Copa do Mundo 2026

O renascimento da Espanha: Como a Fúria confirmou o favoritismo e foi campeã merecida da Copa do Mundo

Após três Copas frustrantes, seleção espanhola encontrou equilíbrio entre tradição e inovação para recuperar o protagonismo

Poucas seleções precisaram lidar com um peso histórico tão grande quanto a Espanha depois da era mais vitoriosa de sua história. A equipe que encantou o planeta entre 2008 e 2012, campeã de duas Eurocopas e da Copa do Mundo de 2010, transformou a posse de bola em identidade e parecia ter encontrado uma fórmula definitiva para dominar o futebol internacional.

A realidade, porém, foi bem diferente. Vieram as eliminações precoces nas Copas de 2014, 2018 e 2022, acompanhadas pela sensação de que o modelo havia envelhecido e de que o país já não produzia jogadores capazes de sustentar aquele nível de excelência.

Dezesseis anos depois do título na África do Sul, a Fúria volta ao topo do mundo por um caminho que respeita sua tradição, mas está longe de ser uma simples reprodução do passado.

A seleção comandada por Luis de la Fuente recuperou princípios históricos do futebol espanhol, incorporou características mais verticais e físicas, e construiu um time que representa a versão mais completa da Fúria desde a geração de Xavi, Iniesta, Busquets, Casillas e Sergio Ramos.

Mais do que levantar uma segunda Copa do Mundo, a Espanha encerra um ciclo de reconstrução iniciado ainda nas categorias de base. O sucesso não nasceu por acaso nem exclusivamente do talento de uma geração promissora. É consequência de um projeto que atravessou anos, sobreviveu às frustrações e encontrou em De la Fuente o treinador ideal para conectar passado, presente e futuro.

A conquista da Eurocopa de 2024 já havia recolocado a seleção no centro do futebol europeu. Agora, o título mundial confirma definitivamente a retomada espanhola.

Luis de la Fuente: o arquiteto da geração espanhola que ajudou a formar

Luis de la Fuente, técnico da seleção espanhola
Luis de la Fuente, técnico da seleção espanhola (Foto: Joeran Steinsiek / IMAGO)

Se há um rosto que simboliza essa reconstrução, ele é o de Luis de la Fuente. Diferentemente de muitos treinadores de seleções nacionais, que assumem elencos já formados, o técnico espanhol conhece boa parte de seus jogadores desde a adolescência.

Antes de chegar ao comando da equipe principal, conquistou a Euro Sub-19 de 2015, a Euro Sub-21 de 2019 e a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021. Ao longo desse percurso, participou diretamente da formação internacional de atletas como Mikel Oyarzabal, Fabián Ruiz, Dani Olmo, Mikel Merino, e outros nomes que mais tarde se tornariam protagonistas da seleção principal.

Quando assumiu a Espanha após a Copa do Mundo de 2022, encontrou uma equipe que ainda buscava dar o próximo passo. Luis Enrique havia recuperado competitividade e recolocado a seleção entre as protagonistas, mas a eliminação para Marrocos evidenciou um problema recorrente: muito controle da posse, pouca capacidade de transformar domínio territorial em vantagem no placar.

De la Fuente optou por evoluir essa identidade, não substituí-la.

A Espanha continua valorizando a circulação rápida da bola, a ocupação inteligente dos espaços e controle do jogo, mas passou a atacar com muito mais profundidade. Os extremos deixaram de servir apenas para manter amplitude e passaram a desequilibrar no um contra um. As transições ganharam velocidade, a pressão pós-perda tornou-se mais intensa e o time passou a variar muito mais os ritmos das partidas.

Essa evolução também passa pela liderança de Rodri. Mais do que um volante de construção, tornou-se o grande organizador da equipe. É quem dita o ritmo quando a partida exige paciência, acelera o jogo ao identificar espaços entre as linhas adversárias e oferece equilíbrio defensivo para que os jogadores mais criativos atuem com liberdade. Sua capacidade de quebrar linhas com passes verticais tornou a circulação espanhola muito menos previsível do que em ciclos anteriores.

Os resultados comprovam a consistência do trabalho. Depois de conquistar a Liga das Nações de 2023 e a Eurocopa de 2024, De la Fuente fecha o ciclo com o maior título possível, consolidando um currículo raro para um treinador que praticamente percorreu todas as etapas da seleção espanhola.

