Copa do Mundo 2026

Brasil ‘cheio de gatos’ tem sua versão mais cruyffista permitida por um Haiti que deixa Ancelotti sonhar

3 a 0 ainda no primeiro tempo veio com uma única ideia central bem executada e que pode ser a faceta da Seleção na Copa

Depois de uma estreia complicada contra Marrocos, a seleção brasileira venceu o Haiti na segunda rodada da Copa do Mundo, por 3 a 0, e consolidou o que pode ser seu estilo para o Mundial.

Contra um adversário que fez jogo duro diante da Escócia na estreia, o Brasil teve muita facilidade para perfurar a defesa por, entre diversos motivos, um principal: seus movimentos para receber a bola — o famoso “gato”.

Ancelotti mostra faceta que pode acompanhar o Brasil na Copa

Entre ataques à profundidade e descidas para receber a bola no pé, o Brasil dominou o Haiti de forma que chegou a surpreender. Imaginava-se um adversário defendendo baixo e compacto, mas Carlo Ancelotti recebeu uma equipe completamente desorganizada defensivamente.

O treinador italiano se ateve ao 4-3-3 que se esperava na convocação, mas com mudanças cruciais: voltou à ideia de ter pontas tradicionais, com Vinícius Junior e Raphinha, e um meio-campo associativo, com Bruno Guimarães e Lucas Paquetá, que ainda contava o auxílio de Matheus Cunha como falso nove.

Com pontas que se destacam em espaços de força — corredores abertos e faixas do campo com espaço para correr nas costas da defesa –, o Brasil se apoiou nessas características para criar. O time tinha constantemente alguém atacando a profundidade e combinando esse movimento com outros jogadores que desciam para ocupar esse espaço.

Movimentações do Brasil desmontaram a defesa do Haiti
Movimentações do Brasil desmontaram a defesa do Haiti (Foto: Reprodução/CazéTV)

O lado direito do ataque brasileiro foi proeminente nesse tipo de movimento: quando Raphinha descia pelo lado para receber, Bruno Guimarães, o meia por aquele lado, atacava rapidamente a profundidade. Isso fazia com que seu opositor o acompanhasse e liberava espaço para Cunha descer nessa região central. Diversas vezes, movimentos como esse geraram boas chances para o Brasil.

Raphinha e Vini são ótimos jogadores para atacar espaços e as melhores oportunidades do jogo vieram com eles. Raphinha teve dois lances em que esteve impedido, mas que chegou até a marcar. Vini participa dos três gols também recebendo em profundidade: no primeiro, finaliza e, no rebote, Cunha marca. No segundo, dá a assistência para o camisa 9 e no terceiro, Paquetá o lança nas costas da defesa.

Raphinha se lesionou e deixou o campo ainda no primeiro tempo, mas a ideia se manteve a mesma com a entrada de Rayan, um ponta ainda mais tradicional, de velocidade e duelos individuais. Ancelotti enfim conseguiu voltar à “brasilidade” que já tinha chegado no auge da era do 4-2-4, antes das lesões de Rodrygo e Estêvão, mas de outra forma.

Todos os meias e atacantes abusavam dos clássicos movimentos de “gato”, o fingimento de sair para um lado e se apresentar do outro. Seja para fingir que receberia no pé para atacar a linha de fundo ou o contrário, isso foi crucial para que os brasileiros desmontassem a defesa haitiana e tivessem sucesso.

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Defesa do Haiti não teve critério e facilitou o trabalho do Brasil na Copa do Mundo

O Haiti mudou a formação em relação à estreia contra a Escócia e jogou com uma linha de cinco na defesa. Ainda assim, o comportamento dessa linha foi curiosamente ruim, além de facilmente manipulada pelos movimentos brasileiros.

Vinícius Júnior em jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo
Vinícius Júnior em jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo. Foto: IMAGO / Fotoarena

Se os gatos faziam efeito para que os atacantes ganhassem uma fração de segundo crucial para receber, toda a engrenagem da movimentação da seleção desmontou os haitianos. O 5-4-1 adversário não pressionava a construção em 4-1 do Brasil, mas também colocava sua última linha alta demais, o que permitia que a Seleção tivesse espaço para atacar entre a zaga e o goleiro. Foi assim que saíram todos os gols no primeiro tempo.

Ancelotti teve seu jogo mais sólido ofensivamente em 2026, mas também o mais “cruyffista”. As ideias de buscar a profundidade como prioridade e dinâmicas de terceiro homem para entrar na área são algumas das influências mais sólidas de Johan Cruyff no futebol atual e foram figura central da vitória brasileira.

Essas dinâmicas deixavam a linha defensiva do Haiti confusa. Tanto os gatos, que faziam os defensores estarem sempre um segundo atrás, quando os movimentos compensatórios. Cunha descia e atraía a atenção de um zagueiro, que então abria espaço para os pontas atacarem.

O lado esquerdo da defesa haitiana foi o mais deficiente: as subidas de Bruno Guimarães e o posicionamento aberto do ponta-direito (antes Raphinha, depois Rayan) quebravam a linha. O zagueiro subia para acompanhar Bruno, enquanto o lateral precisava abrir para tomar conta da amplitude. Isso permitia espaços ainda maiores.

Jogo tranquilo não exigiu a defesa do Brasil

O Brasil se manteve defendendo em 4-4-2 e seguia com a intenção de pressionar alto. Não havia uma grande urgência de roubar a bola a todo custo, mas Vinicius direcionava a construção para o meio e a segunda linha brasileira fechava as opções de passe, o que obrigava lançamentos.

Vez ou outra, o Haiti conseguiu construir por dentro, mas seus momentos mais fortes, por característica, são pelos lados. Provavelmente, a ideia de permitir a construção por dentro era isso: a dificuldade haitiana de progredir por ali. Tanto que o segundo gol sai com Paquetá roubando a bola após erro de passe no corredor central.

As primeiras finalizações do Haiti vieram somente no segundo tempo e em grande maioria em situações de bola parada. O ritmo brasileiro caiu com as mudanças no segundo tempo e, naturalmente, porque o placar já esteva definido.

No melhor jogo do ano, a seleção brasileira confirmou um estilo que se esperava dela para a Copa do Mundo, mas contou com um adversário surpreendentemente desorganizado e que, pesar dos diversos méritos brasileiros, permitiu que o jogo fosse fácil.

Agora, a seleção brasileira fecha a fase de grupos da Copa do Mundo contra a Escócia, na próxima quarta-feira (24), às 19h no horário de Brasília.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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