Copa do Mundo

Datafolha mostra que desafio da CazéTV na Copa será falar a língua de todas as gerações

Canal de Casimiro já rivaliza com a Globo entre os jovens, mas precisará atingir a todos os públicos ao ter jogos exclusivos no Mundial

A última pesquisa Datafolha divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo transformou em dados o que já era percepção de quem cobre e acompanha o mundo da mídia esportiva e dos direitos de transmissão no Brasil: a CazéTV já rivaliza com a TV Globo entre os mais jovens, mas ainda é pouco citada entre os mais velhos.

No levantamento, que ouviu 2.004 pessoas acima de 16 anos em 137 municípios de todo o Brasil entre os dias 7 e 9 de abril, os entrevistados foram questionados sobre o interesse e por qual meio pretendem assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2026. 

Na amostragem geral, que representa a população brasileira, a TV Globo apareceu com 38% das intenções de consumo do Mundial. A CazéTV já é a segunda colocada, com 10%, estando à frente numericamente de outra emissora aberta, o SBT, que tem 9%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. 

Danilo celebra gol da Seleção
Danilo celebra gol da Seleção (Foto: IMAGO / Fotoarena)

Houve ainda 5% de menções ao sportv, canal de TV paga da Globo, 3% ao YouTube, plataforma de vídeos do Google onde só a CazéTV vai poder transmitir, 2% para “Internet” e “no Google”, outros 2% para o Premiere (PPV da Globo que não exibirá a Copa), mais 2% para a Record (que também está fora do Mundial), e ainda houve citações à GE TV (que só poderá transmitir com imagens dos jogos dentro do Globoplay e nos canais lineares), Band e ESPN (que não mostrarão o torneio). 

No recorte por idade, no qual a margem de erro sobe para cinco pontos percentuais, a TV Globo aparece com 34% das intenções de consumo entre os jovens de 16 a 24 anos. A CazéTV tem 29%, ou seja, um empate no limite da margem de erro, mas que pode ter uma vantagem do canal de Casimiro e da LiveMode, pois o termo “YouTube” aparece com 6% individualmente. O SBT também tem 6%. O sportv, nessa faixa, apenas 4%.

Já entre quem tem 60 anos ou mais, a TV Globo fica com 39%, e a CazéTV despenca para 1%. O YouTube nem pontua, o que demonstra a dificuldade que as novas plataformas têm para atingir os mais velhos. O SBT, que certamente é uma emissora viva na memória deste público que viu a emissora nascer pelas mãos de Silvio Santos em 1981, chega aos 10% nessa faixa. O sportv tem 5%. Mas o problema com a falta de informação transparece nos 5% da Record, que passou a ser mais vista com Paulistão e Brasileirão e certamente está no imaginário do público da TV aberta, mas não tem os direitos da Copa.

Torcedores do Brasil antes de amistoso contra a Croácia
Torcedores do Brasil antes de amistoso contra a Croácia. Foto: IMAGO / StringersHub

Puxando para a faixa de 45 a 59 anos, a CazéTV sobe para 4%, mas bem aquém dos 40% da TV Globo, e não chega ao empate técnico com os 10% do SBT. Entre quem tem 35 e 44 anos, a TV Globo mantém os 40%, mas CazéTV e SBT empatam em 9%. E na faixa entre 25 e 34, a TV Globo tem 37% contra 15% da CazéTV (mais 8% do YouTube) e 8% do SBT.

Tudo isso devidamente informado, vamos ao que interessa: a pesquisa Datafolha mediu a intenção de consumo, mas o povo brasileiro talvez não esteja totalmente familiarizado com a divisão de direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2026. 

Para os jogos do Brasil, a pesquisa é muito importante e deve ditar os rumos da audiência, porque todos serão exibidos por TV Globo, SBT, CazéTV/YouTube, sportv, GE TV e ainda pela N Sports, que não pontuou. Mas essa não é realidade da Copa inteira. 

Somente a CazéTV terá os direitos de transmissão dos 104 jogos da Copa do Mundo, o que significa que 50 partidas serão exclusivas. A TV Globo, em contrato que inclui sportv, Globoplay e GE TV, terá 54. Os 32 jogos da parceria SBT/N Sports serão sempre escolhidos dentro do pacote de 54 da Globo. 

Isso significa que a CazéTV terá um desafio enorme e uma oportunidade histórica.

Para o público mais jovem, que já promove o canal digital de Casimiro e da LiveMode a um empate com a maior emissora de TV do continental, a oportunidade de se consolidar de vez com jogos que a Globo não terá. Exemplos: os dois primeiros de Portugal na fase de grupos, a estreia da Argentina, e jogos de Alemanha, Espanha, entre outros. 

 Luis Felipe Freitas, Casimiro Miguel, Igor Rodrigues e Fernando Campos da Cazé TV
Luis Felipe Freitas, Casimiro Miguel, Igor Rodrigues e Fernando Campos da Cazé TV. Foto: IMAGO / Brazil Photo Press

Quem quiser passar o dia inteiro ligado no YouTube da CazéTV no app da TV e deixar as lives direcionando umas para as outras não terá nem trabalho para procurar onde o jogo vai passar. No máximo vai precisar usar o controle remoto da televisão quando as partidas forem simultâneas na última rodada da fase de grupos. 

