O que está (realmente) em jogo na Copa do Mundo da TV brasileira em 2026
Primeira edição sem domínio da Globo tem mais opções gratuitas ao mesmo tempo em que parte da Copa fica exclusiva da internet
A Copa do Mundo que começa nesta quinta-feira (11) e será realizada nos Estados Unidos, México e Canadá não carrega apenas o fato de ser a maior de todos os tempos em participantes (48) e partidas disputadas (104), mas também a revolução mais importante nos direitos de transmissão do futebol no Brasil.
Dona de tudo o que foi possível ter no Brasil desde a Copa do Mundo de 1970, quando integrou um pool de emissoras ao lado da TV Tupi (Rede de Emissoras Associadas), Band e Record (Rede de Emissoras Independentes), a Globo exerceu um domínio ainda maior a partir da edição de 2002, quando passou a comprar os direitos com a Fifa, sem intermediários, e ditou quem poderia ou não exibir o torneio no país.
Agora isso mudou. A Globo, ainda na época da pandemia, renegociou o contrato com a Fifa e perdeu metade da competição em 2026. E a outra metade que ainda cabe à maior empresa de comunicação do Brasil sequer é exclusiva. Caminho aberto para a parceira da entidade máxima do futebol mundial, a LiveMode, ocupar esse espaço com a sua CazéTV.
A CazéTV será o único canal no Brasil a contar com 100% dos jogos da competição.
A Globo, que anunciou em 2023 ter metade literal, ou seja, 52 jogos com todos os duelos do Brasil garantidos, encontrou mais cinco jogos pelo caminho desde então. Há elementos variáveis no contrato que aumentam a conta, que pode chegar a 57 partidas, cenário de Brasil disputando o terceiro lugar.
Apesar de ter passado os últimos dois anos divulgando que seriam 54 ou 55, a Globo passou a falar a poucos dias da Copa que tem metade dos jogos das oitavas de final e mais o jogo do Brasil. Ou seja, nove partidas na segunda fase, cinco nas oitavas e três nas quartas de final, mas apenas se tiver a seleção brasileira em todas essas fases. Só a semifinal não entra nesse critério. Uma delas é exclusiva da CazéTV de qualquer forma.
A LiveMode também conseguiu fazer valer o pacote que é da Globo e revendeu 32 desses jogos, um por dia, para um consórcio formado por SBT e N Sports. Enquanto o canal pago tem oito anos de existência, contando desde 2025 com Galvão Bueno no quadro de sócios, a emissora fundada por Silvio Santos não transmitia uma Copa desde 1998.
Nesse cenário, a Globo perde o poder de transmitir o que quiser. Na primeira fase da fase de grupos, por exemplo, não terá as estreias de Alemanha, Espanha, Argentina e Portugal. Todos esses jogos serão exclusivos da CazéTV. E o que está em jogo, então, com tudo isso? As seguintes discussões:
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Disputa de narrativas sobre audiência
O torcedor e fã do tema de mídia esportiva pode se preparar para ser bombardeado nos próximos dias por notas de audiência. Milhões de espectadores na TV Globo, parcela relevante de público da TV aberta no SBT, milhões de dispositivos conectados na CazéTV no YouTube. Contas que somam plataformas diferentes. Todos os detentores de direitos da Copa vão querer sair por cima e mostrar que fizeram a melhor transmissão e cobertura nos números também.
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A medição do Ibope, que não é capaz ainda de refletir os novos tempos de pessoas conectadas por celulares, tem problemas com transmissões simultâneas em plataformas diferentes, como alertou o jornalista Gabriel de Oliveira em sua coluna Canal D, do jornal O Dia. Isso pode afetar SBT e N Sports, que terão exatamente o mesmo sinal, com a mesma narração, nos 32 jogos.
A CazéTV pode ser prejudicada também por ter parcela relevante de sua audiência em dispositivos móveis, como smartphones e tablets. A Globo, é claro, vai se aproveitar de tudo isso para surfar em seu alcance tradicionalmente muito maior na TV linear, tanto aberta como fechada.
Por outro lado, as métricas que a CazéTV vai oferecer ao mercado são aquelas que o YouTube sempre divulga e que nós mesmos podemos acompanhar vendo uma live e conferindo o total de aparelhos conectados. A plataforma faz uma estimativa de quantas pessoas diferentes podem estar assistindo, o que nem sempre é o número de aparelhos (um celular normalmente é visto por uma pessoa só, mas uma TV pode ser assistida em uma sala por uma família inteira).
O trabalho da cobertura de mídia esportiva será dar os pesos devidos e não apenas noticiar sem contexto os dados oferecidos pelos canais.
Sucesso do modelo do YouTube
A CazéTV é um sucesso tão inegável que a própria Globo correu atrás três anos depois e lançou a sua GE TV para competir. E chegou tão tarde, apesar de também ter um canal bem-sucedido atualmente, que não poderá exibir a Copa do Mundo no YouTube. Os direitos nesta plataforma são exclusivos da LiveMode. A GE TV vai mostrar a Copa com 32 jogos selecionados dentro do pacote de até 57 partidas da Globo, mas apenas no Globoplay e nos canais lineares próprios.
