Copa do Mundo 2026

Por que o Brasil viraria um time ‘argentino’ com a entrada de Neymar?

Camisa 10 pode fazer o time de Ancelotti migrar a um estilo mais 'raiz' do futebol sul-americano, a depender da escalação

Mais de um mês depois do seu último jogo, ainda pelo Santos, Neymar está liberado para jogar pela seleção brasileira. O camisa 10 poderá ter minutos restritos contra a Escócia, na quarta-feira (24), no jogo que fecha a fase de grupos da Copa do Mundo para o time de Carlo Ancelotti.

Neymar foi para seu terceiro dia seguido treinando normalmente com o restante do grupo e, por mais que não seja titular, pode ganhar minutos na próxima partida. Isso levanta algumas dúvidas:

  • Onde o camisa 10 jogaria?
  • Quem cederia o lugar para ele?
  • E quanto o time mudaria com a sua entrada?
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Neymar é substituto de Matheus Cunha na seleção brasileira

A convocação de Ancelotti, em maio, ilustrou qual seria a ideia central do time e deu pistas sobre o papel de Neymar. O italiano levou dois pontas tradicionais para cada lado — Vinicius Júnior e Gabriel Martinelli na esquerda, Luiz Henrique e Rayan na direita –, o que indicava uma clara tendência ao 4-3-3 mais clássico.

Essa formação já havia aparecido antes, no início da era Ancelotti, mas perdeu espaço para o 4-2-4 muito criativo com Rodrygo e Estêvão como alicerces. Sem os dois, o plano ruiu e a seleção teve um bom retorno ao 4-3-3 contra a Croácia, no último jogo antes da convocação.

Antes do Mundial, houve ainda mais testes e, na estreia da Copa, Igor Thiago surpreendentemente ganhou a vaga de Matheus Cunha como centroavante. O resultado não foi tão positivo: a Seleção teve dificuldade de construir pelo meio e não encontrou espaço entrelinhas nem nas costas da defesa do Marrocos.

Neymar antes de jogo do Brasil na Copa do Mundo 2026
Neymar antes de jogo do Brasil na Copa do Mundo 2026. Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire

Contra o Haiti, no entanto, Ancelotti voltou ao que imaginava-se ser a ideia central: um 4-3-3 com pontas explosivos e Cunha como falso nove. Foi assim que o time conseguiu fluir manipulando encaixes de marcação e atacando espaços em profundidade. E é nesse esquema que Neymar entraria.

O próprio italiano já confirmou, durante a entrevista coletiva pós-convocação, que Neymar seria um “atacante central. Isso implica que o camisa 10 brigaria pela posição de Cunha (e que também foi de Igor Thiago e pode ser de Endrick). Durante a grande parte do ciclo, a ideia de Ancelotti era ter um atacante móvel, que baixa para ajudar na criação e libera espaço para os pontas — e Neymar é exatamente esse jogador.

Cunha também já foi um dos meias do 4-3-3, o que implica que ele não necessariamente viraria reserva caso Neymar entre no time. Paquetá, por exemplo, pode perder a vaga, mas há clara conexão entre ele e Neymar, e ele e Bruno Guimarães.

Essa conexão, quando analisada nos conceitos literários do futebol, principalmente pela ótica do Jogo de Posição, é chamada de vantagem sócio-afetiva. É uma das vantagens possíveis do jogo, que também incluem as vantagens cinética, posicional, numérica e qualitativa. E criar um ambiente com grande vantagem sócio-afetiva pelo meio transformaria a seleção brasileira quase em um time “argentino”.