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Uma Espanha que preservou a essência, mas abandonou antigos dogmas

Lamine Yamal e Pedro Porro em ação pela seleção espanhola
Lamine Yamal e Pedro Porro em ação pela seleção espanhola (Foto: Vanessa Carvalho / ZUMA Press Wire / IMAGO)

Durante anos, qualquer discussão sobre a Espanha inevitavelmente remetia ao “tiki-taka”. Era um conceito praticamente inseparável da seleção. Hoje, essa definição já não basta.

A equipe continua entre as melhores do mundo quando o assunto é controle da posse, mas já não depende exclusivamente dela para dominar partidas. A posse deixou de ser um fim em si mesma e passou a ser uma ferramenta dentro de um repertório muito mais amplo.

Nas pontas, a transformação é evidente. Lamine Yamal e Nico Williams deram à Espanha um recurso que nem sempre esteve presente em suas grandes gerações: o desequilíbrio individual permanente, ainda que nesta Copa a dupla não tenha entregado nem de perto seu poderio por conta da condição física. Ambos aceleram o jogo, enfrentam defensores no mano a mano e criam vantagens sem depender somente das tradicionais combinações curtas pelo corredor central.

No meio-campo, a mobilidade constante de Dani Olmo, Fabián Ruiz e Pedri impede que a circulação se torne previsível. Todos alternam posições, aproximam-se da bola e atacam espaços, oferecendo múltiplas linhas de passe ao portador.

Na defesa, a renovação aconteceu com naturalidade. Pau Cubarsí simboliza essa nova geração de zagueiros espanhóis. Ainda muito jovem, consolidou-se durante a campanha como um dos grandes achados do ciclo pela serenidade para sair jogando sob pressão, qualidade técnica e excelente leitura dos espaços. Tornou-se um retrato da confiança que a Espanha deposita em seus talentos formados em casa.

A força defensiva, porém, vai além dos nomes individuais. A Fúria voltou a defender coletivamente em altíssimo nível. Pressiona alto, encurta espaços, recupera rapidamente a posse e raramente permite que o adversário encontre conforto para construir ataques.

E é justamente essa combinação entre talento individual e organização coletiva que faz desta equipe uma das mais completas do futebol mundial.

Das frustrações pós-2010 ao (re)nascimento de uma nova potência

Seleção espanhola perfilada
Seleção espanhola perfilada (Foto: Grzegorz Wajda / SOPA Images / IMAGO)

O título conquistado na África do Sul, em 2010, criou um padrão praticamente impossível de sustentar. Quatro anos depois, a eliminação ainda na fase de grupos marcou o fim simbólico da geração campeã. Em 2018, a demissão de Julen Lopetegui dias antes da estreia — após o anúncio de seu acerto com o Real Madrid — mergulhou a seleção em um ambiente turbulento. Fernando Hierro assumiu o comando de forma emergencial, e a campanha terminou nas oitavas de final, diante da Rússia.

Em 2022, apesar da boa impressão deixada na estreia, a queda para Marrocos também nas oitavas voltou a escancarar as dificuldades para transformar domínio territorial em eficiência ofensiva.

A resposta espanhola nunca foi buscar soluções imediatistas. Ao longo dos últimos anos, a Real Federação Espanhola priorizou a continuidade do trabalho nas categorias de base, permitindo que diferentes gerações compartilhassem princípios semelhantes de jogo e chegassem à seleção principal já adaptadas às exigências do futebol praticado pela equipe nacional. Quando essa geração atingiu maturidade, encontrou justamente o treinador que participou diretamente de sua formação.

Poucas campeãs mundiais conseguem chegar ao topo por um processo tão coerente.

A Espanha apresenta um elenco profundamente comprometido com uma ideia coletiva. Os jogadores entendem os espaços, repetem comportamentos treinados há anos e demonstram enorme capacidade para adaptar o plano de jogo sem abrir mão da própria identidade.

Essa talvez seja a maior diferença em relação ao passado. A Espanha de 2010 dominava porque ninguém conseguia tirar-lhe a bola. A Espanha de 2026 domina porque sabe exatamente quando manter a posse, quando acelerar, quando pressionar e até quando defender mais baixo, sem perder organização.

Durante anos, o futebol espanhol procurou os sucessores de Xavi, Iniesta, Busquets, Casillas e Sergio Ramos. Descobriu, no caminho, que o verdadeiro legado daquela geração nunca esteve apenas nos nomes, mas na cultura construída ao longo de décadas.

A nova campeã do mundo não venceu por repetir o passado, e sim por compreender que tradição só permanece viva quando é capaz de evoluir.

Dito isso, sob o comando de Luis de la Fuente, a Espanha não reviveu a geração de ouro. Criou a sua própria.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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