‘Aquela Copa do Mundo mudou a minha vida’: Argentina x Inglaterra de 1986 marcou a vida desse argentino
Argentina e Inglaterra voltam a se enfrentar no Mundial após 40 anos
A Copa do Mundo 2026 tem, entre as suas marcas, os reencontros. Desde o retorno do Mundial a dois dos países-sede — Estados Unidos e México –, que voltaram a receber uma edição do torneio, até mesmo às rivalidades carregadas de história.
A segunda semifinal será palco de uma delas. Inglaterra e Argentina voltam a se enfrentar em um duelo carregado de rivalidade nesta quarta-feira (15), às 16h. Nos gramados, em 1986, as equipes viviam momentos distintos. A Argentina vinha da conquista do seu primeiro título, conquistado em 1978, mas eliminada na segunda fase quatro anos depois.
Já a Inglaterra tinha como sonho levantar a taça novamente após 20 anos, em meio a um período repleto de campanhas ruins, que resultaram na ausência dos ingleses em duas Copas.
Argentina x Inglaterra: Tensão em campo após guerra fora dele
Para entender o sentimento de uma partida com rivalidade histórica nas Copas, a Trivela conversou com o argentino Esteban Bekerman, que revisitou as memórias da adolescência para relembrar a histórica partida de 1986 que teve os argentinos vitoriosos.
— Eu estava na casa de um amigo do meu bairro, Julián, com os pais e amigos deles. Todos assistindo sentados a uma pequena televisão colorida localizada na sala de jantar, perto de uma mesa — iniciou.
Em junho daquele ano, as seleções se encontravam no Estádio Azteca, no México, para a disputa das quartas de final. A partida aconteceu apenas quatro anos após o fim da Guerra das Malvinas, território localizado no Atlântico Sul e que era disputado entre ingleses e argentinos.
O território está sob domínio britânico desde 1833, mas esse controle é contestado há anos pela Argentina, que acredita que as ilhas lhe pertencem. O conflito armado durou três meses e vitimou 649 militares argentinos, 255 militares britânicos, além de três civis residentes da ilha. O Reino Unido permaneceu com a posse da região. A guerra deixou marcas, em especial, no lado argentino, derrotado no confronto.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F07%2FICONSPORT_004599_0068-1.jpg)
Em campo, Diego Maradona entraria para a história por motivos distintos naquele jogo. O primeiro deles começou aos seis minutos do segundo tempo, quando o camisa 10 pulou para disputar uma bola com o goleiro Peter Shilton.
O argentino levantou o braço e deu um leve soco com a mão para empurrar a bola para o gol, passando despercebido pelo árbitro. O gol, celebrado pelos argentinos e motivo de irritação dos ingleses, entrou para a história das Copas e foi denominado pelo próprio Maradona, anos depois, como “A mão de Deus”.
Mas minutos depois, o próprio craque marcou o que seria considerado pela Fifa o gol do século. Aos 12 minutos, Maradona arrancou do meio-campo e, com dribles secos, avançou até a área, bateu Shilton e marcou uma pintura. Gary Lineker até chegou a descontar no final da partida, mas a Inglaterra acabou eliminada. Essa é, até hoje, uma das maiores vitórias da história da Argentina.
— Para mim, aquela vitória não teve um significado muito especial porque eu tinha apenas 14 anos, mas para muitos argentinos foi uma espécie de revanche pelo que havia acontecido na Guerra das Malvinas –, contou Bekerman.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F07%2FICONSPORT_004599_0019-scaled.jpg)
Com a vitória sobre os ingleses, a Albiceleste ainda eliminou a Bélgica na semifinal com dois gols de Maradona. A grande decisão foi disputada contra a Alemanha Ocidental e terminou com a conquista do bicampeonato argentino, em uma vitória por 3 a 2.
— No meu caso particular, foi uma alegria e um deslumbramento que me levaram a retomar a paixão pelo futebol, depois de alguns anos em que eu praticamente não tinha dado atenção ao esporte. Sem dúvidas, aquela Copa do Mundo mudou a minha vida — ressaltou.
A pauta das Malvinas (ou Ilhas Falkland) não morreu após a Copa de 1986, pelo menos na Argentina. Até os dias de hoje, ainda é lembrada por argentinos, de diferentes de faixas etárias, como uma questão de honra e uma ferida aberta no país. Bekerman conta que, apesar do tempo, o duelo entre os países no futebol sempre terá uma simbologia para além do esporte.
— O valor simbólico daquela partida e da desta quarta-feira é parecido, embora em 1986 o sentimento de estar disputando algo além de uma simples partida certamente estivesse mais presente para muitos por causa da proximidade com a guerra. Mas, para a Argentina, enfrentar a Inglaterra sempre significará algo muito especial, único e com uma forte carga simbólica pelas relações históricas entre os dois países — explicou.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F07%2FICONSPORT_004606_0134-scaled.jpg)
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Despedida de Messi e um novo significado
Em 2026, uma reedição da rivalidade na Copa do Mundo ganha forma. Pelo lado dos argentinos, Lionel Messi representa o grande ídolo da Albiceleste, com protagonismo em uma campanha que busca o tetracampeonato, onde tornou-se o maior artilheiro da história do Mundial e que deverá marcar a sua despedida no torneio.
Por outro lado, a Inglaterra tem uma geração que voltou a fazer com que o país sonhe em chegar a uma final do torneio. Com um elenco considerado um dos mais talentosos da história do país, os ingleses contam, acima de tudo, com a liderança de Harry Kane e de um Jude Bellingham decisivo.
— Sobre a importância de uma partida e outra, acredito que são semelhantes. A desta Copa tem alguns detalhes que a tornam, não sei se mais importante, mas certamente mais esperada e com capacidade de atrair mais atenção em nível mundial do que a de 1986: por um lado, ser o primeiro confronto de Messi contra a Inglaterra e aquele que pode marcar o fim do seu ciclo com a seleção; por outro, que, diferente de uma classificação para a semifinal, está em jogo uma vaga na final, então não haverá mais partidas no dia e todo o mundo do futebol estará atento a esta — comparou Berkerman.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F06%2Flionel-messi-argentina-x-argelia-scaled.jpg)
Quatro décadas depois, os cenários em campo continuam semelhantes. Dessa vez, os argentinos chegam ao torneio após a conquista do Mundial em 2022; enquanto os ingleses ainda tentam disputar a sua segunda final na história.
Bekerman acredita que não será um confronto fácil, especialmente por toda a expectativa depositada nos ingleses para que a atual geração consiga encerrar um jejum de títulos que já dura seis décadas.
— Em 1986 a Inglaterra estava há 20 anos sem conquistar um título mundial e agora está há 60, então a frustração caso sua seleção não consiga chegar à final talvez seja ainda maior para muitos que, mesmo já sendo idosos, nunca puderam desfrutar de um título mundial, ou pelo menos não em uma idade em que pudessem realmente compreender aquela conquista– destacou.
— Para a Argentina, por outro lado, depois de ser campeã do mundo em 2022, seria uma cereja no bolo gloriosa, mas talvez não algo tão de vida ou morte como foi em 1986 ou como é esta partida para os ingleses –.