Copa do Mundo 2026

Como o PSG ‘moldou’ a seleção francesa na Copa do Mundo

Dos gatilhos de pressão às saídas de bola e jogadas de bola parada, a seleção francesa incorporou conceitos desenvolvidos pelo PSG bicampeão europeu

O sucesso do Paris Saint-Germain sob o comando de Luis Enrique extrapolou os limites do clube e já influencia até a seleção francesa. Durante Copa do Mundo de 2026, os Bleus incorporaram diversos conceitos táticos que marcaram a campanha do PSG nas últimas temporadas, mesmo sem que exista uma relação próxima entre o treinador espanhol e Didier Deschamps.

Embora os dois técnicos tenham pouca proximidade nos bastidores, a França vem reproduzindo comportamentos vistos no time bicampeão da Champions League — principalmente na pressão pós-perda, mas também na construção desde a defesa, nas cobranças de escanteio e até na estratégia utilizada em cobranças de pênalti.

Com jogadores como Ousmane Dembélé, Bradley Barcola e Désiré Doué, protagonistas também no PSG, a seleção francesa encontrou um caminho natural para transportar parte dos mecanismos do clube para o cenário internacional.

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França reproduz saída de bola e pressão que viraram marca do PSG

A influência mais evidente aparece na construção das jogadas desde a defesa. Assim como acontece no PSG, a França costuma atrair a pressão adversária antes de buscar lançamentos longos para os lados do campo, obrigando o rival a subir suas linhas e abrindo espaços para acelerar a transição ofensiva.

A estratégia já se tornou comum em diversas seleções durante o Mundial, mas os Bleus estão entre aqueles que mais executam esse padrão. A única diferença em relação ao modelo parisiense está nas reposições do goleiro, já que Deschamps não utiliza os lançamentos longos que Matvei Safonov popularizou durante a campanha do PSG na Champions.

Ainda assim, é evidente como a seleção é muito forte e confortável atacando em campo aberto, aproveitando espaços na defesa com velocidade e principalmente com mecanismos para deixar o meio do campo vazio.

Jogadores franceses celebram gol diante da Suécia
Jogadores franceses celebram gol diante da Suécia (Foto: Harry Langer/DeFodi Images/Icon Sport)

Outra característica claramente inspirada no trabalho de Luis Enrique é a organização sem bola, principalmente a pressão alta — inclusive, priorizando pressionar do que construir. Tanto que, no início dos jogos, a França também chuta a bola para a lateral para encurralar o adversário no início.

Sempre que perde a posse, a França tenta recuperar imediatamente, cercando o adversário com dois ou três jogadores e reduzindo ao máximo as opções de passe. Caso essa primeira pressão seja superada, o time rapidamente recompõe um bloco médio bastante compacto, com movimentações coordenadas que lembram o sistema implementado pelo PSG.

O desempenho chamou atenção até dos adversários. Após a eliminação para a França, o técnico de Marrocos, Mohamed Ouahbi, elogiou a intensidade dos Bleus.

“A seleção da França nunca teve tantos jogadores capazes de correr juntos. Desta vez, eles realmente têm jogadores que trabalham para o time e se esforçam.”

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Pênaltis e escanteios seguem roteiro criado no PSG

Nem mesmo as cobranças de pênalti escaparam da influência parisiense. Na final da última Champions League, Vitinha simulou ser o cobrador enquanto Ousmane Dembélé permaneceu afastado da confusão criada pelos adversários. Apenas nos instantes finais o atacante assumiu a bola e converteu a cobrança.

A França repetiu exatamente o mesmo roteiro durante a Copa do Mundo. Enquanto Dembélé concentra a atenção dos rivais, Kylian Mbappé consegue permanecer isolado, preparando-se para a cobrança longe da pressão psicológica exercida pelos adversários antes do chute.

Nas bolas paradas ofensivas, os Bleus também seguem um caminho semelhante. Grande parte dos escanteios é cobrada em jogadas curtas, envolvendo Dembélé, Michael Olise, Mbappé ou Doué para movimentar a defesa rival antes do cruzamento.

Luis Enrique celebra bicampeonato da Champions League pelo PSG
Luis Enrique celebra bicampeonato da Champions League pelo PSG (Foto: Matteo Gribaudi/Gribaudi ImagePhoto/Imago)

A principal diferença está na quantidade de jogadas ensaiadas. No PSG, o auxiliar Rafel Pol desenvolveu uma série de combinações específicas após semanas de treinamento, incluindo infiltrações coordenadas de João Neves na primeira trave.

Na seleção, onde o tempo de preparação é muito menor, as decisões acontecem de forma mais intuitiva. Ainda assim, a ideia central permanece a mesma: evitar cruzamentos previsíveis e criar superioridade numérica pelos lados antes de colocar a bola na área.

A estratégia também leva em conta uma avaliação do próprio elenco. Em conversas internas, Dembélé e Mbappé concluíram que a França não possui grande força no jogo aéreo e passaram a priorizar jogadas curtas para explorar velocidade, movimentação e desequilíbrios na marcação adversária.

A campanha francesa na Copa do Mundo mostra que a influência do PSG vai muito além dos jogadores convocados. O trabalho desenvolvido por Luis Enrique em Paris se transformou em uma referência tática que já inspira uma das principais candidatas ao título mundial.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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