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Neymar pode fazer o Brasil se inspirar na Argentina na Copa do Mundo

Analisando a ideia e a execução do jogo brasileiro contra o Haiti, principalmente no primeiro tempo, há duas formas de se ver o time:

  • em um 4-3-3 guardiolista, com Cunha como um clássico falso nove e pontas abertos;
  • em um 4-1-2-1-2, o famoso losango, com Cunha como um camisa 10 e Vini e Raphinha como atacantes.
Lionel Messi e Enzo Fernández comemoram gol da Argentina na Copa do Mundo
Lionel Messi e Enzo Fernández comemoram gol da Argentina na Copa do Mundo (Foto: Imago/Icon Sportswire)

A ótica muda principalmente por conta do comportamento dos pontas e da movimentação de Cunha. Nenhuma das interpretações está errada, mas, contra o Haiti, o Brasil pareceu mais a primeira opção. Mesmo que a ideia dos pontas era atacar as costas da defesa, Raphinha (e depois Rayan) era um ponta mais colado à linha, assim como Vini — que passou a ocupar mais o meio-espaço posteriormente, com subidas de Douglas Santos.

Nesse esquema, Cunha de fato baixava de sua posição de centroavante para operar pelo meio. No futebol, estar em um lugar é diferente de chegar a ele: como falso nove que desce, Cunha obriga um zagueiro a o acompanhar ou pelo menos cria confusão na linha de volantes, e foi esse movimento, combinado com subidas de Bruno Guimarães, por exemplo, que destravaram a defesa haitiana.

Neymar pode fazer o mesmo papel de Cunha, como esse atacante que desce, mas pode efetivamente ser mais meia e fazer o time migrar para o losango. Principalmente por características e pelo físico, o camisa 10 não teria a energia de Cunha para subir, descer e atacar espaços de volta na área constantemente — o que gerou os dois gols do camisa 9 contra o Haiti, por exemplo.

Com Neymar, o Brasil pode ir para um caminho que a Argentina tem mostrado na Copa do Mundo: priorizar o jogo por dentro com seu jogador mais criativo e apostar nas vantagens qualitativa e sócio-afetiva.

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Posicionamento médio dos jogadores da Argentina na vitória contra a Argélia (Foto: Reprodução/Sofascore)

A Argentina não joga necessariamente em um losango, mas em um 4-4-2 praticamente sem amplitude. Ao ver o mapa de posicionamento médio dos jogadores na estreia da Copa do Mundo, contra a Argélia, parece que o time só se defendeu: todos os jogadores próximos do meio-campo, incluindo os atacantes. Na prática, é um time que busca muito associações curtas por dentro e não tem nenhum ponta no time titular.

A ideia dos argentinos é “simples”: controlar o jogo com muitos meias habilidosos e com grande conexão entre si, e que constantemente buscam o passe para Lionel Messi ser o elo para o ataque. No primeiro gol de Messi na Copa, por exemplo, Rodrigo De Paul quebra toda a linha defensiva argelina com um passe de ruptura justamente perfurando o meio. A ideia central é aglomerar a região do campo em que há mais talento reunido, e dá certo.

Com Neymar, o Brasil pode migrar para um losango mais tradicional. Com laterais que não sobem muito, mas podem dar amplitude no início da construção, é possível abrir o bloco defensivo adversário, que também precisará ter sua linha de zagueiros e laterais preocupados com atacantes rápidos e explosivos para atacar a profundidade. Isso abre espaço para o meio brilhar.

Com Neymar, Paquetá e Bruno Guimarães como esses meias tradicionais, habilidosos e que gostam de progredir com tabelas e dribles, é possível atrais marcadores e liberar as costas da defesa para Vini e Luiz Henrique (ou Rayan, ou Endrick) aproveitarem sua velocidade. Foi o que aconteceu contra o Haiti com as descidas de Cunha, mesmo que tenha sido um adversário fraco.

Ter Neymar no time, no entanto, não é sinônimo de que isso vai acontecer — até porque Ancelotti pode ter outras ideias. Ele pode ter Neymar como o 10 de um 4-2-3-1, atrás de Cunha ou de Igor Thiago, por exemplo. Ou até tentar uma nova versão do 4-2-4, que pode ser montado de diferentes formas.

Mas o potencial de fazer o Brasil retornar às ideias daquele 4-2-4 inicial do italiano existe: um time que prioriza o jogo por dentro, com zagueiros que dão passes de ruptura, meias habilidosos que trocam de posição e se entendem bem, e manipulação de marcadores para dar espaço aos atacantes. Resta saber qual opção será escolhida e, no fim das contas, se Neymar de fato se manterá como uma opção relevante para o time.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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