No celular, é só pesquisar pelo jogo e achar a live que certamente será exibida no primeiro resultado. É a rotina dos mais jovens em um canal que fala a linguagem deles e construiu sua base de 26 milhões de inscritos nesse estilo e jeito de ser.

Mas o desafio vem com as camadas mais velhas. Será que os maiores de 60 anos vão procurar o jogo exclusivo da CazéTV no YouTube? Ou vão desistir de assistir e esperar o próximo que tiver transmissão na Globo e no SBT? Essa faixa etária é a líder em “não pretendo assistir”, com 38%, acima da faixa nacional de 31% de desinteressados.

Mesmo assim, se esse público acima de 60 anos estiver muito interessado em procurar e achar os jogos que não estarão na Globo, o que vai opinar sobre a transmissão no estilo CazéTV? 

É espetacular o quanto a CazéTV conseguiu se posicionar e mudar o mercado, forçando inclusive a concorrência a se mexer, como foi o surgimento, no ano passado, da GE TV, uma resposta da Globo após três anos vendo a LiveMode dominar essa camada na internet. Mas boa parte dessa história foi construída se colocando como alternativa, e não única opção, ao público. 

Torcida brasileira em jogo da Seleção no Maracanã
Torcida brasileira em jogo da Seleção no Maracanã. Foto: IMAGO / Fotoarena

Os 22 jogos da Copa do Mundo de 2022 transmitidos pela CazéTV, que chegou a bater 7 milhões de aparelhos conectados em Brasil x Croácia, nas quartas de final, estavam também na TV Globo, no sportv e no Globoplay. O Paulistão, em 2026, teve na CazéTV os mesmos jogos que estavam na Record, expediente que também é visto no Brasileirão. 

O público que vê TV aberta e gosta de uma transmissão mais tradicional não precisa recorrer ao canal de Casimiro no dia a dia. Nos jogos desses dois campeonatos citados, tem Cleber Machado, nome familiar por mais de 30 anos de Globo, narrando na Record. Nas Olimpíadas de Paris-2024, a TV Globo também transmitia. 

Os principais momentos de choque entre o público mais tradicional e a CazéTV, porém, vieram em eventos exclusivos ou majoritariamente do canal, como os Jogos Pan-Americanos de 2023, partidas de futebol europeu, etc. Não é fácil, e isso nem se deveria exigir do torcedor mais tradicional, trocar o clima mais engessado da TV linear pelas transmissões do canal da LiveMode. 

Embora tenha grandes narradores, como Luisinho, Luiz Alano, Raony Pacheco, e excelentes comentaristas do porte de Rafael Oliveira, Ju Cabral, Marcus Carvalho, Fernando Campos, entre outros, o famoso clima “Resenha” que toma conta do pré, do intervalo e do pós muitas vezes é “insuportável” para quem já não está mais na faixa dos 16 aos 24 anos, talvez nem dos 25 aos 34. Sem falar no desvio de atenção com a janela de react, que mostra a equipe de transmissão no meio do jogo rolando, a exibição de vídeos dos internautas em tela dividida, etc. 

Tudo isso acontece dentro do jogo da CazéTV e parte de um estilo que a LiveMode construiu com muita competência e eficiência, mas totalmente diferente do que a faixa acima dos 35 anos cresceu consumindo e vai ser obrigada a consumir em pelo menos 50 jogos da Copa do Mundo. 

É altamente provável que vejamos uma “guerra” de narrativas nas redes sociais entre fãs da CazéTV defendendo o modelo do canal e esse público reclamando aos montes assim que houver a percepção de que um jogo não estará passando nem na Globo, nem no sportv, e nem no SBT. 

O primeiro será Coreia do Sul x Tchéquia, no dia 11 de junho, às 23h, o segundo vai ser Canadá x Bósnia e Herzegovina, no dia 12, às 16h, mas certamente o primeiro choque será com a estreia da Alemanha diante de Curaçao no dia 14 de junho, um domingo, 14h, a faixa horária em que muita gente ligará a TV no almoço de família para ver a Copa.

Para atenuar esse problema, a CazéTV precisa expandir um pouco mais sua linguagem, sem perder sua essência. Pelo menos nos 50 jogos exclusivos, uma atenção mais especial ao público mais amplo será muito bem-vinda. Esta coluna não pede que o canal de Casimiro vire um negócio engessado e chato.

Mas seria muito interessante ampliar e abraçar especificamente nos jogos exclusivos esse novo público que muitas vezes vai conhecer o trabalho de uma marca que ainda não tem nem 4 anos no ar, mas já vai para a segunda edição de Copa invertendo o papel histórico de ‘dona’ do evento com a Globo.

Foto de Allan Simon

Allan SimonColaborador

Jornalista e criador de conteúdo. Canal de mídia esportiva no YouTube com +164 mil inscritos, e de história do futebol com +25 mil

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