Xhaka e a impossibilidade de ser neutro: O rosto de uma Suíça que carrega outras histórias
Capitão dentro de campo, símbolo fora dele: Granit Xhaka joga sem separar futebol do que o moldou
Para celebrar a primeira Copa do Mundo com 48 times e colocar o nosso leitor mais no ritmo de Copa, a Trivela iniciou uma série diária com um perfil para que você conheça um pouco mais sobre um jogador de cada uma das 48 seleções.
Veja os outros perfis já postados aqui.
Nem todo jogador chega a uma Copa do Mundo só com a própria carreira nas costas. Em alguns casos, o que aparece em campo vem misturado com uma história que começa muito antes — e que não fica do lado de fora quando a bola rola. Granit Xhaka é um desses jogadores.
Capitão da Suíça há anos, presença constante em grandes torneios, Xhaka construiu uma trajetória sólida no futebol europeu. Jogou em ligas importantes, assumiu protagonismo em clubes grandes, atravessou momentos de pressão e conseguiu se manter relevante. Mas, no caso dele, isso não explica tudo. A história começa antes.
Filho de uma família kosovar-albanesa, o meio-campista do Sunderland, que faz boa temporada na Premier League, cresceu na Suíça, mas dentro de um contexto que vinha de outro lugar. Os pais deixaram a antiga Iugoslávia no início dos anos 1990, em um momento em que o país já dava sinais claros de ruptura. A crise econômica se aprofundava, o nacionalismo ganhava força e a região caminhava para um conflito aberto.
Antes disso, o pai, Ragip Xhaka, já havia sido preso em Belgrado, em 1986, por participar de manifestações contra o regime comunista e defender mais autonomia para Kosovo, região de maioria albanesa. Foi condenado a seis anos de prisão e passou três anos e meio detido.
Quando foi libertado, a decisão da família foi rápida: sair. Em 1990, deixaram o país e recomeçaram a vida na Suíça. Primeiro veio Taulant, o irmão mais velho. Depois, Granit.
Ele já nasceu em Basel, em outro cenário. Mas a história que veio antes nunca ficou distante. Não era algo abstrato — fazia parte do que ele ouvia, do que moldava a família. E isso aparece em campo.
Xhaka nunca foi um jogador neutro. Está sempre dentro do jogo — falando, cobrando, reagindo. Não passa despercebido. E, quando o ambiente pesa, dificilmente se afasta. Pelo contrário: costuma se impor.
Xhaka é o jogador que não evita o confronto
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A formação no Basel já indicava esse perfil. Meio-campista técnico, com boa leitura de jogo, mas também com personalidade forte. Não demorou a dar o salto para o Borussia Mönchengladbach, onde se firmou em nível mais alto.
No Arsenal, viveu o período mais exposto da carreira. E também o mais instável. Virou capitão, entrou em conflito com a torcida, perdeu a braçadeira depois de reagir a vaias ao ser substituído. Foi um momento de ruptura claro — daqueles que costumam encerrar ciclos.
Mas ele ficou. E, com o tempo, reconstruiu o próprio espaço. Voltou ao time, ganhou outra função, mais avançada, passou a participar mais do jogo ofensivo. A intensidade continuava ali, mas com mais controle. Quando saiu, já não era visto da mesma forma.
No Bayer Leverkusen, encontrou um ambiente mais estável. Virou peça central em um time competitivo, com papel claro dentro da estrutura. Fez parte da temporada 2023/24, a mais especial da história do clube, que culminou nos títulos da Bundesliga e da Copa da Alemanha.
O contexto mudou, o papel também, mas o traço principal seguiu ali. Xhaka nunca deixou de ser um jogador que se envolve — com o jogo e com tudo o que vem junto dele.
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Quando o jogo carrega mais do que futebol
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Na seleção da Suíça, Granit Xhaka nunca foi apenas mais um nome da geração que recolocou o país em protagonismo competitivo. Ele virou símbolo. Não só pelo tempo de casa ou pela braçadeira, mas pelo tipo de presença que carrega — de quem entende que, em certos jogos, o contexto não termina na linha lateral.
Isso ficou mais evidente nos encontros com a Sérvia, especialmente na Copa do Mundo de 2018 e na Copa do Mundo de 2022. Não eram partidas comuns. Para Xhaka — assim como para outros jogadores suíços com origem kosovar-albanesa — havia uma camada inevitável de significado. História familiar, memória de conflito, identidade. Tudo coexistindo com o jogo.
Em 2018, a comemoração com o gesto da águia albanesa, feita ao lado de Xherdan Shaqiri, transformou um gol em debate global. Não era só futebol. A reação foi imediata, com punições da Fifa e discussões sobre limites entre política e esporte. Xhaka, como de costume, não recuou. Explicou sem pedir licença, sustentou o gesto sem tentar suavizar o que ele representava.
Quatro anos depois, no reencontro no Catar, o clima seguiu carregado. Menos simbólico na comemoração, mais tenso no campo. Provocações, discussões, um jogo fragmentado emocionalmente. E, de novo, Xhaka no centro de tudo — não necessariamente pelo desempenho técnico, mas pela forma como ocupa esses espaços de atrito.
No fim, quando a Suíça entra em campo, Granit Xhaka leva tudo junto — o jogo e o que vem antes dele. Contra a Sérvia isso fica mais visível, mas não é exceção. É padrão. Ele nunca tentou ser outra coisa, nunca fez muita questão de suavizar.