Brasil ‘cheio de gatos’ tem sua versão mais cruyffista permitida por um Haiti que deixa Ancelotti sonhar
3 a 0 ainda no primeiro tempo veio com uma única ideia central bem executada e que pode ser a faceta da Seleção na Copa
Depois de uma estreia complicada contra Marrocos, a seleção brasileira venceu o Haiti na segunda rodada da Copa do Mundo, por 3 a 0, e consolidou o que pode ser seu estilo para o Mundial.
Contra um adversário que fez jogo duro diante da Escócia na estreia, o Brasil teve muita facilidade para perfurar a defesa por, entre diversos motivos, um principal: seus movimentos para receber a bola — o famoso “gato”.
Ancelotti mostra faceta que pode acompanhar o Brasil na Copa
Entre ataques à profundidade e descidas para receber a bola no pé, o Brasil dominou o Haiti de forma que chegou a surpreender. Imaginava-se um adversário defendendo baixo e compacto, mas Carlo Ancelotti recebeu uma equipe completamente desorganizada defensivamente.
O treinador italiano se ateve ao 4-3-3 que se esperava na convocação, mas com mudanças cruciais: voltou à ideia de ter pontas tradicionais, com Vinícius Junior e Raphinha, e um meio-campo associativo, com Bruno Guimarães e Lucas Paquetá, que ainda contava o auxílio de Matheus Cunha como falso nove.
Com pontas que se destacam em espaços de força — corredores abertos e faixas do campo com espaço para correr nas costas da defesa –, o Brasil se apoiou nessas características para criar. O time tinha constantemente alguém atacando a profundidade e combinando esse movimento com outros jogadores que desciam para ocupar esse espaço.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F06%2Fbrasil-haiti.png)
O lado direito do ataque brasileiro foi proeminente nesse tipo de movimento: quando Raphinha descia pelo lado para receber, Bruno Guimarães, o meia por aquele lado, atacava rapidamente a profundidade. Isso fazia com que seu opositor o acompanhasse e liberava espaço para Cunha descer nessa região central. Diversas vezes, movimentos como esse geraram boas chances para o Brasil.
Raphinha e Vini são ótimos jogadores para atacar espaços e as melhores oportunidades do jogo vieram com eles. Raphinha teve dois lances em que esteve impedido, mas que chegou até a marcar. Vini participa dos três gols também recebendo em profundidade: no primeiro, finaliza e, no rebote, Cunha marca. No segundo, dá a assistência para o camisa 9 e no terceiro, Paquetá o lança nas costas da defesa.
Raphinha se lesionou e deixou o campo ainda no primeiro tempo, mas a ideia se manteve a mesma com a entrada de Rayan, um ponta ainda mais tradicional, de velocidade e duelos individuais. Ancelotti enfim conseguiu voltar à “brasilidade” que já tinha chegado no auge da era do 4-2-4, antes das lesões de Rodrygo e Estêvão, mas de outra forma.
Todos os meias e atacantes abusavam dos clássicos movimentos de “gato”, o fingimento de sair para um lado e se apresentar do outro. Seja para fingir que receberia no pé para atacar a linha de fundo ou o contrário, isso foi crucial para que os brasileiros desmontassem a defesa haitiana e tivessem sucesso.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Defesa do Haiti não teve critério e facilitou o trabalho do Brasil na Copa do Mundo
O Haiti mudou a formação em relação à estreia contra a Escócia e jogou com uma linha de cinco na defesa. Ainda assim, o comportamento dessa linha foi curiosamente ruim, além de facilmente manipulada pelos movimentos brasileiros.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F06%2FVinicius-Junior-em-jogo-da-selecao-brasileira-na-Copa-do-Mundo-scaled-e1781921668912.jpg)
Se os gatos faziam efeito para que os atacantes ganhassem uma fração de segundo crucial para receber, toda a engrenagem da movimentação da seleção desmontou os haitianos. O 5-4-1 adversário não pressionava a construção em 4-1 do Brasil, mas também colocava sua última linha alta demais, o que permitia que a Seleção tivesse espaço para atacar entre a zaga e o goleiro. Foi assim que saíram todos os gols no primeiro tempo.
Ancelotti teve seu jogo mais sólido ofensivamente em 2026, mas também o mais “cruyffista”. As ideias de buscar a profundidade como prioridade e dinâmicas de terceiro homem para entrar na área são algumas das influências mais sólidas de Johan Cruyff no futebol atual e foram figura central da vitória brasileira.
Essas dinâmicas deixavam a linha defensiva do Haiti confusa. Tanto os gatos, que faziam os defensores estarem sempre um segundo atrás, quando os movimentos compensatórios. Cunha descia e atraía a atenção de um zagueiro, que então abria espaço para os pontas atacarem.
O lado esquerdo da defesa haitiana foi o mais deficiente: as subidas de Bruno Guimarães e o posicionamento aberto do ponta-direito (antes Raphinha, depois Rayan) quebravam a linha. O zagueiro subia para acompanhar Bruno, enquanto o lateral precisava abrir para tomar conta da amplitude. Isso permitia espaços ainda maiores.
Jogo tranquilo não exigiu a defesa do Brasil
O Brasil se manteve defendendo em 4-4-2 e seguia com a intenção de pressionar alto. Não havia uma grande urgência de roubar a bola a todo custo, mas Vinicius direcionava a construção para o meio e a segunda linha brasileira fechava as opções de passe, o que obrigava lançamentos.
Vez ou outra, o Haiti conseguiu construir por dentro, mas seus momentos mais fortes, por característica, são pelos lados. Provavelmente, a ideia de permitir a construção por dentro era isso: a dificuldade haitiana de progredir por ali. Tanto que o segundo gol sai com Paquetá roubando a bola após erro de passe no corredor central.
VINICIUS JOSÉ PAIXÃO DE OLIVEIRA JUNIOR. COLOQUEM RESPEITO NESTE NOME. O MELHOR JOGADOR DO MUNDO É BRASILEIRO! pic.twitter.com/Y1KU0hDDCk
— CazéTV (@CazeTVOficial) June 20, 2026
As primeiras finalizações do Haiti vieram somente no segundo tempo e em grande maioria em situações de bola parada. O ritmo brasileiro caiu com as mudanças no segundo tempo e, naturalmente, porque o placar já esteva definido.
No melhor jogo do ano, a seleção brasileira confirmou um estilo que se esperava dela para a Copa do Mundo, mas contou com um adversário surpreendentemente desorganizado e que, pesar dos diversos méritos brasileiros, permitiu que o jogo fosse fácil.
Agora, a seleção brasileira fecha a fase de grupos da Copa do Mundo contra a Escócia, na próxima quarta-feira (24), às 19h no horário de Brasília.