‘Trump pode fazer da Copa um inferno’: O que há por trás dos afagos da Fifa a presidente dos EUA
Chefe da Casa Branca deve roubar os holofotes no sorteio dos grupos do Mundial e provavelmente será premiado em troféu da 'paz'
O sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2026 nesta sexta-feira (5), nos Estados Unidos, terá aspectos além do campo. A Fifa cederá pela primeira vez o prêmio “FIFA da Paz — O Futebol Une o Mundo” e tudo indica que o vencedor será o presidente norte-americano Donald Trump em mais um aceno político da entidade.
Gianni Infantino, líder da entidade máxima do futebol, tem se aproximado de Trump desde que ele assumiu a Casa Branca, em 20 de janeiro deste ano. Foram visitas ao Salão Oval, presenças em viagens internacionais do governo americano e até uma defesa para que o chefe de estado americano vencesse o Prêmio Nobel da Paz “por suas ações decisivas” no cessar-fogo da guerra entre Israel e o Hamas.
A fala ocorreu em outubro e um mês depois a Fifa anunciou a criação de sua premiação da “paz” para “homenagear indivíduos que realizaram ações excepcionais e extraordinárias em prol da paz e, ao fazê-lo, uniram pessoas em todo o mundo”, como escreveu a entidade em comunicado em 5 de novembro.
O prêmio parece um afago a Trump após o Nobel da Paz ter ficado com Maria Corina Machado, opositora da ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela, e é mais um capítulo de uma relação benéfica para os dois, conforme apontaram especialistas em política internacional consultados pela Trivela.
— Em um mundo cada vez mais instável e dividido, é fundamental reconhecer a contribuição excepcional daqueles que trabalham arduamente para acabar com conflitos e unir as pessoas em um espírito de paz. O futebol representa a paz e, em nome de toda a comunidade global do futebol, o “Prêmio FIFA da Paz – O Futebol Une o Mundo” reconhecerá os enormes esforços daqueles que unem as pessoas, trazendo esperança para as futuras gerações — disse Infantino.
Parceria Trump-Infantino é, sobretudo, sobre negócios para um lado e imagem para o outro
Ter o Fifa da Paz fortalecerá para Trump o discurso que “acabou com oito guerras”, como costuma repetir em entrevistas — número considerado exagarado por professores de geopolítica, apesar da importância no fim de alguns conflitos –, e será muito exibido pelo presidente dos Estados Unidos.
— O Trump gosta muito do anúncio, né? Então o fato da Fifa o premiar é algo que certamente ele vai usar muito, que vai ficar repetindo, vai falar mais uma vez como é que ele é importante e tal — apontou o professor em política internacional e mestre em relações internacionais Tanguy Baghdadi à reportagem.
Já José Victor Ferro, mestre em estudos latino-americanos pelas universidades de Salamanca, Estocolmo e Sorbonne, destaca o desejo do governo do republicano em ter mais relações internacionais, o que inclui entidades esportivas, em momento que o país norte-americano vê seu papel como maior potência global ser contestado.
— Mais do que um consolo, a premiação serve para cada vez mais solidificar essa aliança que é mutuamente benéfica a Trump e Infantino — inicia o especialista, também pesquisador do Institut Barcelona de Estudis Internacionals (IBEI), do Observatorio de Regionalismo (ODR) e doutorando em Ciência Política na Universitat Pompeu Fabra (UPF).
— O presidente americano tem um interesse gigantesco de construir e conseguir apoios internacionais, quanto mais apoio e mais atores ele conseguir colocar do lado dele, melhor. E esses apoios internacionais podem ser muito bem de atores não estatais, como é o caso da Fifa. Os Estados Unidos passam por um momento de questionamento da sua hegemonia internacional.
Para ele, é uma relação também “ideacional” pelo alinhamento dos dois em querer se cercar de figuras influentes.
— No fundo, tanto Infantino como Trump respeitam e querem estar rodeados de pessoas com poder e dinheiro. Isso se vê na vida privada e na gestão política do presidente dos EUA. […] Eles vão para onde está o poder, seja aquisitivo ou político. Com quem tem dinheiro ou poder, eles falam mais manso, de modo mais brando. E isso serve tanto para os negócios econômicos quanto políticos de ambos.

