Copa do Mundo 2026

‘É diferente’: Copa do Mundo 2026 é marcada por duas novas reclamações

Jogadores e treinadores apontam problemas com a bola oficial e com os gramados do torneio

A Copa do Mundo 2026 ainda está em sua fase inicial, mas já acumula uma discussão que vai além dos resultados em campo. De um lado, goleiros e analistas questionam o comportamento da Trionda, bola oficial do torneio produzida pela Adidas. Do outro, jogadores e treinadores criticam as condições de alguns gramados instalados em estádios originalmente projetados para receber partidas de futebol americano.

Embora sejam debates distintos, ambos têm um ponto em comum: as condições extremamente variadas encontradas ao longo do Mundial. Altitude, calor, estádios climatizados, arenas abertas e gramados temporários estão influenciando diretamente a forma como a bola se movimenta e como o jogo se desenvolve.

O resultado é um torneio que, apesar de jogos animados e apelo positivo do público, tem produzido números incomuns, uma enxurrada de reclamações e comparações com algumas das polêmicas mais famosas da história das Copas do Mundo.

A bola da Copa do Mundo voltou a colocar os goleiros em alerta

O desempenho da Trionda virou tema de debate após uma série de gols marcados de longa distância e erros de goleiros ao longo da competição. Especialistas da posição acreditam que a bola esteja apresentando comportamentos imprevisíveis em determinadas condições climáticas.

O caso mais comentado foi o gol sofrido por Jordan Pickford na vitória da Inglaterra sobre a Croácia. O goleiro chegou a tocar na finalização de Martin Baturina, mas não conseguiu evitar que a bola encontrasse as redes.

Jordan Pickford gesticula durante Inglaterra x Croácia (Foto: Imago/AFLOSPORT)
Jordan Pickford gesticula durante Inglaterra x Croácia (Foto: Imago/AFLOSPORT)

Paul Robinson, ex-goleiro da seleção inglesa, chamou atenção para a combinação de fatores presentes no torneio:

“Houve uma ou duas ocasiões em que esta bola não se comportou necessariamente como você esperaria.”

Segundo Robinson, o problema não estaria necessariamente apenas na bola, mas também nas condições extremas encontradas em diferentes sedes. A Copa passa por locais com características completamente distintas. Algumas partidas são disputadas em estádios fechados e climatizados, enquanto outras acontecem sob calor intenso ou em cidades de elevada altitude, como a Cidade do México.

Em locais mais altos, a menor densidade do ar reduz a resistência sobre a bola, aumentando a velocidade e alterando sua trajetória. O mesmo acontece em ambientes mais quentes, onde o ar também oferece menos resistência.

Os números ajudam a explicar a discussão. Apesar de a média de finalizações de fora da área não ser particularmente alta, a competição registra uma quantidade expressiva de gols de média e longa distância, além de diversos rebotes gerados por defesas incompletas dos goleiros.

As comparações com a Jabulani, bola da Copa de 2010, surgiram naturalmente. Na época, goleiros como David James e Hugo Lloris criticaram duramente o comportamento da bola, que ficou marcada justamente pela instabilidade em chutes de longa distância.

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Gramados entram na mira de jogadores e treinadores

Se a bola gera debate, os gramados também provocam reclamações ainda mais frequentes. O principal foco das críticas está nos estádios que precisaram substituir superfícies sintéticas por grama natural ou híbrida para atender às exigências da Fifa.

O MetLife Stadium, palco da estreia da seleção brasileira, contra Marrocos, e a casa da final do Mundial, tornou-se um dos principais alvos das reclamações. Após a vitória da França sobre Senegal, Adrien Rabiot foi direto ao comentar as condições encontradas.

“Não sei nem se podemos chamar isso de gramado, parece mais um sintético bem duro e rígido.”

Dias antes, Vinicius Junior também demonstrou insatisfação após atuar no local: “A grama seca rapidamente e o jogo logo fica muito lento.”

As críticas se repetiram em outras sedes. O técnico da Noruega, Stale Solbakken, reclamou das condições encontradas no Gillette Stadium. “O campo estava muito seco, a bola quase colava na grama”, disse.

Vinicius Júnior comemora gol da seleção brasileira sobre o Haiti
Vinicius Júnior comemora gol da seleção brasileira sobre o Haiti (Foto: IMAGO / Fotoarena)

O problema tem origem na própria estrutura de algumas arenas. Diferentemente dos estádios construídos para o futebol, muitos dos palcos da Copa possuem uma base de concreto sob o campo. Para receber a competição, foram instaladas camadas artificiais de drenagem, irrigação e grama híbrida sobre essa estrutura.

Segundo Didier Deschamps, isso altera diretamente o comportamento da bola:

“O fato de haver uma laje de concreto por baixo faz com que as fibras da grama sejam muito curtas. O quique da bola é diferente.”

Além da infraestrutura, a Fifa ainda precisa lidar com um desafio logístico enorme. O torneio é disputado em 16 cidades espalhadas por Estados Unidos, Canadá e México, regiões com climas radicalmente diferentes.

Enquanto algumas arenas conseguem controlar temperatura e umidade por meio de sistemas de climatização, outras permanecem totalmente expostas às condições meteorológicas locais. Nesse cenário, a discussão sobre a qualidade dos gramados e o comportamento da bola pode se tornar um dos temas centrais da Copa do Mundo de 2026 — principalmente se começar a impactar resultados.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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