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O primeiro Uruguai x Brasil do Centenário iniciou a lenda de Leônidas da Silva na Seleção

A rivalidade supera os 100 anos de história. Brasil e Uruguai se enfrentaram pela primeira vez em 1916, pelo antigo Campeonato Sul-Americano, com vitória celeste por 2 a 1. Desde então, as duas seleções duelaram 75 vezes e acumularam incontáveis grandes histórias. A decisão da Copa de 1950 é o episódio mais lembrado, entre tantas outras partidas memoráveis – do jogo-desempate do Campeonato Sul-Americano de 1919 aos 90 minutos cardíacos no último encontro nas Eliminatórias, da “revanche” na semifinal de 1970 aos amistosos beneficentes dos veteranos do Maracanazo. E mesmo alguns embates perdidos no tempo trazem relatos empolgantes, entre duas camisas pesadíssimas.

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Um belo exemplo disso aconteceu em dezembro de 1932, pela extinta Copa Rio Branco – o torneio-amistoso recorrentemente disputado entre os dois países. Aquela seria a primeira vez em que o clássico seria realizado no já lendário Estádio Centenário, inaugurado para a Copa do Mundo de 1930. E o Brasil se imporia contra a melhor seleção do planeta, graças a um craque imberbe, que fazia sua primeira partida contra uma seleção principal: Leônidas da Silva.

Abaixo, resgatamos a história, contada em texto publicado aqui na Trivela em setembro de 2015, na ocasião dos 102 anos de nascimento do Diamante Negro. Por causa da data, o artigo gira justamente ao redor da participação do centroavante. O grande protagonista daquela peleja mítica.

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A Copa de 1938 é o maior momento de Leônidas da Silva, o grande craque brasileiro na primeira metade do Século XX. Com a camisa da Seleção, apenas Quarentinha possui uma média de gols tão expressiva quanto a do Diamante Negro: foram 37 tentos em 37 partidas pela equipe nacional. Uma trajetória que já começou grandiosa. A atuação do atacante na Copa Rio Branco de 1932 está entre as maiores de um jogador defendendo o escrete brasileiro. Aos 19 anos, a promessa do Bonsucesso encantou não só os compatriotas, mas também os uruguaios com uma tarde furiosa.

É verdade que Leônidas já tinha entrado em campo pelo Brasil uma vez antes da Copa Rio Branco, mas em jogo não-oficial. Em duelo preparatório contra o Andarahy, que pouco valeu, o garoto foi titular na goleada por 7 a 2, mas não marcou um gol sequer. Guardou todo o seu ímpeto para o duelo contra o Uruguai, franco favorito no Estádio Centenário. Diante de uma convocação repleta de jovens, a imprensa esportiva malhava o técnico Luiz Vinhaes antes do importante jogo contra a Celeste, então campeã mundial.

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Às vésperas do embarque para Montevidéu, Leônidas temia que sequer fosse integrado ao grupo, por conta de episódios de indisciplina. Antes de entrar no navio para ir ao Uruguai, o treinador ouviu o pedido expresso do presidente da CBD, Renato Pacheco, para que o atacante não entrasse em campo. E os problemas começaram já a caminho, com os atletas bebendo vinho e dançando com garotas na boate da embarcação. Só reforçavam a imagem de baderneiros que carregavam desde o Rio de Janeiro.

Apesar das recomendações, Leônidas iria a campo de qualquer jeito, e com uma dura missão. Tinha que substituir o atacante Nilo, uma das referências da Seleção. Encararia a Celeste de Nasazzi, Gestido, Cea e outros craques, ávidos pela revanche depois da derrota na Copa Rio Branco de 1931, nas Laranjeiras, por 2 a 0. E a crise se agravou a dois dias do jogo, quando, diante da rebelião do técnico sobre sua ordem, Pacheco se demitiu da presidência da CBD. Mais do que garantir a vitória, o jovem precisava provar que o dirigente estava errado, que Vinhaes acertara ao bater o pé.

A pressão não intimidava Leônidas, mesmo com os uruguaios esperando uma goleada. O clima da partida motivou ainda mais o jovem. Leônidas começou o embate atordoando a Celeste. Corria, driblava, finalizava. Inaugurando o placar, o que rendeu uma comemoração efusiva da Seleção. Mas também permitiu que o Uruguai abrisse a “caixa de ferramentas”, com o capitão Nasazzi pegando em cheio o tornozelo do brasileiro. Embora o médico brasileiro dissesse que não daria mais para o avante, ele quis permanecer em campo. Já na zaga, quem destoava era outro novato, Domingos da Guia.

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Leônidas voltou, mesmo sem estar com 100% de condições. No segundo tempo, espantou a torcida uruguaia com um passe de bicicleta. E fez o gol que definiu a vitória por 2 a 1 do Brasil, triunfante. Antes do apito final, Cea diminuiu para a Celeste e os anfitriões bateram um pouco mais no atacante brasileiro, que sequer terminou o jogo em campo. Não importava a circunstância. O que importava era a vitória. Leônidas saiu carregado nos braços dos companheiros, em celebração. Naquela excursão, durante os dias seguintes, os brasileiros também venceram Peñarol e Nacional, mas sem o jovem. Na volta ao Rio de Janeiro, de pária, o craque acabou recebido como herói por milhares de torcedores. Até mesmo desmaiou na multidão, enquanto desfilava em carro aberto com os outros jogadores da Seleção. Depois, o elenco foi recebido pelo presidente Getúlio Vargas.

A atuação, sobretudo, impressionou os uruguaios. A partir daquele momento, Leônidas recebeu o apelido de Diamante Negro. E, com o profissionalismo instituído no futebol do país vizinho, acabou levado pelo Peñarol. Causou impacto com a camisa aurinegra, mas ficou pouco tempo, antes de voltar ao Vasco. Disputou a Copa de 1934 e marcou o único gol do Brasil na derrota por 3 a 1 para a Espanha. Ainda que os maiores sucessos ainda estivessem por vir, com as camisas de Botafogo, Flamengo e São Paulo. Também com o branco da Seleção, na qual seus números seguem insuperáveis.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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