Copa do Rei

Em 2004, no ano das zebras, o Zaragoza desbancou o galático Real Madrid e conquistou sua sexta Copa do Rei

Time de Sávio e David Villa chocou o mundo ao vencer o time madrilenho em final inesquecível

Para quem acredita em astrologia, o mundo em 2004 parece ter sofrido alguma alteração muito drástica nos astros e planetas, tendo em vista a quantidade de zebras que assolaram o mundo nas principais competições do mundo. Do São Caetano campeão paulista até o Once Caldas vencendo a sua primeira Libertadores, tivemos resultados surpreendentes com jogos emocionantes e trajetórias inesquecíveis há 20 anos. Hoje vamos contar como o Zaragoza, equipe que contou com o brilho de Sávio ex-Real Madrid, conquistou a Copa do Rei diante do galático time do Real Madrid em final espetacular e com uma virada sensacional da equipe da região do Aragón.

Aproveitando que a Copa do Rei deste ano está prestes a terminar, com Athletic Bilbao e Mallorca decidindo quem será o vencedor no próximo dia seis de abril, vamos relembrar os detalhes da competição disputada em 2004, que teve como o grande vencedor a equipe do Zaragoza em mais uma grande zebra da história do futebol mundial.

Contexto histórico antes da conquista da Copa do Rei

Voltando um pouquinho mais no tempo, na temporada 2002/2003, o Zaragoza se tornou o vice-campeão da segunda divisão espanhola, perdendo o título para o Real Murcia. Na mesma época a equipe chegou apenas até as oitavas de final da mesma Copa do Rei, sendo eliminado pelo Alavés após perder pelo placar de 2 a 1 em pleno Estádio La Romareda. A temporada 2003/2004 não começou nada bem para o time da região autônoma de Aragón já que a equipe sofreu em um primeiro momento no campeonato espanhol e chegou a flertar com a zona de rebaixamento na competição.

Paco Flores, então treinador do Zaragoza na época, acabou demitido e substituído por Víctor Múñoz. Logo que chegou, o novo comandante do time implementou uma mudança tática que seria fundamental para o sucesso do clube na temporada. Antes mesmo do advento do 4-2-3-1 que virou moda no mundo inteiro a partir de 2010, o técnico da equipe montou o esquema de jogo em um formato parecido, com dois volantes protegendo a defesa, mas um deles sempre saindo mais, uma linha de três meias e um atacante mais adiante.

Sem a bola, o time defendia com duas linhas com quatro jogadores de forma bem compactada. Com ela, o time variava mais uma vez a sua formação, alternando entre o 4-3-3 e o 4-1-4-1. Com a nova comissão técnica montada, a expectativa do Zaragoza era permanecer na primeira divisão e tentar brigar por alguma coisa na Copa do Rei. O elenco não era nada badalado e tinha alguns medalhões. O principal destaque do time era o brasileiro Sávio, vindo do Real Madrid, mas que em sua primeira temporada não teve o impacto esperado na equipe.

Savio disputou 34 jogos com a camisa do Zaragoza em 2003/2004, marcando apenas três gols e dando uma assistência. Apesar de não ter sido o meia dos sonhos em seu primeiro momento no clube, a experiência internacional do jogador foi importante para que a equipe tivesse o equilíbrio necessário para permanecer na elite do futebol espanhol e chegasse longe na Copa do Rei, que era o grande objetivo do clube na época.

Além do brasileiro, um tal de David Villa começava ali uma trajetória de sucesso no futebol espanhol e mundial, sendo um dos artilheiros do clube na temporada, disputando 46 jogos e marcando 21 gols. Outro jovem destaque daquele time era o zagueiro Gabriel Milito, na época com 24 anos e que defendeu a camisa do Zaragoza por quatro temporadas antes de ser transferido para o Barcelona.

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O início do sonho do Zaragoza

A caminhada do Zaragoza na Copa do Rei da temporada 2003/2004 diante do Mirandés no dia oito de outubro de 2003. O clube não precisou passar pela fase preliminar da competição e entrou diretamente na segunda fase. Na estreia, um jogo tranquilo e vitória por 2 a 1 que garantiu o time de Aragón na fase seguinte. Em seguida, no dia 17 de dezembro, o adversário da equipe treinada por Víctor Múñoz foi o Salamanca. Este foi o primeiro grande desafio do time do Zaragoza na competição, já que precisou da prorrogação para vencer pelo placar de 3 a 2 e seguir em frente no torneio.

Nas oitavas de final, mais um desafio de peso, o embalado Real Betis. A partir desta fase, os classificados seriam definidos em jogos de ida e volta e diante do time da Andaluzia, o Zaragoza demonstrou muita classe, vencendo o primeiro jogo por 3 a 1 e empatando na volta por 1 a 1. Para boa parte da imprensa na época, ali seria o fim da trajetória do time dos jovens David Villa e Milito, já que nas quartas de final da competição, o adversário seria nada mais nada menos do que o Barcelona, um dos clubes mais poderosos do mundo naquele período.

Um dos maiores trunfos do time treinado por Víctor Múñoz era a dedicação durante a fase de defesa. O esquema de jogo utilizado pelo técnico cobrava dos jogadores uma intensidade muito grande na marcação para que o time não ficasse desprotegido pelos lados. Caso fosse aplicado com dedicação e aplicação, dificilmente os adversários tinham algum espaço para conseguir entrar em seu sistema defensivo. Foi assim, que o Zaragoza venceu o Barcelona, em pleno Camp Nou, pelo placar de 1 a 0 e levou a decisão da vaga na semifinal da Copa do Rei para o seu estádio.

