Fifa estreita laços com Trump como resposta a críticas por Mundial e Copa nos EUA
Presidente Gianni Infantino tem se aproximado da família Trump durante eventos oficiais
Com as atenções voltadas para o Mundial de Clubes, o relacionamento entre Fifa e Estados Unidos parece estar se fortalecendo cada vez, apesar do alerta feito por parte das organizações ligadas aos Direitos Humanos e críticas dos torcedores e clubes às políticas anti-imigração de Donald Trump.
Diante de um torneio que foi iniciado em meio às tensões e protestos contra as restrições adotadas pelo presidente, a Federação Internacional de Futebol inaugurou, na segunda-feira (7) um escritório na Trump Tower, em Nova York, arranha-céu construído pelo presidente dos EUA.
Durante a cerimônia, o troféu do Mundial de Clubes foi exposto no saguão, em evento que contou com a presença do presidente da Fifa, Gianni Infantino, Ronaldo e Eric Trump — filho de Donald e vice-presidente executivo da Trump Organization.
— A Fifa [é] uma organização global [e] para ser global é preciso ser local, é preciso estar em todos os lugares, então precisamos estar em Nova York. Não apenas para a Copa do Mundo de Clubes deste ano e para a Copa do Mundo do ano que vem, precisamos estar em Nova York também, considerando a localização dos nossos escritórios. Obrigado, Eric [Trump], obrigado a todos. Obrigado, claro, também ao presidente Trump — afirmou Infantino no evento.
A Fifa não especificou quais funcionários ou departamentos ficarão sediados em Nova York. Entretanto, de acordo com o “The Guardian”, a decisão acompanha a inauguração, em 2024, de um escritório da Fifa em Miami, que abriga a divisão jurídica da organização e alguns funcionários responsáveis pela organização do Mundial de Clubes e da Copa do Mundo do próximo ano.

Ainda segundo o jornal, parte dos funcionários da sede global da Fifa em Zurique foram transferidos para os EUA para trabalhar em Miami. Já a inauguração do novo escritório dá continuidade aos esforços da Fifa e de Infantino para parecerem publicamente próximos do presidente dos EUA.
O mandatário da Fifa, inclusive, chegou a descrever o seu relacionamento com Donald Trump como “absolutamente crucial” em uma reunião com o International Football Association Board, realizada em fevereiro último.
Entre os esforços para demonstrar a aproximação com o chefe do executivo dos Estados Unidos estão as recentes aparições públicas conjuntas entre Infantino e Trump. Durante reunião no salão oval, chegou a anunciar a criação de uma força-tarefa para a Copa do Mundo enquanto entregou a Trump o troféu do Mundial de Clubes.
A taça, inclusive, continua em exposição no espaço presidencial para todos os eventos agendados por Trump no local. Em seguida, Infantino esteve presente na primeira reunião pública da força-tarefa para a Copa do Mundo, na qual sentou-se ao lado de Trump e do vice-presidente JD Vance.
Acusação da Uefa e alerta de entidades voltadas aos direitos humanos
O presidente da Fifa também participou da turnê de Trump ao Oriente Médio este ano -– uma viagem que o atrasou para o congresso da Fifa no Paraguai. A ação irritou os delegados da Uefa, que abandonaram o evento em protesto. A entidade europeia chegou a acusar Infantino de colocar “interesses políticos privados” à frente de suas responsabilidades na Fifa.
— O congresso da Fifa é um dos encontros mais importantes do futebol mundial, onde todas as 211 nações do mundo se reúnem para discutir questões que afetam o esporte em todo o mundo. Ter o calendário alterado de última hora para o que parece ser simplesmente para atender a interesses políticos particulares não presta nenhum serviço ao jogo e parece colocar seus interesses em segundo plano — declarou a entidade que rege o futebol europeu.
A relação de Gianni Infantino com Trump chamou a atenção de organizações voltadas aos direitos humanos. A “Human Rights Watch” exigiu que Infantino revelasse o propósito específico e os detalhes de sua viagem.

E a cobrança cresceu sobre a escolha da Fifa pelos Estados Unidos para receber a Copa do Mundo de Clubes e a Copa do Mundo de 2026 cresceu.
De acordo com o “The Athletic”, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, recebeu uma carta assinada por mais de 90 grupos da sociedade civil, expressando “profunda preocupação” com as políticas de imigração e medidas de fiscalização nos EUA e o impacto no Mundial de 2026.
A carta pede que a Fifa use a sua influência para exigir que o governo do presidente Donald Trump garanta os direitos fundamentais aos milhões de torcedores de futebol que estão interessados em assistir à competição.
As entidades estariam solicitando que a Federação tentasse, publicamente, reverter políticas e práticas que representem riscos tanto para os participantes estrangeiros do torneio quanto para as comunidades de migrantes que vivem nos EUA.
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Em meio à relação com Trump e EUA, Fifa corre atrás de chefe de direitos humanos
As organizações civis também questionaram o posicionamento da Fifa diante das suas políticas de direitos humanos.
— A política identifica especificamente que “garantir a segurança de pessoas que estão participando ou estão envolvidas, ou afetadas pelos eventos da Fifa pode impactar certos direitos humanos fundamentais, como liberdade de movimento, expressão e reunião” como um dos cinco principais riscos de direitos humanos da Fifa — afirma o comunicado em referência à instituição.
Outro ponto levantado pelos grupos refere-se à sequência de países que receberam a Copa do Mundo masculina nas últimas edições, questionando o presidente sobre o seu compromisso com os direitos humanos após a realização do torneio no Catar e na Rússia, além da realização da edição de 2034 na Arábia Saudita.
Em meio à crise, a Fifa anunciou que está contratando um Chefe de Direitos Humanos e Antidiscriminação. De acordo com um anúncio da vaga, disponibilizado em seu site, o candidato deve ter 10 anos de experiência como executivo de direitos humanos e “demonstrar altos padrões éticos e integridade pessoal, além de experiência em trabalho com pessoas marginalizadas e vulneráveis”.
Entre as principais tarefas estará a de garantir a comunicação ativa e transparente do trabalho da Fifa relacionado aos direitos humanos.
A inauguração do novo escritório em Nova York parece ser uma resposta aos pedidos de posicionamento da Fifa sobre a realização da Copa do Mundo e do Mundial de Clubes em um país que tem decidido ir de encontro aos valores do futebol.