Pelo lado da Fifa, as razões da aproximação está em expandir o futebol em território que o esporte é pouco difundido, como reitera Ferro.
— É um mercado de mais de 300 milhões de pessoas, e o Infantino tem um plano justamente em abrí-lo, que, apesar de resistente, representa uma grande possibilidade de negócios — argumenta.
A questão “business” também é citada por Baghdadi, mas o professor expõe ainda a instabilidade que pode ser causada pelas políticas rígidas do governo americano em relação a imigração. Tendo uma relação próxima, talvez até de bajulação, pode evitar maiores problemas com delegações de países sensíveis aos EUA, como o Irã, classificado ao Mundial.
— A Fifa nesse momento está muito preocupada porque vai ter uma quantidade enorme de turistas nos Estados Unidos. O governo americano pode arrumar muito problema. Trump pode impedir a entrada de atletas. Imagina a entrada de uma delegação, de visitantes e até de integrante de governo de um país inimigo dos EUA, isso pode se tornar um problemaço. Se alguém é impedido de entrar no país, isso é uma vergonha para a própria Fifa — disse o especialista.
— É por isso que o Gianni Infantino está o tempo todo com o Trump, ele pode fazer essa Copa do Mundo um inferno — completou o professor que também é comentarista no canal “Globonews”.
Segundo o site “The Athletic”, o Fifa da Paz foi criado por Infantino sem sequer consultar o Conselho da entidade máxima do futebol, composto por oito vice-presidentes e outros 28 membros eleitos pelas associações filiadas. Alguns deles só souberam da premiação por meio do comunicado à imprensa, o que fortalece a ideia de que foi feito para o presidente dos Estados Unidos.
A bajulação tem sido tão extrema que o sorteio da Fifa, além da premiação, será todo rodeado de artistas e celebridades ligadas a Trump. A banda Village People encerrará a cerimônia com uma versão da canção mundialmente conhecida “Y.M.C.A.”, que virou o tema da campanha presidecial do político no ano passado.
O local do sorteio também teve participação do presidente americano. A Fifa queria fazer em Las Vegas, mas, após o republicano anunciar que seria em Washington, capital americana, a entidade revelou que o evento será realizado no John F. Kennedy Center for the Performing Arts, reformado pelo republicano, que também é presidente do centro cultural.
Há o receio que se essa subsmissão extrema cause maiores problemas no Mundial. O governo americano, mais de uma vez, ameaçou mudar as sedes que sejam em estados governados por democratas.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Trump pode representar a paz tendo com suas decisões políticas?

O atual presidente americano se elegeu com um discurso forte contra a imigração e tem colocado em prática isso com cenas que chocam nas redes sociais pela agressividade do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês) contra as pessoas que supostamente estariam de forma ilegal nos EUA.
Há relatos de cidadãos americanos presos por engano, perseguições que aterrorizam comunidades latinas e muito mais que mostram possíveis violações dos direitos humanos. Todo esse contexto seria suficiente para questionar um prêmio da paz ao republicano, mas ainda há mais controvérsias na política externa, aponta José Victor Ferro.
— Se é um prêmio que premia aqueles que fomentam a paz e que têm, por ideal, ser completamente contra a violência, promover os direitos humanos, os direitos laborais, os direitos iguais, o Trump, na verdade, representa ao contrário de tudo isso, tanto internamente nos EUA, pelas suas políticas anti-imigrações, de flexibilização aos direitos trabalhistas, como no exterior — aponta.
— Sobretudo pela completa aversão que o governo Trump tem pelo direito internacional, demonstrado pelo apoio a governos que o violam, que é o caso de Israel [na guerra contra Palestina e Irã], da Rússia, que flagrantemente invadiu um estado soberano [Ucrânia] e o plano de paz do Trump para a guerra visa satisfazer os interesses, justamente, dos russos.
— Mas também é importante pontuar que o próprio governo Trump pouco se importa com o direito internacional pelos barcos que bombardeou [por suposto combate ao tráfico de drogas] nos mares do Caribe, próximo a Venezuela. Os Estados Unidos não têm direito nenhum de atacar essas embarcações, eles não são a polícia do mundo. Não há nenhum tipo de lei internacional que garante ao determinado estado agir militarmente em águas internacionais.
Para Fifa, fica a contradição de, ao mesmo tempo que se coloca como um agente contra o preconceito em mensagens nas competições e programas, se alia a um governo com políticas contra essas minorias, aponta José Paulo Florenzano, professor do departamento de antropologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e coordenador do curso de Ciências Sociais.
— A gestão atual de Gianni Infantino repete a estratégica histórica adotada pelos sucessivos presidentes da FIfa. No passado como no presente, a instituição mantém a aliança com regimes autoritários. O prêmio que agora institui não tem compromisso algum com a paz, a democracia, os direitos humanos. Trata-se, sobretudo, de criar uma cerimônia para premiar os agentes envolvidos na rede de poder tecida por Infantino — expõe.
— Nesse sentido, a contradição do “prêmio da paz” não poderia ser mais flagrante, pois, de um lado, a Fifa promove campanhas contra o racismo e incentiva o futebol de mulheres; de outro lado, porém, estabelece alianças com governos comprometidos com a militarização da sociedade, o ataque às instituições democráticas, a prática do racismo, do sexismo e da homofobia, a perseguição aos imigrantes, a repressão às minorias — completa.

Tanguy Baghdadi argumenta, novamente, que toda a política faz parte de tornar as coisas mais facéis para realização da Copa do Mundo. “A Fifa não é uma organização internacional como a ONU, é uma empresa privada que busca negócio”, diz.
— Vai ter Copa na Arábia Saudita em 2034, a entidade se aproximar do país asiático como se fosse o padrão de direitos humanos, de paz [o que não é, segundo organizações da área]. Se tiver que dar premiação de paz, de direitos humanos para o Mundial funcionar bem, vai ceder. É muito sobre negócios e estabilidade e fazer com que o negócio Copa do Mundo funcione de maneira perfeita — finaliza.
A ONG Human Rights Watch enviou uma carta à Fifa questionando os critérios do prêmio, se haveria uma lista de candidatos e quem seriam os juízes para definir o vencedor. A instituição não retornou.
— Este chamado ‘Prêmio da Paz da Fifa’ parece não ter indicados, critérios, jurados ou processo. Portanto, também não terá legitimidade — criticou Minky Worden, diretora de iniciativas globais da Human Rights Watch.



