Por que o Brasil viraria um time ‘argentino’ com a entrada de Neymar?
Camisa 10 pode fazer o time de Ancelotti migrar a um estilo mais 'raiz' do futebol sul-americano, a depender da escalação
Mais de um mês depois do seu último jogo, ainda pelo Santos, Neymar está liberado para jogar pela seleção brasileira. O camisa 10 poderá ter minutos restritos contra a Escócia, na quarta-feira (24), no jogo que fecha a fase de grupos da Copa do Mundo para o time de Carlo Ancelotti.
Neymar foi para seu terceiro dia seguido treinando normalmente com o restante do grupo e, por mais que não seja titular, pode ganhar minutos na próxima partida. Isso levanta algumas dúvidas:
- Onde o camisa 10 jogaria?
- Quem cederia o lugar para ele?
- E quanto o time mudaria com a sua entrada?
Simulador da Copa do Mundo: Veja possível chaveamento
Neymar é substituto de Matheus Cunha na seleção brasileira
A convocação de Ancelotti, em maio, ilustrou qual seria a ideia central do time e deu pistas sobre o papel de Neymar. O italiano levou dois pontas tradicionais para cada lado — Vinicius Júnior e Gabriel Martinelli na esquerda, Luiz Henrique e Rayan na direita –, o que indicava uma clara tendência ao 4-3-3 mais clássico.
Essa formação já havia aparecido antes, no início da era Ancelotti, mas perdeu espaço para o 4-2-4 muito criativo com Rodrygo e Estêvão como alicerces. Sem os dois, o plano ruiu e a seleção teve um bom retorno ao 4-3-3 contra a Croácia, no último jogo antes da convocação.
Antes do Mundial, houve ainda mais testes e, na estreia da Copa, Igor Thiago surpreendentemente ganhou a vaga de Matheus Cunha como centroavante. O resultado não foi tão positivo: a Seleção teve dificuldade de construir pelo meio e não encontrou espaço entrelinhas nem nas costas da defesa do Marrocos.
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Contra o Haiti, no entanto, Ancelotti voltou ao que imaginava-se ser a ideia central: um 4-3-3 com pontas explosivos e Cunha como falso nove. Foi assim que o time conseguiu fluir manipulando encaixes de marcação e atacando espaços em profundidade. E é nesse esquema que Neymar entraria.
O próprio italiano já confirmou, durante a entrevista coletiva pós-convocação, que Neymar seria um “atacante central. Isso implica que o camisa 10 brigaria pela posição de Cunha (e que também foi de Igor Thiago e pode ser de Endrick). Durante a grande parte do ciclo, a ideia de Ancelotti era ter um atacante móvel, que baixa para ajudar na criação e libera espaço para os pontas — e Neymar é exatamente esse jogador.
Cunha também já foi um dos meias do 4-3-3, o que implica que ele não necessariamente viraria reserva caso Neymar entre no time. Paquetá, por exemplo, pode perder a vaga, mas há clara conexão entre ele e Neymar, e ele e Bruno Guimarães.
Essa conexão, quando analisada nos conceitos literários do futebol, principalmente pela ótica do Jogo de Posição, é chamada de vantagem sócio-afetiva. É uma das vantagens possíveis do jogo, que também incluem as vantagens cinética, posicional, numérica e qualitativa. E criar um ambiente com grande vantagem sócio-afetiva pelo meio transformaria a seleção brasileira quase em um time “argentino”.
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Neymar pode fazer o Brasil se inspirar na Argentina na Copa do Mundo
Analisando a ideia e a execução do jogo brasileiro contra o Haiti, principalmente no primeiro tempo, há duas formas de se ver o time:
- em um 4-3-3 guardiolista, com Cunha como um clássico falso nove e pontas abertos;
- em um 4-1-2-1-2, o famoso losango, com Cunha como um camisa 10 e Vini e Raphinha como atacantes.