Em La Romareda, o empate por 1 a 1 eliminou o então favorito Barcelona da competição e deixou atônitos os principais veículos de imprensa na Espanha na época, que passaram a enxergar o time do Zaragoza como um dos times postulantes ao título da competição. A semifinal do torneio foi a reedição das oitavas de final da temporada 2002/2003, com o time de Víctor Múñoz encarando o mesmo Alavés que o eliminou antes. Desta vez foi diferente. Após empate sem gols em casa e 1 a 1 na casa do adversário, o critério do gol fora deu ao Zaragoza a chance de disputar a grande final da Copa do Rei contra o galático Real Madrid de Figo, Beckham, Zidane, Roberto Carlos e treinado pelo português Carlos Queiroz. 

A histórica vitória diante do Real Madrid

O Real Madrid teve um desfalque importantíssimo para aquela decisão. Ronaldo Fenômeno sofreu um estiramento na coxa e não esteve presente na final e o time madrilenho sofreu com a sua ausência, perdendo criatividade e poder de fogo no setor ofensivo, já que Zidane e Raúl tinham muita categoria e qualidade com a bola, mas não tinham uma referência de profundidade no último terço e acabaram encaixotados na marcação do Zaragoza.

O “franco-atirador” do confronto aproveitou que uma das maiores estrelas do time adversário não estava em campo para fazer um jogo com muita personalidade nos primeiros dez minutos. Marcando a saída de bola e fazendo uma intensa pressão, o Zaragoza tentou se impôr em campo, mas aos poucos o Real Madrid foi se achando na partida e começou a se livrar da marcação do adversário. Beckham cobrou falta aos 13 minutos e obrigou o goleiro Laínez a fazer uma grande defesa.

O goleiro do Zaragoza trabalhou dois minutos mais tarde após chute de Figo da entrada da área. Aos 19 minutos, o português lançou Zidane que saiu na cara de Laínez que mais uma vez salvou a meta de sua equipe e até aquele momento ia se tornando o nome da final. Mas Beckham tratou de abrir o placar do jogo em uma bela cobrança de falta aos 24 minutos.

A desvantagem no placar fez o time do Zaragoza acordar na partida. Sávio cruzou para a área, o zagueiro Solari do Real Madrid falhou feio e Dani mandou para as redes, deixando tudo igual no Estádio Olímpico de Montjuïc, em Barcelona. O jogo ficou muito equilibrado, com os dois times se propondo a atacar, proporcionando um belo espetáculo ao torcedor presente na Catalunha.

Beckham quase marcou mais um gol de falta aos 39 minutos, mas mandou a bola na trave de Laínez. O Zaragoza respondeu seis minutos mais tarde após mais uma falha da defesa madrilenha. Guti acabou derrubando Villa na área, a arbitragem marcou pênalti e o próprio atacante cobrou para desempatar o jogo ao final do primeiro tempo. Na volta para a etapa complementar, o Real Madrid passou a atacar mais e chegou ao gol de empate em mais uma bola parada.

Logo aos três minutos, Roberto Carlos, ao seu melhor estilo, mandou uma bomba no canto esquerdo do goleiro do Zaragoza, que desta vez não teve o que fazer. A partir daí, o Real Madrid tomou o controle do jogo, mas Laínez, em noite inspirada, foi fundamental para segurar o placar e levar o jogo para a prorrogação. O time madrilenho ainda teve um jogador a mais após a expulsão do meia Cani, mas mesmo assim, não conseguiu suplantar a forte defesa do Zaragoza que passou a se defender e esperar pelo fim do tempo regulamentar.

Na prorrogação, logo aos dois minutos, Zidane arriscou de longa distância, o goleiro do Zaragoza tinha a sua visão encoberta, mas no puro reflexo conseguiu evitar o terceiro gol do Real Madrid no jogo. Quatro minutos mais tarde, o gol do título do time de Aragón. Galleti, que havia saído do banco de reservas, chutou com muito efeito e a bola entrou no canto do goleiro César, fechando o marcador e concretizando o sexto título da Copa do Rei ao time do Zaragoza.

É bem verdade que o time treinado por Víctor Múñoz não tinha nenhum craque. Mas o elenco do Zaragoza campeão da Copa do Rei de 2003/2004 era recheado de jogadores sul-americanos, que entendiam a importância da competição para o clube e utilizaram da malemolência e ginga característica do continente para conquistar este título histórico. Os brasileiros Sávio e Álvaro os argentinos Milito, Galleti e Ponzio, o paraguaio Toledo e o peruano Rebosio entraram para a história do time em uma conquista que será lembrada para sempre.

David Villa, um menino de 23 anos na época foi o grande artilheiro do time com quatro gols marcados e ajudou o Zaragoza a conquistar o seu objetivo de permanecer na elite do futebol espanhol. Na Liga, os gols marcados pelo atacante contribuíram para que o Zaragoza encerrasse aquela temporada de 2003/2004 na 12ª em um momento mágico para os seus torcedores.

Foto de Lucas de Souza

Lucas de SouzaRedator

Lucas de Souza é jornalista formado pela Universidade São Judas em São Paulo. Possui especialização em Marketing Digital pela Digital House, e passagens pelos sites Futebol na Veia e Futebol Interior.

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