Copa do Mundo

Por que estreia do Brasil contra o Marrocos na Copa do Mundo foi quase um resumo da era Ancelotti

Empate com Marrocos ilustra novamente duas facetas de uma seleção brasileira que ainda não se encontrou completamente

O Brasil estreou na Copa do Mundo de 2026 neste sábado (13) empatando com a seleção de Marrocos por 1 a 1. Depois de diversos testes ao longo de um ano à frente do time, Carlo Ancelotti foi ao Mundial com o centroavante mais “camisa 9 possível” e viu um jogo que relembra seu início inconstante com a Seleção.

O time de Ancelotti começou perdendo com falhas na pressão, algo recorrente no ciclo, e empatou em jogada individual de Vinícius Júnior. Foi um jogo marcado por trocas na ideia de construção e um time que se acertou defensivamente no segundo tempo, mas que não conseguiu criar ofensivamente tão bem.

Brasil acelerado e de bolas longas remete à estreia de Ancelotti

A primeira metade da etapa inicial pareceu a estreia de Ancelotti com o Brasil: há exatamente um ano e uma semana, contra o Equador. Na ocasião, a Seleção foi dominada pelos equatorianos que mantinham a bola e empurravam os brasileiros para trás.

A grande reclamação daquele primeiro jogo do italiano era o momento com bola: priorizava de forma quase exacerbada a aceleração e verticalidade. Isso se repetiu contra o Marrocos.

O Brasil começou escalado em um 4-2-3-1 que tinha Paquetá como meia pela direita e Raphinha como “camisa 10”. As mudanças vieram no ataque, com Igor Thiago como centroavante, e na curiosa inversão da dupla de volantes, com Casemiro pela direita e Bruno Guimarães pela esquerda.

Nessa formação, o Brasil teve dois principais problemas:

  • Com Paquetá na direita, um meia de origem que buscava cair pelo meio, e Ibañez como lateral-direito, não havia amplitude por aquele lado;
  • No meio, Raphinha buscava atacar a profundidade com muita frequência e não pesava tanto o meio de campo, o que simbolizava a prioridade na aceleração e dificultava a construção.
Paquetá descendo para construir, mas sem apoio central
Paquetá descendo para construir, mas sem apoio central (Foto: Reprodução/CazéTV)

Por outro lado, Marrocos pressionava a construção brasileira estrategicamente. Sem saltar nos zagueiros brasileiros, fechava o meio-campo e pressionava forte quando a bola passava da intermediária — geralmente pelo lado. Os marroquinos conseguiam rodar a bola e ferir o Brasil em transição, mas também foram pacientes com a posse.

Marrocos defendia em um misto de 4-2-3-1, para fechar tanto opções pelo meio quanto ter facilidade para pressionar pelos lados, e em 4-4-2, quando subia pressão mais forte. Isso fez o Brasil se adaptar e trocar Raphinha e Paquetá de posição. Com o camisa 11 pela direita, a Seleção passou a ter amplitude pela direita e abriu mais o campo.

Nesse contexto, o Brasil conseguiu manter mais a bola, mas ainda com dificuldades de chegar ao gol. Antes disso, havia sido apenas uma jogada individual de Vinicius Júnior, que gerou uma quase cabeçada perigosa de Igor Thiago, a levar perigo. O primeiro tempo acabou com apenas seis finalizações brasileiras.

A ideia inicial do Brasil, acelerada e usando Igor Thiago como alvo de lançamentos, não foi tão positiva. O próprio centroavante não foi bem no jogo e a entrada no último terço não fluiu, não fosse por jogadas individuais de Vini — que, inclusive, gerou o gol brasileiro

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Defesa inconstante no ciclo pré-Copa do Mundo aparece contra Marrocos

Salibari finaliza por cima de Alisson para abrir o placar (Foto: SUSA / Icon Sport)
Salibari finaliza por cima de Alisson para abrir o placar (Foto: SUSA / Icon Sport)

Em todos os 12 jogos de Ancelotti em preparação para a Copa do Mundo, a seleção brasileira teve duas atuações definitivamente sólidas contra boas oposições: pressionou bem contra Senegal e defendeu bem em bloco médio contra a Croácia. Tirando isso, foram diversas atuações inconstantes, com especial problemas no sistema de pressão alta.

Isso se repetiu contra Marrocos. Mesmo que a pressão pós-perda tenha tido bons resultados nos últimos amistosos contra Egito e Panamá, gerando quatro gols com roubadas de bola perto do gol adversário, foi o que custou na estreia da Copa.

No lance do gol marroquino, para além da perda da bola de Paquetá, houve um efeito dominó que resultou da má organização na pressão:

  1. Por padrão, o Brasil se desloca quase inteiro para o lado da bola quando pressiona após a perda, o que abre brechas no lado oposto;
  2. Mazraoui não foi completamente pressionado e teve tempo para encontrar um bom passe em diagonal para Brahim Diaz, livre no meio-espaço oposto;
  3. Brahim também não foi constrangido: Casemiro e Douglas Santos, que estavam perto, não se decidiram e deram espaço para o camisa 10, que pôde lançar Saibari;
  4. Magalhães deu o bote errado para impedir a bola de chegar no atacante, que ficou livre para encobrir Alisson.

O sistema defensivo do Brasil em bloco médio foi positivo. Bruno Guimarães foi escalado na esquerda justamente para ajudar na mobilidade da defesa para conter o perigo gerado por Brahim e Hakimi, os principais jogadores do ataque marroquino.

Bruno Guimarães e Gabriel Magalhães trocam de posição para manter estrutura defensiva e conter perigo marroquino
Bruno Guimarães e Gabriel Magalhães trocam de posição para manter estrutura defensiva e conter perigo marroquino (Foto: Reprodução/CazéTV)

Magalhães era responsável por acompanhar Brahim individualmente quando ele caía pelo meio-espaço. Isso tirava o zagueiro brasileiro de posição, e o Brasil usava de trocas de posição para manter a linha de quatro defensores intacta. Bruno recuava para sustentar a linha caso Magalhães saísse, e o mesmo acontecia do outro lado da defesa.

O que ilustra como a defesa brasileira foi positiva nesse sentido é como Marrocos simplesmente não finalizou no segundo tempo. Depois de um primeiro tempo inconstante em que te demorou para conseguir manter a bola, o jogo foi mais controlado para os brasileiros — tanto que todos os 12 chutes marroquinos vieram antes dos 30 minutos do primeiro tempo.

Com um time acelerado e inconstante no primeiro tempo e uma equipe equilibrada, que dominou mais a bola e defendeu bem no segundo, a estreia brasileira na Copa do Mundo foi quase um resumo da era Ancelotti até aqui: mudanças ofensivas sem chegar em uma identidade concreta e altos e baixos defensivos.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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