Copa do Mundo

Tim Vickery: Apesar de tudo (e é muita coisa), como não amar a Copa do Mundo?

'Ainda é possível achar uma pureza infantil na Copa', conta Tim Vickery em nova coluna

Durante as Eliminatórias, o técnico do Paraguai, Gustavo Alfaro, fez um pedido aos seus jogadores. Levou eles mentalmenrte de volta para a infância, para a época quando a família estava sem dinheiro mas mesmo assim se sacrificou para comprar chuteiras para o seu filho, ou uma bicicleta para ajudar nas viagens para os treinos. E o jogador-mirim vivia sonhando — de virar profissional, de atuar na primeira divisão, de vestir a camisa da seleção e, o sonho mais alto de todos, de jogar uma Copa do Mundo.

E Alfaro pediu para os jogadores se re-conectarem com aquele garoto sonhador de tantos anos atrás, e levar ele para o campo. Deu certo. Depois de uma ausência de 16 anos, e uma campanha que, com outros técnicos, iniciou muito mal, o Paraguai está de volta (veja análise da Trivela do grupo D da Copa). A mensagem de Alfaro surgiu efeito — e talvez todos nós deveríamos prestar atenção.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago/Cover-Images)
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago/Cover-Images)

Porque apesar de tudo — e estou bem ciente que tem muito conteúdo naquele “apesar” — ainda é possível achar uma pureza infantil na Copa.

O torneio está cheio de política? Está. Sempre foi — onde tem nações, tem política. Mas está bem na cara agora.

O torcedor está sendo maltratado, com preços abusivos e procedimentos discriminatórios de imigracao? Sem dúvida.

Os jogadores estão sendo maltratados, expostos aos excessos de calor, num calendário exageradamente lotado? Temo que sim.

É tudo verdade — e tem várias outras questões (ambientais, por exemplo) que também merecem uma discussão acalorada.

Torcedor do Brasil em jogo da Copa do Mundo 2022
Torcedor do Brasil em jogo da Copa do Mundo 2022. Foto: IMAGO / Uk Sports Pics Ltd

A Copa do Mundo, apesar dos problemas

O futebol às vezes pode deixar a gente desiludido ou farto — mas se a Copa do Mundo faz parte do problema, então ela também traz o antídoto. A cada quatro anos, o Mundial é uma maneira sensacional de fazer um reencontro com a pureza do jogo e de sonhos infantis.

O cinismo faz parte do jogo dos clubes. A história do futebol profissional e dos jogadores seguindo o dinheiro, e os grandes clubes são cada vez mais brinquedos dos bilionários. Então, mesmo se a Copa nem sempre tem a mesma qualidade da Champions League, ele vai mais fundo porque tem um poder de representatividade maior. O Mundial tem a capacidade de levar todo mundo de volta para a infância.

O jogador na Copa do Mundo sabe que é importante porque está representando o seu povo. Verdade, tem uns sentimentos complexos aí — vingança contra o pai que o abandonou, o professor que falou que não seria nada, a garota que o esnobou porque estava pobre. Mas também tem todas aquelas lembranças gostosas da juventude, de driblar os amigos na várzea, de treinar sozinho batendo uma bola contra um muro pela luz de um posto de iluminação, imaginando que estava marcando gols contra os argentinos.

Torcedora mirim da Coreia do Sul na Copa do Mundo 2022
Torcedora mirim da Coreia do Sul na Copa do Mundo 2022. Foto: IMAGO / Sven Simon

E a gente vira criança também.

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A primeira Copa ninguém esquece

Dá para lembrar — e faz tempo — quando eu sonhava em jogar uma Copa. E também de quando eu estava aprendendo sobre todos esses países exóticos — com a grande ajuda de álbum da Copa, claro — me esforçando para imaginar como se vive num lugar assim, e se a turma por lá também se junta depois da escola para jogar bola.

A minha primeira foi de 1974. Tinha acabado de fazer nove anos. Achava que merecia ser convocado, mas não adiantou. O meu país nem classificou, não para 74 e nem para a próxima. Trata-se de uma sensação que o brasileiro não conhece — o verde-amarelo sempre está lá, sempre entre os favoritos. De uma certa maneira, gostei. Tirou aquela pressão, a ansiedade esperando o jogo de seu país. Ficou até mais diferente, mais exótico.

Amei a coisa toda, apesar da decepção do primeiro jogo. O meu pai encheu a minha cabeça com as façanhas e belezas do Brasil 70. Queria um replay. E o time de Zagallo iniciou com um empate em 0 a 0 contra a Iugoslávia. O meu primeiro jogo da Copa, e nem um golzinho sequer!

Torcedores em Bangladesh acompanham jogo do Brasil na Copa do Mundo 2022
Torcedores em Bangladesh acompanham jogo do Brasil na Copa do Mundo 2022. Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire

Sem problema! Com nove anos tinha uma crença bem saudável — vai melhorar. A próxima partida vai ser sensacional. E, realmente, basta colocar a Holanda em campo e o show começou. E não somente os holandeses; da Alemanha Ocidental de Beckenbauer e Muller até o Haiti abrindo o placar contra uma Itália que entrou em campo sem sofrer gols numa eternidade.

Acabou a Copa de 74 e eu já estava contando os dias até a próxima, que, tinha certeza, ia ser melhor ainda, especialmente como, aos 13 anos, as minhas chances de ser convocado iam aumentar. Como falou Gustavo Alfaro, a Copa me leva para encontrar a criança de tantas décadas atrás. Apesar de tudo, como não amar a Copa do Mundo?

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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