Nos quase quatro anos de existência no ar, a CazéTV colecionou grandes números e transmissões dos principais eventos do mundo. Dos maiores do futebol, só faltou mesmo a Champions League. Estão ou estiveram no canal que leva a marca do streamer Casimiro Miguel torneios como Brasileirão, Paulistão, Libertadores e Sul-Americana (em highlights), Copa do Mundo de 2022, Copa do Mundo Feminina de 2023, Olimpíadas, Europa League, Conference League, Eurocopa, Carioca (jogos de Vasco e Botafogo com a Lei do Mandante há alguns anos), Francês, Alemão, e vem aí o Espanhol.
Mas uma Copa do Mundo com jogos exclusivos, sem qualquer plataforma Globo transmitindo, será um grande desafio. E a tendência é que o desafio seja superado. A Globo continuará sendo a Globo. Terá seus milhões de espectadores na TV aberta, no sportv, na GE TV e no Globoplay. E vai transmitir poucos jogos a menos do que a Copa tinha no total em 2022 (64). A CazéTV já é mais conhecida e tende a fazer números bem melhores que no Qatar, quando teve apenas 22 jogos não exclusivos.
Espaço para concorrência na TV aberta
Desde 2014, quando a Band comprou os direitos sublicenciados de transmissão da Copa do Mundo da Globo pela última vez, o maior evento de futebol do planeta não tinha mais de um canal exibindo os jogos na TV aberta.
Nos últimos anos, o público da mídia tradicional passou a conviver com mais opções de futebol, mas o que pegou de verdade foram transmissões exclusivas, como a Libertadores no SBT entre 2020 e 2022, a Champions no mesmo canal desde 2021, a Copa América de 2021 também no canal da família Abravanel, o Paulistão e o Brasileirão na Record (este último com jogos que a Globo não pode transmitir, mesmo sendo detentora da competição também), entre outros casos.
Mas transmitir o mesmo jogo da Globo sempre foi uma tarefa complicada. Liderar é impossível, mas ‘roubar’ uma fatia considerável do público da TV aberta é não apenas uma possibilidade, como a grande meta que o SBT terá na Copa do Mundo de 2026. A começar pelo fato de que seu narrador nos jogos do Brasil será Galvão Bueno.
Galvão foi a voz titular dos jogos do Brasil nas Copas de 1990 a 2022 (fez um Brasil x Argélia em 1986 substituindo Osmar Santos por problemas de saúde). Após deixar a Globo, foi substituído por Luis Roberto, que acabou sendo diagnosticado com uma neoplasia na região cervical a poucos meses da Copa. Everaldo Marques assume a missão no lugar dele com os jogos da seleção brasileira.
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Galvão deve fazer até 10 jogos na Copa do SBT. Os outros 22 são de Tiago Leifert, que narra a Champions e a Sul-Americana na emissora desde o começo de 2025. Quanto esse projeto poderá render de audiência na disputa direta com a Globo? Qual a parcela de público que vai trocar a maior emissora pela tradição da voz de Galvão quando a camisa amarela estiver em campo?
Em 2014, já sem Luciano do Valle, que morreu quase dois meses antes de começar a Copa, a Band ainda conseguia marcar cerca de 10 pontos no Ibope em São Paulo, enquanto a Globo ficava na casa dos 30 a 35. Hoje a TV aberta tem uma audiência menor no geral, tudo dá menos no Ibope do que há 12 anos, do jornal à novela, passando pelo BBB.
Mas o que importa é a proporção. Se a estreia contra a Croácia naquela Copa rendeu 37,5 pontos na Globo e 9,2 na Band, foquemos na fatia de cada uma no jogo. A Band conseguiu abocanhar quase 20% dos 46,7 pontos que a partida deu no total. Hoje, existe a CazéTV como outra opção gratuita levando com ela parte da audiência que era da TV aberta. Do que sobrou (a maior parte, diga-se), quanto o SBT vai conseguir levar em relação à Globo?
Os limites no YouTube
A GE TV manteve a pose e vai transmitir a Copa do Mundo com sua equipe montada no segundo semestre do ano passado, mesmo não tendo direitos para fazer isso no seu canal principal, o do YouTube.
A N Sports, que deixou de ser apenas um canal pago para ser um hub de transmissões também gratuitas na mesma plataforma, com eventos do porte de Taça de Portugal, Copa da Holanda, Campeonato Brasileiro Feminino, torneios de base e da Conmebol, estaduais em Santa Catarina e Amazonas, entre outros, ficará restrita na parceria com o SBT a reexibir o sinal na TV por assinatura. Nada no YouTube.
Tudo isso porque a CazéTV detém a exclusividade total nesta plataforma. O que vai sobrar para as outras? Compensa o investimento? Isso é mais um detalhe que está em jogo a partir de hoje na Copa do Mundo.