Copa do Mundo 2026

Paraguai cai de pé na Copa, mas estratégia sem margem para erro cobra preço contra a França

Albirroja congestionou espaços e incomodou os Bleus durante quase todo o jogo, mas viu um único vacilo definir a eliminação

A eliminação para a França nas oitavas de final da Copa do Mundo certamente deixará um gosto amargo no Paraguai. Não porque a equipe tenha sido dominada ou atropelada por uma das principais favoritas ao título, mas justamente pelo contrário. Durante 65 minutos, a Albirroja conseguiu executar praticamente à perfeição o plano desenhado por Gustavo Alfaro e fez os franceses temerem que a eliminatória se estendesse para a prorrogação.

O problema é que havia um detalhe impossível de ignorar: jogar durante 90 minutos apenas para se defender de uma seleção do calibre da França exige uma perfeição quase inalcançável. Contra um ataque recheado de talentos, qualquer pequeno deslize costuma ser suficiente para decidir uma eliminatória. Foi exatamente isso que aconteceu na Filadélfia.

O pênalti sofrido por Désiré Doué, convertido por Kylian Mbappé, encerrou a resistência paraguaia e mostrou o limite de uma estratégia construída para sobreviver.

Contra equipes desse tamanho, uma única jogada pode desfazer todo o trabalho de uma noite inteira.

Ainda assim, a campanha paraguaia termina longe de ser decepcionante. Depois de 16 anos afastada da Copa do Mundo, a seleção voltou ao maior palco do futebol mostrando exatamente a identidade que Gustavo Alfaro tentou resgatar: competitividade, disciplina tática e enorme dedicação.

Plano do Paraguai para frear franceses era muito arriscado

Gustavo Alfaro cumprimenta seus jogadores após eliminação para França
Gustavo Alfaro cumprimenta seus jogadores após eliminação para França (Foto: Allstar Picture Library / IMAGO)

Desde os primeiros minutos ficou claro qual seria a proposta paraguaia. Alfaro armou uma equipe em um rígido 5-4-1, congestionou a entrada da área, aproximou as linhas e praticamente entregou a posse de bola aos franceses. O objetivo era simples: reduzir espaços, impedir acelerações de Mbappé, Dembélé e companhia, e transformar o jogo em uma batalha física.

Sob esse aspecto, o plano foi um sucesso durante boa parte da partida. A França rodou a bola de um lado para o outro, encontrou dificuldades para infiltrar e quase nunca conseguiu atacar em velocidade — cenário que mais favorece seus jogadores de frente. A compactação paraguaia obrigou os Bleus a cruzarem bolas na área e a apostarem em soluções pouco habituais, exatamente o tipo de partida que Alfaro imaginava.

Abdicar do ataque também fazia sentido dentro do contexto. Tentar disputar um jogo aberto contra uma seleção tecnicamente superior poderia significar oferecer justamente aquilo que a França mais gosta: espaço para correr. O treinador paraguaio preferiu diminuir o número de situações de jogo e apostar que uma oportunidade surgiria em uma bola parada, em um contra-ataque ou, no limite, nos pênaltis.

Mas havia um risco evidente nessa escolha.

Quando uma equipe passa praticamente toda a partida defendendo, ela precisa acertar absolutamente tudo. Cada cobertura, cada dividida, cada encaixe de marcação e cada saída de bola tornam-se decisivos. Basta um drible, um lance individual ou um erro de tempo para que todo o planejamento desmorone.

Foi o que Doué causou quando saiu do banco. Em uma de suas primeiras participações, o jovem atacante venceu o duelo individual pela esquerda, rompeu a última linha defensiva e sofreu o pênalti que definiu a classificação francesa. Não foi uma sucessão de falhas paraguaias. Bastou uma. Contra uma seleção desse nível, uma única brecha costuma ser suficiente.

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Campanha recoloca Paraguai no mapa e deixa legado para o futuro

Eliminar a Alemanha foi a grande façanha do Paraguai na Copa do Mundo 2026
Eliminar a Alemanha foi a grande façanha do Paraguai na Copa do Mundo 2026 (Foto: Moritz Müller / IMAGO)

Se a eliminação dói, ela também não apaga o que o Paraguai construiu ao longo deste Mundial.

O início, inclusive, foi turbulento. A goleada por 4 a 1 sofrida diante dos Estados Unidos parecia indicar uma campanha curta. A reação, porém, mostrou a capacidade de reconstrução de um grupo que nunca perdeu a convicção em sua proposta.

Na rodada seguinte, a Albirroja derrotou a Turquia por 1 a 0 mesmo atuando boa parte da partida com um jogador a menos. Depois, segurou um empate sem gols contra a Austrália e, com quatro pontos, avançou como um dos oito melhores terceiros colocados — possibilidade criada pelo novo formato da Fifa para a Copa do Mundo com 48 seleções.

Foi somente o começo da história. Nas fases eliminatórias, o Paraguai protagonizou a maior surpresa do torneio ao eliminar a tetracampeã mundial Alemanha. Abriu o placar com Julio Enciso, sofreu o empate de Kai Havertz, resistiu durante toda a prorrogação e mostrou enorme frieza para vencer por 4 a 3 nos pênaltis, em um resultado que chocou o futebol mundial.

Naturalmente, a classificação alimentou um sonho ainda maior. Se havia sido possível derrubar a Alemanha, por que não repetir a dose diante da França?

O roteiro quase voltou a funcionar. Mais uma vez, o time se defendeu com coragem, aceitou sofrer sem perder a organização e levou um adversário muito mais talentoso ao limite. Desta vez, no entanto, a margem para o improvável terminou um pouco antes.

O Paraguai deixa a Copa eliminado, mas fortalecido. Depois de 16 anos longe dos Mundiais, reencontrou sua identidade competitiva, recuperou o respeito internacional e mostrou que continua sendo uma seleção difícil de enfrentar.

Talvez o maior aprendizado esteja justamente na derrota para a França: competir contra gigantes exige organização e entrega, mas, em algum momento, também é preciso encontrar maneiras de machucá-los.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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