Montanha-russa’ de Lunin no Real Madrid ganha novo capítulo
Sempre cobiçado no mercado e nunca totalmente prestigiado no Bernabéu, goleiro ucraniano volta ao centro da cena após nova lesão de Courtois
Andriy Lunin vive, há anos, uma espécie de paradoxo no Real Madrid. Nunca foi tratado como dono da posição, mas tampouco como um simples reserva descartável. Em um clube acostumado a trabalhar com hierarquias muito rígidas, o goleiro ucraniano construiu um lugar raro: o de alguém que quase sempre esteve à sombra de Thibaut Courtois, mas que, ao mesmo tempo, jamais deixou de ser visto como valioso.
Aos 27 anos, Lunin atravessa agora mais uma curva importante dessa trajetória irregular. Com a lesão no quadríceps direito de Courtois, o camisa 13 volta a receber uma oportunidade de peso justamente no momento em que sua carreira em Madri parecia, mais uma vez, estacionada.
Não é novidade. Sempre que o cenário se abre, ele responde. E é justamente essa capacidade de aparecer bem quando acionado que explica por que, temporada após temporada, segue despertando interesse no mercado — e por que o Real insiste em segurá-lo.
São oito anos de vínculo com o clube espanhol, seis temporadas efetivamente ligadas ao elenco principal e três empréstimos no meio do caminho, por Leganés, Valladolid e Oviedo. O percurso nunca foi linear. Houve momentos de ascensão, dúvidas sobre permanência, incômodos com a falta de espaço e até uma sensação concreta de que a saída poderia, enfim, acontecer. Ainda assim, o desfecho quase sempre foi o mesmo: Lunin ficou.
Segundo o jornal “AS”, fontes próximas ao ucraniano resumem o cenário de maneira direta: “As propostas sempre chegam”. E elas voltaram a aparecer também na atual temporada. Neste momento, porém, nem o estafe do jogador nem o Real Madrid trabalham com a possibilidade de separação. O desfecho segue em aberto, mas o presente recoloca Lunin em uma vitrine que ele conhece bem: a de substituir um dos melhores goleiros do mundo.
Sair do Real Madrid já pareceu o caminho mais lógico para Lunin

Se hoje a permanência de Lunin soa natural, houve um período em que a ruptura pareceu bastante possível. O momento de maior tensão aconteceu após a temporada 2023/24, justamente a melhor do arqueiro com a camisa do Real Madrid.
Naquele ciclo, o ucraniano foi peça importante nas conquistas de LaLiga e Champions League depois da grave lesão de Courtois, assumiu a meta em definitivo à frente de Kepa e entregou números que sustentavam sua candidatura a algo maior: 31 jogos, 32 gols sofridos, 96 defesas e 82% de aproveitamento em intervenções.
Para Lunin, não era somente uma boa sequência. Era a confirmação de que já tinha nível para ser titular de um grande clube europeu. E foi nesse contexto que ele passou a olhar o mercado com mais atenção. Arsenal e Chelsea estiveram entre os interessados, além de outros clubes da Premier League.
O desejo do goleiro era claro: encontrar um projeto em que tivesse status e minutos de forma mais estável. O problema é que nenhuma investida ofereceu garantias suficientes — e nenhuma convenceu o Real Madrid a liberá-lo.
O clube merengue via ali um ativo estratégico. Não somente por qualidade técnica, mas por perfil. Lunin já havia mostrado que podia aceitar longos períodos de espera e, ainda assim, responder em alto nível quando exigido. Para um elenco que briga por tudo, ter um reserva confiável na posição mais sensível do time nunca foi detalhe. Por isso, mesmo quando o goleiro cogitou seriamente uma mudança de rota, a diretoria manteve posição firme.
O desconforto do ucraniano, porém, era real. Ele chegou a travar a renovação contratual e externou ao clube a insatisfação com o status intocável de Courtois. A frustração aumentou ainda mais com o desfecho da Champions: após ter sido decisivo ao longo da campanha, Lunin acabou fora da final contra o Borussia Dortmund por conta de uma gripe — Courtois já havia recuperado a titularidade após se recuperar de lesão.
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Lunin renovou, perdeu espaço e agora ganha outra chance de ouro

A solução encontrada, no fim das contas, foi menos emocional e mais estratégica. Com contrato perto do fim à época, o Real Madrid não queria correr o risco de perder um goleiro valorizado sem retorno financeiro. Do outro lado, Lunin também entendia que sair de graça, sem uma oportunidade ideal na mesa, poderia ser um movimento precipitado.
Depois de conversas entre seu agente, Jorge Mendes, e o CEO merengue, José Ángel Sánchez, as partes chegaram a um acordo: renovação até 2030, aumento salarial e uma espécie de pacto de confiança mútua.
A decisão também passou por fatores extracampo. Lunin estava confortável em Madri, adaptado à cidade e estabilizado ao lado da esposa e do filho. O novo contrato ofereceu segurança e tempo. Mas não resolveu o dilema central de sua carreira: como crescer em um ambiente onde o titular absoluto continua sendo Courtois?
Na prática, a renovação não significou mais espaço. Na temporada seguinte (2024/25), o goleiro voltou a ter participação reduzida, com apenas 14 partidas e muitas delas de menor peso competitivo. A frustração voltou a aparecer em outro golpe simbólico: mesmo após atuar em toda a campanha da Copa do Rei, ele foi deixado no banco na final contra o Barcelona.
Nem isso, contudo, esfriou o interesse externo. O Galatasaray, por exemplo, foi um dos clubes que buscaram informações, e outras sondagens também chegaram ao Real por meio de Jorge Mendes. Todas foram recusadas.
Internamente, o Real Madrid valoriza não apenas o desempenho de Lunin quando é acionado, mas também a evolução que ele apresentou nos últimos anos. Nesse processo, o trabalho com Luis Llopis, preparador de goleiros do clube, é visto como importante. O ucraniano amadureceu em aspectos que antes geravam mais dúvidas, como o jogo com os pés e a presença na bola aérea.
É justamente aí que mora a essência da trajetória de Lunin em Madri. Ele nunca conseguiu derrubar Courtois da condição de dono da posição. Mas também nunca permitiu que o Real Madrid o tratasse como um nome secundário qualquer.
Entre frustrações, propostas recusadas, renovações estratégicas e atuações que mudam a percepção a cada nova sequência, sua história no Bernabéu segue em movimento. E agora, com mais uma chance de ouro nas mãos.



