‘Encobrir a reputação de um governo autoritário’: Entidades alertam Fifa sobre Copa nos EUA
Entidades se pronunciam sobre posicionamento da Fifa em relação às políticas anti-imigração dos Estados Unidos
A escolha da Fifa pelos Estados Unidos para receber a Copa do Mundo de Clubes e a Copa do Mundo de 2026 voltou a ser alvo de debates não apenas no âmbito esportivo.
A discussão está, mais uma vez, ligada às políticas anti-imigração do presidente Donald Trump, além do posicionamento da Federação Internacional de Futebol diante da escolha do país para sediar os torneios, o que colocaria em cheque a campanha pela Fifa intitulada “Football Unites”.
De acordo com o “The Athletic”, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, recebeu uma carta assinada por mais de 90 grupos da sociedade civil, expressando “profunda preocupação” com as políticas de imigração e medidas de fiscalização nos EUA e o impacto no Mundial de 2026.
Ainda de acordo com o portal, a carta pede que a Fifa use a sua influência para exigir que o governo do presidente Donald Trump garanta os direitos fundamentais aos milhões de torcedores de futebol que estão interessados em assistir à competição.
As entidades estariam solicitando que a Federação tentasse, publicamente, reverter políticas e práticas que representem riscos tanto para os participantes estrangeiros do torneio quanto para as comunidades de migrantes que vivem nos EUA.
A marca Fifa será usada como uma ferramenta de relações públicas para encobrir a reputação de um governo cada vez mais autoritário — diz parte da carta.

— Apelamos à FIFA para usar sua influência para encorajar o governo dos EUA a garantir os direitos fundamentais dos milhões de visitantes e torcedores estrangeiros que buscam entrar nos EUA para assistir aos torneios, e os direitos constitucionais dos muitos imigrantes que já vivem, trabalham e contribuem significativamente para as cidades selecionadas para sediá-los — diz trecho da carta a qual o “The Athletic” teve acesso.
Segundo o site, o comunicado foi enviado em 1º de julho, sendo endereçado ao presidente da Federação e com cópia para os seguintes funcionários de altos cargos da Fifa:
- Carlos Cordeiro, ex-presidente da US Soccer, que agora atua como conselheiro de Infantino;
- Kevin Lamour, diretor de operações da Fifa;
- Heimo Schirgi, diretor de operações da Copa do Mundo;
- Alex Sopko, diretor de relações governamentais;
- Amy Hopfinger, diretora de estratégia;
- Matthew Mullen, chefe de direitos humanos da Fifa, especificamente para a Copa do Mundo de 2026.
As organizações que assinam a carta também relembraram a imposição de Trump para proibições de viagem contra cidadãos de doze países, além das restrições parciais para mais sete nações, incluindo a Venezuela, que está na disputa pela classificação.
Quais são as entidades que assinaram a carta à Fifa?
A carta direcionada ao presidente Gianni Infantino foi assinada por grupos como a Human Rights Watch, a Anistia Internacional e a NAACP, uma organização americana de direitos civis fundada em 1909, além da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), com 105 anos de existência.
Também participaram do comunicado grupos da sociedade civil e sindicatos sediados em Nova York, Flórida, Geórgia, Califórnia, Texas, Massachusetts, Missouri e Pensilvânia, ou seja, todos estados que sediarão jogos da Copa do Mundo.
— O aumento das ações de fiscalização da imigração, as operações abusivas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e as restrições mais amplas nas fronteiras também contribuíram para o medo e a incerteza generalizados. Vários governos estrangeiros já emitiram alertas de viagem aos seus cidadãos, alertando sobre os riscos de entrada negada ou detenção e deportação ao viajar para os EUA — alerta o documento.

Vale ressaltar que, antes e durante o Mundial de Clubes, clubes que disputam ligas americanas de futebol se manifestaram contra as políticas de Donald Trump. Foi o caso do Los Angeles FC, com protestos contundentes da torcida contra o governo do presidente americano Donald Trump.
Os protestos foram relacionados à repressão à imigração promovida pelo governo dos Estados Unidos desde o início do segundo mandato de Trump. Durante a semana anterior ao jogo, a cidade de Los Angeles foi palco de uma série de operações conduzidas pelo ICE.
Já no futebol feminino, o Angel City, de Los Angeles, usou camisas com a frase “Immigrant City Football Club”. Além das jogadoras, o clube distribuiu 10 mil camisas com a mesma mensagem, acrescidas de um “Los Angeles é para Todos” nas costas, em inglês e espanhol, e entregou aos torcedores presentes no estádio.
— O futebol, o esporte que todos nós amamos, existe aqui por causa dos imigrantes. É jogado dessa forma por causa dos imigrantes. Este clube, que é uma parte tão importante de mim, não estaria aqui sem os imigrantes — afirmou a capitã da equipe Ali Riley, nascida na Nova Zelândia.
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Fifa corre atrás de chefe de Direitos Humanos
As organizações civis também questionaram o posicionamento da Fifa diante das suas políticas de Direitos Humanos, que afirmam que a instituição tem a responsabilidade de agir.
— A política identifica especificamente que ‘garantir a segurança de pessoas que estão participando ou estão envolvidas, ou afetadas pelos eventos da Fifa pode impactar certos direitos humanos fundamentais, como liberdade de movimento, expressão e reunião’ como um dos cinco principais riscos de direitos humanos da Fifa — afirma o comunicado em referência à instituição.
Outro ponto levantado pelos grupos refere-se a sequência de países que receberam a Copa do Mundo masculina nas últimas edições, questionando o presidente sobre o seu compromisso com os direitos humanos após a realização do torneio no Catar e na Rússia, além da realização da edição de 2034 na Arábia Saudita.
Em meio à crise, a Fifa anunciou que está contratando um Chefe de Direitos Humanos e Antidiscriminação. De acordo com um anúncio da vaga, disponibilizado em seu site, o candidato deve ter 10 anos de experiência como executivo de direitos humanos e “demonstrar altos padrões éticos e integridade pessoal, além de experiência em trabalho com pessoas marginalizadas e vulneráveis”. Entre as principais tarefas estará a de garantir a comunicação ativa e transparente do trabalho da Fifa relacionado aos direitos humanos.



