Copa do Mundo 2026

Por que Bellingham é mais do que os gols e como ele redefine o papel do camisa 10 no futebol

Inglaterra tem dois dos artilheiros do Mundial, mas meia é a grande engrenagem do time de Thomas Tuchel

Jude Bellingham precisou de dois jogos no mata-mata para entrar na discussão dos melhores jogadores da Copa do Mundo de 2026. Com seis gols, é um dos artilheiros e enfrentará quem talvez seja o grande nome do Mundial até aqui: Lionel Messi.

Inglaterra e Argentina se enfrentam pela semifinal nesta quarta-feira (15), às 16h no horário de Brasília. E mais do que Harry Kane, o grande nome da seleção inglesa, é o camisa 10 que pode ser crucial para o sucesso dos Três Leões.

Bellingham redefine o que é ser camisa 10 na Copa do Mundo

A atual edição do Mundial tem mostrado diferentes tipos de camisa 10: os armadores estáticos, como James Rodríguez e Juan Fernando Quintero; os armadores mais dinâmicos, como Michael Olise e Martin Odegaard; e o “pacote completo” — Bellingham.

O camisa 10 da seleção inglesa já foi um segundo volante, um meia “box-to-box” e tem feito sucesso nos últimos anos como esse meia com grande ímpeto para atacar a área. E sua combinação com Harry Kane, que se tornou o grande falso nove do futebol mundial, eleva isso ainda mais.

Mas Bellingham é mais do que esse meia que faz gols. O jogador do Real Madrid une um físico privilegiado para duelos ofensivos e defensivos, intensidade para pressionar e defender, qualidade no trato com a bola para ajudar na saída de bola e no último passe e visão de jogo para aproveitar espaços. E talvez isso faça dele o camisa 10 mais completo da Copa do Mundo.

Thomas Tuchel conversa com Jude Bellingham em Inglaterra x México (Foto: Imago/Mark Pain)
Thomas Tuchel conversa com Jude Bellingham em Inglaterra x México (Foto: Imago/Mark Pain)

Antes da Copa do Mundo, o auxiliar técnico da seleção inglesa, Anthony Barry falou em entrevista ao “The Guardian” como a preparação do time de Thomas Tuchel colocava muita importância em acelerar o jogo na faixa central. E é aí que Bellingham se faz crucial para o modelo de jogo do time.

O futebol tem passado por um momento de transição claro: equipes passaram a defender de forma ainda mais compacta e organizada para fechar opções de progressão pelo meio. Times mais pausados que abusavam de manipulação de marcadores e conceitos do Jogo de Posição passaram a ter muita dificuldade e a aceleração virou fundamental para quebrar esses blocos.

Bellingham é crucial para passar por esses blocos por motivos claros:

  • Consegue sustentar a pressão da marcação para se tornar opção de passe;
  • Tem grande capacidade de conduzir por longas distâncias, mesmo marcado;
  • Tem passadas largas e rápidas para cruzar o campo e furar o bloco defensivo;
  • É inteligente o suficiente para identificar espaços e atacá-los sem a bola.

Na Inglaterra, Bellingham representa o tipo de camisa 10 que o futebol mais pede na atualidade. Mais do que um criador como Kevin De Bruyne ou um driblador em espaços curtos como Jamal Musiala, o inglês é uma mistura homogênea de habilidade, inteligência, faro de gol e, principalmente, grande capacidade física para se sobressair em um jogo com cada vez mais duelos.

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Os gols dizem apenas uma parte da história de Bellingham

Jude Bellingham pela seleção inglesa na Copa do Mundo
Jude Bellingham pela seleção inglesa na Copa do Mundo (Foto: IMAGO / Matrix Images)

Ver Bellingham entre os artilheiros da Copa do Mundo ao lado de Lionel Messi, Kylian Mbappé, Erling Haaland e Harry Kane pode parecer estranho. Um meia entre os grandes goleadores do mundo. Mas os gols contam apenas uma parte da história.

Os seis gols do camisa 10 inglês vieram em apenas 2,62 gols esperados (xG). Isso quer dizer que Bellingham marcou mais de três gols a mais do que se esperava dadas as condições em que ele finalizou. Esse é um dos maiores diferenciais entre gols marcados e xG da Copa, ao lado, por exemplo, de Ousmane Dembélé, que marcou cinco em 1,52 xG.

Bellingham também é o sexto jogador com mais chutes certos por jogo (1,8), na Copa do Mundo, atrás apenas dos demais artilheiros e Vinícius Júnior. E seus números em comparação com os companheiros indicam que ele é mais um finalizador do que um criador.

Noni Madueke, por exemplo, tem números de assistências, assistências esperadas (xA) maiores. Declan Rice tem mais passes que levaram a finalizações. Mas Bellingham é o líder inglês em dribles certos por jogo.

Isso também diz sobre o estilo de jogo da seleção inglesa e como a combinação de Kane e Bellingham faz sentido. O camisa 9 tem liberdade para descer, buscar a bola entrelinhas, ajudar na construção e ser um criador. Bellingham, mais do que o jogador que quer ter a bola no pé, é excelente em aproveitar o espaço.

E essa é a dualidade do camisa 10 de Tuchel. É o líder em dribles, por ter grande capacidade para conduzir mesmo sob pressão e, por isso, faz a equipe ser perigosa em campo aberto. Mas também é crucial para esses momentos, mesmo quando não tem a bola — quando se torna um importante finalizador.

Entre todos os jogadores da Copa, Bellingham é o 10º colocado em chutes dentro da área, com 14, apenas quatro a menos que Kane, por exemplo, o vice-líder da estatística. Mas o meia teve apenas três tentativas de fora da área, o que ilustra como é um jogador de chegada.

Bellingham se movimenta muito e seu físico privilegiado tem sido posto à prova, principalmente por ser o segundo jogador com mais corridas de alta intensidade no Mundial (328). Isso também é simbolizado pelo fato de que o camisa 10 é o jogador com mais ofertas para receber passe em toda a Copa do Mundo, com 431. Bellingham apareceu como opção de passe a um companheiro 103 vezes a mais do que Elliott Anderson, o 8º e próximo inglês na lista.

Dentro dessas 431 ofertas, Bellingham também lidera o Mundial em ofertas entre as linhas (230) e dentro do bloco adversário (323). É o trabalho padrão de um camisa 10: ser o elo entre a construção nos zagueiros e volantes para as zonas mais perigosas do ataque. No sistema inglês, geralmente é ele quem conduz sob pressão, encontra pontas para situações de duelo individual e, depois, ataca a área para ser alvo de cruzamentos.

Ainda assim, quando tem a bola no pé, tem qualidade e função específica: é sim um criador. O meia é o líder da seleção inglesa em tentativas de passes que rompem as linhas, com 20 — o que o coloca como o 11º no ranking geral da Fifa.

Se antes existia a dúvida se seria convocado para a Copa do Mundo, por conta de polêmicas em sua relação com Tuchel, Bellingham rapidamente se tornou o principal jogador da Inglaterra. O camisa 10 que joga com a bola para driblar, encontrar companheiros, atacar a área para marcar gols e, mais do que tudo, se doar intensamente.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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