Os episódios de racismo se tornam cada vez mais frequentes no futebol europeu. E, enquanto as autoridades se mostram extremamente permissivas com os responsáveis pelos crimes, diferentes jogadores são vítimas da intolerância. Neste domingo, o caso repulsivo aconteceu durante o clássico ucraniano, entre Shakhtar Donetsk e Dynamo Kiev. Taison foi o alvo principal dos insultos, que também afetaram outros jogadores negros em campo,com menção a Dentinho. O ponta mostrou o dedo do meio para as arquibancadas e chutou a bola em direção aos ultras. Mas, enquanto os jogadores do Dynamo demonstraram seu apoio ao brasileiro, a arbitragem não teve a mesma sensibilidade. Taison terminou expulso por se revoltar contra o racismo.

O clássico era realizado em Kharkiv, onde o Shakhtar manda os seus jogos nos últimos anos. A equipe da casa abriu o placar aos 18 minutos, em escanteio cobrado por Mateus Martins que Sergey Krivtsov desviou de cabeça. Já no início do segundo tempo, Dentinho relatou ao árbitro os insultos racistas. Mykola Balakin avisou o quarto árbitro e, conforme o protocolo da Uefa, os alto-falantes do estádio deram a primeira notificação aos racistas. Como tantas vezes, pouco adiantou.

O estopim aconteceu cerca de dez minutos depois, aos 30 do segundo tempo. Enquanto Taison disputava uma bola no ataque, em área próxima ao setor visitante, ouviu mais insultos. Ficou revoltado com os ataques e agiu de maneira parecida a Mario Balotelli no Verona x Brescia da última semana. Mostrou o dedo do meio e chutou a bola contra os responsáveis pelo crime. Dentinho foi outro que vociferou contra os ultras.

Os jogadores do Dynamo ficaram ao lado dos brasileiros e conversaram com as vítimas do racismo. Alguns dos atletas visitantes também pediram para os racistas se acalmarem e até foram ao alambrado falar com os preconceituosos – alguns dos ultras, inclusive, ameaçavam invadir o campo. Apesar disso, segundo a imprensa ucraniana, a discriminação seguiu. Taison chorou, assim como Dentinho, ambos abraçados por companheiros e adversários. Então, o árbitro deu o segundo passo do protocolo da Uefa e retirou os times do campo por cinco minutos.

Ao final da pausa, o clássico seria retomado. Porém, o árbitro Mykola Balakin resolveu mostrar o vermelho direto para Taison. O ponta sorriu ironicamente e de novo teve o apoio dos atletas do Dynamo. Mesmo com um jogador a menos, o Shakhtar segurou a vitória e chegou aos 40 pontos. A equipe abriu 12 pontos de vantagem na liderança do Campeonato Ucraniano. O Dynamo é o quarto colocado, 13 pontos atrás dos principais rivais.

Técnico do Shakhtar, o português Luis Castro foi um dos que mais se indignou com os ataques. Depois da partida, ele se recusou a dar coletiva de imprensa e manifestou sua posição: “Boa noite. Hoje, meus jogadores mais uma vez mostraram o seu caráter. Quero apoiar absolutamente todos que sofrem com o racismo e esses rapazes que foram vítimas hoje. Manifestações de racismo são simplesmente inaceitáveis. Foi e sempre será uma vergonha para todos. Juntos, precisamos lutar contra isso – a cada dia, a cada minuto e a cada segundo”.

O Shakhtar também publicou uma nota oficial, em que se opõe “categoricamente a qualquer manifestação de racismo, xenofobia e intolerância” e garante que “sempre irá proteger os seus jogadores”. Em suas redes sociais, o clube ainda postou uma mensagem de apoio a Dentinho e Taison. “Vocês são os melhores, estamos com vocês”, pontuou o clube. Além disso, Corinthians e Internacional também ofereceram força aos pratas da casa.

O Dynamo Kiev usou as redes sociais para dizer “não ao racismo”. Porém, o técnico Oleksiy Mykhaylychenko afirmou que “não prestou atenção no que aconteceu, durante o calor do jogo”. Já o goleiro Georgiy Bushchan respondeu que “todos viram o que aconteceu”, se contrapondo aos ultras de maneira breve. Torcedores chegaram até a distribuir adesivos nas arquibancadas tirando sarro das campanhas do Dynamo contra o racismo, sob o mote “Like to Racism”.

As expectativas, agora, ficam sobre qual será a postura do Dynamo contra os responsáveis pelo crime e também o que a federação ucraniana decidirá. Está mais do que claro como as medidas recentes e o protocolo da Uefa são inócuos. Não é a aplicação de uma multa ou o fechamento dos portões que inibirão os racistas. Ao menos, a decisão do Dynamo de não ignorar o caso oficialmente já é um começo. A gravidade do problema na Europa, entretanto, exige muitíssimo mais. Sobretudo, a responsabilização.