Copa do Mundo 2026

Estratégia do PSG? Por que 60% dos jogos da Copa do Mundo começam com um chutão para frente

Estratégia usada por EUA, Marrocos e outros países parece estranha, mas revela uma das maiores transformações táticas do futebol moderno

Quem acompanha a Copa do Mundo de 2026 pode ter estranhado uma cena se repetir — algo que, durante décadas, seria considerada quase um desperdício de futebol. Em vez de iniciar a partida trocando passes ou tentando construir um ataque, algumas seleções simplesmente dão um chutão para fora de campo, o mais perto possível da bandeirinha de escanteio adversária.

A estratégia foi utilizada por equipes como Estados Unidos, Marrocos e França e chamou a atenção justamente por parecer contradizer uma das máximas do futebol moderno: manter a posse de bola. Afinal, por que abrir mão dela deliberadamente logo no primeiro lance da partida?

A resposta ajuda a explicar uma mudança profunda na forma como o jogo é pensado atualmente. Mais do que controlar a bola, muitas equipes passaram a priorizar o controle do espaço e do território. E, dentro dessa lógica, entregar a posse pode ser um preço pequeno a pagar em troca de colocar o adversário sob pressão desde o primeiro segundo.

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Futebol trocou a obsessão pela posse por disputa de território

Durante boa parte dos anos 2000 e início da década de 2010, o futebol foi dominado pela ideia de que controlar a posse significava controlar o jogo. O auge dessa filosofia foi representado pela Espanha campeã do mundo em 2010 e pelo Barcelona de Pep Guardiola, equipes que construíam suas vantagens a partir da circulação constante da bola.

Nos anos seguintes, porém, o esporte passou por uma evolução importante. Técnicos começaram a perceber que a posse, por si só, não garantia domínio. Mais valioso do que ter a bola era saber onde ela estava.

Guardiola em jogo do Manchester City
Guardiola em jogo do Manchester City. Foto: IMAGO / Mark Pain

Foi assim que ganharam força conceitos ligados à pressão alta, recuperação rápida da posse e ocupação territorial. Em vez de se preocupar exclusivamente em trocar passes, muitas equipes passaram a aceitar que o adversário tivesse a bola, desde que estivesse em zonas pouco confortáveis do campo.

Dentro desse contexto, o pontapé inicial ganhou uma nova função. O objetivo já não é necessariamente construir uma jogada ofensiva. A intenção é empurrar o rival para perto de sua própria área e forçá-lo a tomar decisões sob pressão antes mesmo que a partida encontre seu ritmo natural. Embora pareça rudimentar, a estratégia possui uma lógica relativamente sofisticada.

Ao mandar a bola para fora perto do escanteio adversário, a equipe cria imediatamente uma situação de reinício em uma área sensível do campo. O adversário é obrigado a cobrar um lateral próximo à própria defesa enquanto os atacantes ainda estão fisicamente preparados para pressionar agressivamente.

A ideia é simples: quanto mais próximo do próprio gol um time recebe a bola, maior é o risco de cometer um erro. Um domínio imperfeito, um passe mal executado ou uma decisão equivocada podem gerar uma recuperação de posse em posição extremamente perigosa. Em outras palavras, o objetivo não é ganhar a primeira bola. É ganhar a segunda ou a terceira ação da partida.

Esse conceito está diretamente ligado à popularização das pressões coordenadas que marcaram o futebol da última década. Técnicos passaram a entender que recuperar a posse perto do gol adversário pode ser mais valioso do que construir um ataque desde trás.

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EUA, Pochettino e a Copa do Mundo de 2026

Poucos treinadores ajudaram tanto a popularizar essa mentalidade quanto Mauricio Pochettino. Antes de assumir a seleção dos Estados Unidos, o argentino construiu sua reputação em clubes como Espanyol, Southampton e Tottenham com equipes extremamente agressivas sem a bola.

Curiosamente, muitos de seus times registravam índices elevados de posse de bola sem necessariamente serem especialistas em circulação paciente. A explicação era simples: eles recuperavam a bola tão rápido que passavam grande parte do jogo atacando.

Essa filosofia ajuda a entender por que os Estados Unidos adotaram a estratégia no início da partida contra o Paraguai, na estreia. O pontapé inicial não era uma tentativa de criar um ataque direto, mas de estabelecer imediatamente um cenário favorável para a pressão coletiva.

Há, porém, uma questão interessante levantada por essa tendência. O lance em si não chama atenção apenas pelo chutão. Ele também evidencia algumas limitações da regra do arremesso lateral. Quando uma equipe recebe um lateral próximo à própria área, normalmente possui poucas opções seguras de progressão.

Mauricio Pochettino, técnico dos Estados Unidos (Foto: IMAGO / Xinhua)
Mauricio Pochettino, técnico dos Estados Unidos (Foto: IMAGO / Xinhua)

O espaço é reduzido, a linha lateral funciona como uma barreira natural e qualquer erro pode gerar perigo imediato. Por isso, muitos times acabam recorrendo a lançamentos longos ou disputas aéreas para escapar da pressão.

Os Estados Unidos começaram a Copa do Mundo com essa estratégia, mas vários outros seguiram. Somente na fase de grupos, nove jogos começaram com esse tipo de chutão:

  • Estados Unidos (duas vezes);
  • Marrocos (duas vezes);
  • Tunísia;
  • França;
  • Iraque (três vezes)

Mas mais do que o chutão “desgovernado”, a bola longa chegou para ficar nessa estratégia. Se não são todos os times que dão o chute para fora proposital, a grande maioria das equipes nessa Copa do Mundo começa seus jogos recuando a bola para zagueiros ou goleiros tentarem lançamentos longos:

  • 12,5% deram chutão para fora (9/72)
  • 47,3% com bola longa (34/72)
  • 40,2% com passes curtos (29/72)

Somando os chutões propositais para fora e as bolas longas para ganhar campo, praticamente 60% dos jogos da primeira fase da Copa do Mundo começaram com lançamentos para frente em vez de trocas de passes.

Uma estratégia feia, mas cada vez mais lógica

Para muitos torcedores, a cena continua parecendo estranha. Afinal, durante décadas o pontapé inicial foi encarado como uma oportunidade para iniciar uma jogada trabalhada e demonstrar controle da partida.

Mas o futebol moderno nem sempre recompensa aquilo que parece bonito. Em um esporte cada vez mais influenciado por análises de desempenho, pressão coordenada e ocupação de espaços, abrir mão da posse por alguns segundos pode ser um preço pequeno para ganhar vantagem territorial.

Talvez essa estratégia dificilmante produza um gol direto ou se torne uma marca registrada do esporte. Ainda assim, ela revela algo importante sobre a evolução tática do jogo: hoje, mais do que ter a bola, o fundamental é decidir onde ela estará.

E, para alguns times — incluindo o atual bicampeão da Champions League, o PSG — não existe lugar melhor para começar uma partida do que encurralando o adversário perto da própria bandeirinha de escanteio.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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