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A ótica muda principalmente por conta do comportamento dos pontas e da movimentação de Cunha. Nenhuma das interpretações está errada, mas, contra o Haiti, o Brasil pareceu mais a primeira opção. Mesmo que a ideia dos pontas era atacar as costas da defesa, Raphinha (e depois Rayan) era um ponta mais colado à linha, assim como Vini — que passou a ocupar mais o meio-espaço posteriormente, com subidas de Douglas Santos.
Nesse esquema, Cunha de fato baixava de sua posição de centroavante para operar pelo meio. No futebol, estar em um lugar é diferente de chegar a ele: como falso nove que desce, Cunha obriga um zagueiro a o acompanhar ou pelo menos cria confusão na linha de volantes, e foi esse movimento, combinado com subidas de Bruno Guimarães, por exemplo, que destravaram a defesa haitiana.
Neymar pode fazer o mesmo papel de Cunha, como esse atacante que desce, mas pode efetivamente ser mais meia e fazer o time migrar para o losango. Principalmente por características e pelo físico, o camisa 10 não teria a energia de Cunha para subir, descer e atacar espaços de volta na área constantemente — o que gerou os dois gols do camisa 9 contra o Haiti, por exemplo.
Com Neymar, o Brasil pode ir para um caminho que a Argentina tem mostrado na Copa do Mundo: priorizar o jogo por dentro com seu jogador mais criativo e apostar nas vantagens qualitativa e sócio-afetiva.
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A Argentina não joga necessariamente em um losango, mas em um 4-4-2 praticamente sem amplitude. Ao ver o mapa de posicionamento médio dos jogadores na estreia da Copa do Mundo, contra a Argélia, parece que o time só se defendeu: todos os jogadores próximos do meio-campo, incluindo os atacantes. Na prática, é um time que busca muito associações curtas por dentro e não tem nenhum ponta no time titular.
A ideia dos argentinos é “simples”: controlar o jogo com muitos meias habilidosos e com grande conexão entre si, e que constantemente buscam o passe para Lionel Messi ser o elo para o ataque. No primeiro gol de Messi na Copa, por exemplo, Rodrigo De Paul quebra toda a linha defensiva argelina com um passe de ruptura justamente perfurando o meio. A ideia central é aglomerar a região do campo em que há mais talento reunido, e dá certo.
Com Neymar, o Brasil pode migrar para um losango mais tradicional. Com laterais que não sobem muito, mas podem dar amplitude no início da construção, é possível abrir o bloco defensivo adversário, que também precisará ter sua linha de zagueiros e laterais preocupados com atacantes rápidos e explosivos para atacar a profundidade. Isso abre espaço para o meio brilhar.
Com Neymar, Paquetá e Bruno Guimarães como esses meias tradicionais, habilidosos e que gostam de progredir com tabelas e dribles, é possível atrais marcadores e liberar as costas da defesa para Vini e Luiz Henrique (ou Rayan, ou Endrick) aproveitarem sua velocidade. Foi o que aconteceu contra o Haiti com as descidas de Cunha, mesmo que tenha sido um adversário fraco.
Manhã de trabalho em Nova Jersey! 🇧🇷🔥
Seguimos na preparação para os próximos desafios na Copa do Mundo de 2026. #BateNoPeito
📸 Rafael Ribeiro/CBF pic.twitter.com/dU2CFQsSUm
— brasil (@CBF_Futebol) June 21, 2026
Ter Neymar no time, no entanto, não é sinônimo de que isso vai acontecer — até porque Ancelotti pode ter outras ideias. Ele pode ter Neymar como o 10 de um 4-2-3-1, atrás de Cunha ou de Igor Thiago, por exemplo. Ou até tentar uma nova versão do 4-2-4, que pode ser montado de diferentes formas.
Mas o potencial de fazer o Brasil retornar às ideias daquele 4-2-4 inicial do italiano existe: um time que prioriza o jogo por dentro, com zagueiros que dão passes de ruptura, meias habilidosos que trocam de posição e se entendem bem, e manipulação de marcadores para dar espaço aos atacantes. Resta saber qual opção será escolhida e, no fim das contas, se Neymar de fato se manterá como uma opção relevante para o time.