Copa do Mundo

O Mundial que criamos: Como Pelé transformou a Copa do Mundo em um evento global

Colunista da Trivela, Tim Vickery lançará livro 'Mundiales: A South American History of the World Cup' ("Mundiais: Uma História Sul-Americana da Copa do Mundo")

Tenho um livro saindo no mês que vem — por enquanto somente em inglês, mas se alguém quiser publicar por aqui, estamos abertos. Trata-se de uma história da Copa do Mundo sob uma perspectiva sul-americana. Escrevi junto com o acadêmico conterrâneo Mark Biram, um especialista na Colômbia, e o livro se chama “Mundiales: A South American History of the World Cup”.

A nossa história tem um personagem central, que nasceu Edson Arantes do Nascimento, conhecido nos quatro cantos do planeta como Pelé. A trajetória dele na Copa é uma peça clássica de três atos: o herói aparece (58), o herói passa por desafios (62 e 66) e o herói volta em estilo triunfal (70), deixando o palco em alta.

Telão da Arena do Grêmio presta homenagem ao Rei Pelé
Telão da Arena do Grêmio presta homenagem ao Rei Pelé. Foto: Imago

É impressionante como a nossa história em “Mundiales” também se trata de uma peça em três atos, todos girando ao redor de Pelé. No início, temos a espera. A natureza democrática do futebol abre espaço para um talento assim, mas há barreiras sociais.

O Uruguai, com a sua abordagem progressista, foi o primeiro país sul-americano a dar oportunidades para todas as camadas da população. O primeiro “proto-Pelé”, então, foi José Leandro Andrade, vencedor das Olimpíadas de 1924 e 28 e da primeira Copa do Mundo em 1930. Depois vieram Leônidas da Silva (1938) e o mestre Zizinho (50), preparando o terreno.

O segundo ato é a chegada e a consagração. Doze anos que mudaram o mundo. Entre 1958 e 70, o Brasil ganhou três Copas em quatro. Pelé estabeleceu o Brasil como o “país do futebol”, admirado por todos. Mas fez muito mais: criou a Copa do Mundo como o evento enorme que é hoje. Mais que ninguém, ajudou a tornar o Mundial um evento televisivo, unindo o planeta durante um mês a cada quatro anos.

Aí vem o “depois”. Durante mais de meio século, a Copa viveu sob a sombra de Pelé. México 70 — o mundial que criou o hábito — é a referência eterna para todos os torneios subsequentes. Vimos isso na narrativa da última Copa, com Lionel Messi se mostrando à altura do desafio da história e atingindo o patamar de um Pelé ou de um Maradona.

Pelé The Collection press view, London, Britain – 1 June 2016 Pelé, football legend and three time World Cup Champion of
Pelé ergue a taça Jules Rimet em evento em 2016. Foto: Imago

Nada mais apropriado que os últimos dias conscientes de Edson na Terra tenham ocorrido enquanto o mundo do futebol estava reunido no Catar, reverenciando Pelé a cada gol e a cada momento de genialidade.

Não se trata somente de uma história bonitinha. Acredito que é uma aula poderosa — e cada vez mais necessária. Todos — ou pelo menos aqueles com coração e bom senso — estão pasmos com as revelações, ainda incompletas, do dossiê Epstein: a sujeira moral dos super-ricos ao redor do falecido financista Jeffrey Epstein.

A pedofilia, o tráfico de mulheres jovens e vulneráveis — já tínhamos alguma noção, mas agora surgem os detalhes. Talvez as novidades verdadeiramente chocantes sejam sobre a crença, bem enraizada nessa casta poderosa, sobre o restante da sociedade.

Esses “nerdzinhos”, titãs das finanças e da tecnologia, realmente se acham uma raça superior. Têm um desprezo total pela maioria da humanidade. A crença deles parece ser a seguinte: “o mundo não tem o suficiente de nós, mas tem um excesso muito grande de vocês”. Às vezes, parecem planejar um mundo sem o que eles chamam de “pobres”.

Dá para acabar com a força desse argumento nojento com somente quatro letras: Pelé. Um afrodescendente, nascido na pobreza apenas 55 anos após o fim da escravidão no Brasil, virou o nome mais importante do esporte mais popular do planeta.

A lição: talento, genialidade, inteligência e resistência são virtudes que, de jeito nenhum, encontram-se apenas nas classes dominantes. Basta que, da mesma forma democrática que acontece no futebol, se dê oportunidade para o talento florescer.

Livro 'Mundiales' conta história da Copa do Mundo pela perspectiva dos países da América do Sul. Crédito: Pitch Publishing
Livro ‘Mundiales’ conta história da Copa do Mundo pela perspectiva dos países da América do Sul. Crédito: Pitch Publishing
Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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